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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

- Helena Vaz da Silva
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A PALAVRA DE JBC

A PALAVRA DE JBC

DEUS E O TERRÍVEL

Chamou-se Odon von Horvath. Foi um dos muitos maiores daquela nebulosa de génios que alumiou com sete candelabros de ouro o chamado "apocalipse jubiloso", o de Viena, entre os finais do século XIX e os inícios do século XX.

Na Primavera de 1938, o ano do "Anschluss", Odon von Horvath, que já em 1933 fora forçado a abandonar a Alemanha, trocou Viena por Paris. Gide, que, por influência de Béguin, lera algumas das peças e romances dele, prometeu-lhe um vantajoso contrato com a Gallimard. A 1 de Junho, jantou com uns amigos. Estava particularmente bem disposto. Depois, decidiu ver a "Branca de Neve e os Sete Anões", em estreia europeia numa sala dos Champs-Elysées. Durante a projecção, desencadeou-se uma típica borrasca estival. Coisa de trovoada. Apesar disso, quando o filme acabou, Von Horvath resolveu atravessar a avenida. Tudo estava deserto, o hotel ficava perto. Um grande relâmpago fendeu ao meio um castanheiro. Um dos ramos atingiu-lhe a parte posterior do crânio. Morreu logo. Tinha 36 anos.

No prefácio à primeira edição francesa de "Jugend ohne Gott" ("Juventude sem Deus"), último livro de Horvath, editado pela Plon em 1939, o tradutor e introdutor (Armand Pierhal) resume três atitudes típicas perante esta morte absurda (como se alguma houvesse que o não fosse). O fatalista invoca o destino: "Estava escrito." O materialista diria que, entre quatro milhões de parisienses, cada um deles tinha uma hipótese em quatro milhões de ser a vítima. Calhou a Von Horvath, podia ter calhado a qualquer M. Dupont ou a qualquer Mme Dupont. Teorias do acaso, cálculos das probabilidades. O crente pensaria nos insondáveis desígnios de Deus, que não cabe ao homem tentar perscrutar. Um dia, quando deixarmos de ver como num espelho, para ver "Face a Face", perceberemos.

Mas, no mesmo "Jugend ohne Gott", Odon von Horvath - ele próprio um crente -, num capítulo chamado "À procura dos ideais da humanidade", dá-nos ou dá-se outra resposta. O narrador, um professor perseguido por uma comunidade maléfica, identificável com um grupo nazi, vai falar com um padre num dos momentos mais tensos e trágicos da sua vida (um aluno assassinado). O padre cita-lhe Santo Inácio ("Entro, com qualquer homem, pela porta de casa dele, para, quando sairmos, o poder reconduzir para a minha"). Cita-lhe Anaximandro ("Todas as coisas regressarão de onde vieram, quando cumprirem o destino delas. Pois todos devem expiar a culpa da sua existência, segundo a ordem do tempo"). O professor acha-o "diabolicamente inteligente", mas não se convence com as razões dele para explicar os males do mundo. Até que se chega à passagem que, depois, domina o livro todo.

Diz o padre: "Deus vai por todos os caminhos." Objecta o professor: "Como é que Deus pode passar pelo caminho em que vivem estas crianças miseráveis, vê-las e não as ajudar?" "Ele calou-se. Bebeu do seu vinho a lentos golos meditativos. Depois, olhou-me de novo: 'Deus é o que há de mais terrível no mundo.'" O professor ficou tão estupefacto que nem acreditou no que tinha ouvido. Daí para diante, repetiu-o muitas vezes, como se se quisesse convencer a si próprio.

Os acontecimentos são-nos incompreensíveis porque queremos julgá-los imediatamente, antes de lhes conhecermos todos os prolongamentos e consequências. Mas, para Deus, não há o "imediatamente", não há a árvore que de súbito cai numa noite de trovoada. Há o tempo todo, todo o passado, todo o presente, todo o futuro. E é isso que é terrível. "O mais terrível no mundo."

Jesus Cristo soube-o quando pediu ao Pai - que é Ele ou que também é Ele - que afastasse o cálice, na noite no Horto. Ou, na Cruz, quando perguntou: "Pai, Pai, porque me abandonaste?" No imediato da agonia e da morte, o Filho do Homem, que Ele também era, deixou de ver o tempo todo (ou só viu outro tempo todo, o nosso) e sentiu o terrível abandono de Deus, a terrível solidão de Deus. Mas nem é preciso ir até esse momento supremo. S. João, no seu Evangelho, quando narra a ressurreição de Lázaro, conta que Jesus "começou a chorar" e "estremeceu interiormente", quando chegou junto da sepultura de Lázaro, morto havia já quatro dias. Porque chegou Jesus tão tarde? Porque chorou Jesus? Porque estremeceu interiormente? Vinha para ressuscitar Lázaro e não devia haver razão para lágrimas, mas para sorrisos, como o da filha de Inger no filme de Dreyer. Admitamos que a sua natureza humana o levou a duvidar da possibilidade do milagre. Faltava tão pouco para que ele e Lázaro se reencontrassem no Paraíso que o choro permanece inexplicável. A não ser que, vendo todo o tempo e todas as mortes naquele morto que ele amava (S. João o diz), Ele chorasse por todos nós. Ele chorasse porque "não foi para morrer que nós nascemos" (como Jorge de Sena escreveu num poema belíssimo), ele chorasse "como um juiz na meta da corrida / torcendo as mãos de desespero e angústia / porque não pode fazer nada e vê / que os corredores desistem, se acomodam / ou vão tombar exaustos no caminho".

Talvez chorasse por ele próprio e pela Sua própria morte. Porque nós choramos sempre por nós na morte dos que amamos, porque morremos mais do que eles nesta vida reversa da Ressurreição.

S. Bernardo tem um sermão lindíssimo sobre este tema, respondendo aos frades de Clairvaux - aos seus frades - que o censuravam por ele permanecer fechado na cela a chorar, depois da morte de um irmão muito querido. O frei Mateus Cardoso Peres O.P. deu-me a ler esse sermão há muitos, muitos anos.

"E dizem-me: Não chores. Arrancam-me o coração e dizem-me: Não sintas. A minha resistência não é a da pedra, não é de bronze a minha carne. Sofro e choro e a dor é dentro de mim e não me deixa (...). Tenho medo da morte, da minha e da dos outros."

Ou, voltando a Dreyer, que há de mais belo do que as lágrimas de Mikkel, o viúvo, quando responde ao pai, que lhe diz que a alma da mulher está junto a Deus: "Não lhe amava apenas a alma. Amava-lhe também o corpo." A saudade dos corpos (daí a nossa necessidade de imagens) dói muito mais do que a saudade das almas.

"A extrema grandeza do cristianismo vem de ele procurar não um remédio sobrenatural contra o sofrimento mas um uso sobrenatural do sofrimento. "Meu Deus terrível, faz com que eu perceba o sentido desta frase de Simone Weil, publicada em "La Pesanteur et la Grâce", dez anos depois da morte de Odon von Horvath, que também escreveu no livro deste meu deposto Agosto que Deus, o Deus Terrível, é O que nos olha com olhos "calmos como os pântanos profundos do meus país natal" e "tristes como uma infância sem luz".

Assim me fico à tua beira. Tu sabes que és tu.
 
João Bénard da Costa
In Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, ed. Assírio & Alvim


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