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OS JERÓNIMOS SÃO PEQUENOS PARA DOIS MUSEUS

A polémica tem mais de 50 anos. E está de volta. Nos Jerónimos existem dois museus: o de Arqueologia, desde 1900, e o da Marinha, desde os anos 60. Fala-se agora na mudança do primeiro para a Cordoaria e do alargamento do segundo. A ideia é antiga - foi lançada  pela primeira vez pelo almirante Américo Thomaz.

Nada parecia poder deter o guerreiro lusitano. Numa caricatura na primeira página da revista humorística Sempre Fixe, a estátua, uma das mais célebres peças da arqueologia portuguesa, garante: "Apesar do inchaço das pernas e da falta de pés, correrei a batalhar para que não me desalojem da Praça do Império."

Ao lado, uma múmia egípcia manifesta a sua perplexidade: "Por pouco não me mandavam outra vez para o Egipto." E, por cima, a estátua romana de Sileno a dormir, queixa-se: "Depois de 50 anos a dormir profundamente em Belém, acordam-me agora para ir estranhar a cama em Telheiras!"

A revista dirigida por Artur Portela ironizava assim com uma polémica que, na época - estamos a falar de Fevereiro de 1956 -, agitava a sociedade lisboeta: a anunciada transferência do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) dos Jerónimos, em Lisboa, para outro local, permitindo assim o alargamento do Museu da Marinha. Curiosamente, meio século depois a polémica está de volta. E com poucas diferenças.

No início do mês, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, anunciou que o Museu de Arqueologia deverá deixar os Jerónimos e transferir-se para o edifício da antiga fábrica da Cordoaria, na Avenida da Índia. Na origem desta decisão está a necessidade de esvaziar as antigas Oficinas Gerais de Material do Exército, onde estão alguns serviços ligados à arqueologia, e onde será construído o novo Museu dos Coches. A Marinha cederia assim a Cordoaria e, em troca, receberia o espaço dos Jerónimos onde está o MNA.

A "luta" entre a Arqueologia e a Marinha pelos Jerónimos é muito antiga. Mas para a perceber é preciso recuar até ao final do século XIX, altura em que o então ministro das Obras Públicas, Bernardino Machado, contagiado pelo entusiasmo do arqueólogo José Leite de Vasconcelos, decidiu avançar para a criação daquilo a que inicialmente chamaram Museu Ethnographico Português, mais tarde Museu Etnológico, e por fim Museu Nacional de Arqueologia.

A fotobiografia de Leite de Vasconcelos, lançada no ano passado pelo MNA para assinalar os 150 anos do nascimento do seu fundador, conta a pequena epopeia que foi esse início do museu e a história deste homem de olhos tristes que percorria o país dirigindo escavações nesses tempos em que os arqueólogos usavam impecáveis fatos completos, com colete, relógio de bolso e chapéu de coco.

"Bem sei que nem a Archeologia nem a Ethnografia moderna restaurarão as finanças do país, se estas se perderem", escreve Leite de Vasconcelos em 1895. "Todavia, como o viver de um povo não é exclusivamente material, aquellas sciencias contribuem para que, pela investigação exacta e consciensiosa dos elementos da nossa nacionalidade, o sentimento desta se radique com solidez nas multidões."

Sem inveja
O museu inaugura-se em 1893 numa sala da Academia das Ciências, no Bairro Alto, mas em breve Leite de Vasconcelos recebe uma excelente notícia. Em 1900, o Governo entrega-lhe os espaços neomanuelinos do Mosteiro dos Jerónimos, anteriormente ocupados pela Casa Pia. "Felizmente consegui que o Governo me desse a mais linda casa a que podia aspirar para o museu! Não tenho inveja a nenhuns museus agora, porque estou magnificamente em Belém."

As peças foram transportadas - há, no livro, imagens das vitrinas ainda desarrumadas, e as peças espalhadas, antes da abertura ao público, em 1906. Numa folha, um funcionário meticuloso anotou, com letra perfeita e inclinada para a frente, a estatística dos visitantes: em 1913, por exemplo, o museu recebeu 6894 pessoas (hoje, um século mais tarde, tem uma média de 125 mil visitantes).

E a vida decorreu relativamente tranquila até meados dos anos 50, quando, conta Luís Raposo, actual director do MNA, surgiram "as primeiras tentativas da Marinha, através do respectivo ministro, almirante Américo Thomaz, para retirar o MNA dos Jerónimos". Uma das propostas, na altura, previa a construção de um museu de raiz para a arqueologia na Cidade Universitária (daí a referência do Sileno a "Telheiras"). "Era um projecto muito arrojado para a época, que representava uma ruptura muito grande com o espaço tradicional do museu, e por isso houve muita resistência."

Só no início dos anos 60, com Thomaz já Presidente da República, o Governo conseguiu finalmente instalar nos Jerónimos o Museu da Marinha, transferido do Alfeite. O MNA não saiu - garantindo um sono descansado ao Sileno -, mas perdeu a sua entrada, na extremidade poente do piso térreo (por onde, até hoje, se entra no Museu da Marinha). Começa então, segundo Luís Raposo, a falar-se, pela primeira vez, na hipótese da Cordoaria Nacional.

Ainda antes do 25 de Abril, em 72 e 73, volta a ser discutida a hipótese de construir um museu de raiz para a arqueologia. Mas nada muda. E, de repente, em 1976, no rescaldo do 25 de Novembro de 1975, surge um decreto do Conselho da Revolução que estabelece que todos os espaços dos Jerónimos não afectos ao culto devem ser entregues à Marinha. As pressões para o MNA deixar o convento continuam, conta Luís Raposo, e são então encomendados vários estudos e pareceres sobre a hipótese de uma mudança para a Cordoaria. Quase todos concluem que o edifício da antiga fábrica de cordas não é adequado para o museu, e que para se tornar necessitava de obras estruturais e profundas.

Todos querem a Torre Oca
O edifício da Cordoaria Nacional, onde durante séculos foram feitas as cordas para os navios portugueses, e depois também as velas e as bandeiras, foi, em 1996, considerado Monumento Nacional. Um estatuto que, afirma Jorge Custódio, presidente da assembleia geral da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, lhe dá "os mesmos direitos que, por exemplo, a Sé de Lisboa". Não pode, por isso, "ser olhado displicentemente".

Para Custódio, o ideal seria que a Cordoaria fosse usada como museu para a Marinha. Se isso não acontecer, "a Marinha estará a desperdiçar um lugar de relevo na sua própria história". E dá como exemplo a Corderie Royal, um edifício no qual a Cordoaria Nacional foi beber influências, e que a cidade francesa de Rochefort transformou num museu de sucesso.

Mas a vizinhança entre os dois museus não se fez sem diálogo e cedências. Em 1993, a Marinha dá a Torre Oca ao MNA, um espaço que o MM utilizara como armazém e que os responsáveis da arqueologia consideravam essencial para alargar as suas actividades. Trata-se de uma torre que restou da derrocada, no final do século XIX, de uma construção na parte central do mosteiro, e que nunca foi reconstruída.

Há poucas semanas voltou a falar-se da devolução da torre ao MM, que aí pretende colocar peças que teria que retirar da Cordoaria. A notícia indignou o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (GAMNA), que ameaçou com "resistência civil", se a torre fosse retirada ao museu.

Na última década, consolidou-se a ideia de que a melhor solução seria ampliar as instalações do MNA dentro dos Jerónimos e foi encomendado um projecto de arquitectura. Em 1999, o então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, decidiu que essa era a via a seguir. A notícia saiu em todos os jornais.
Mas as obras nunca avançaram. Até que, no final de 2008, a velha ideia de mudar o museu para a Cordoaria volta em força. Desta vez, a necessidade de construir o novo Museu dos Coches está a criar uma pressão adicional. A opinião pública agita-se. Petições começam a circular na Internet. A história repete-se para os lados de Belém. E o sono de Sileno é perturbado mais uma vez.

Texto: Alexandra Prado Coelho
in Jornal Público | 20 de Fevereiro de 2009


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