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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

- Helena Vaz da Silva
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"SE/NÃO - POESIA e desenho"

EPISÓDIOS DE UMA POÉTICA DO COMPROMISSO

(...)

      Se... não...

      Estamos numa idade de compromissos. Multiplicam-se-nos na vida os episódios de compromisso. Mas nem todos os compromissos e concessões são para valer a pena. (Se... não.) É preciso pesar a qualidade da nossa entrega. Quem é e o que quer, o destinatário dos meus entusiasmos? Se... muito bem, vivamos, ergamos a taça, cantemos o hino, bebamos até ao fim da noite, e que se lixe. Mas se... ah, então não, cumpramos apenas a formalidade da morte natural e da loucura indispensável e do dinheiro e do consumo (…) e dos prazeres mais pequenos (e por isso menos comprometedores) e não nos entreguemos por inteiro ao que nos merece a inteireza...

      O compromisso é o método da vida. E o compromisso como método de vida pode representar uma muito íntima espécie de violência, a sevícia moral auto infligida, uma sujeição a desígnios que circulam do lado de fora da excelência dessa vida.

      O compromisso é um método de vida que se aceita e se recusa, ou que se delimita claramente na sua extensão e na sua moral.

 

      Em SE/NÃO, Alice Valente ensaia a poética de um compromisso – a meu ver. Compromisso com a vida e com a totalidade. O que me lembra – sem comparações, só por recorrências de sugestão – aquele outro postulado poético do compromisso que inolvidavelmente devemos a José Régio, o não sei para onde vou, sei que não vou por aí. Leio e digo para mim: não sei que outros compromissos doravante serei obrigado a celebrar, mas esses, quaisquer que sejam, é um caso a ver, sei que não os faço, que jamais os farei.

 

(…)

      Li o livro. E no livro havia isto:

 

Mas continuamos todos juntos

Nesta total indiferença

O fazer e entender a não perceber

Se virão mais dias de razões

Ocultando a própria Razão.

(...)     

      Sim estamos sentados ou deitados

      Cansados e esquecidos de memórias

      De dias

      Calmos e serenos

      Caídos todos em esquecimento

      Não estamos perturbados

      Mas inquietos

      No dormir ou no pensar.

(...)

      Será difícil

      O entendimento obrigatório

      Da igualdade indiferente

      Na imensidão

      Das diferentes diferenças.

(...)

      O encontro da não procura

      Do lado de cada um dos lados

      Da alegria da cor

      Das muitas cores

      Daquela que é única.

 

 

E ainda isto:

      E trabalhar com as imagens

      Na imagem

      Revelar os desejos

      Em imagens desenhadas sem papel

(...)

      Situações diferentes

      Diferenciadas

      A compreender

      A incompreensão dos outros

      A não compreender os outros em compreensão

(...)

      Olhar o som e a música

      Que não ouvimos

      E ficar assim por sentar

      A pensar e a

Sentir

O que não pode ser sentido

(...)

Conforto necessário

Do estudo de uma lição

Ensinada

Ainda e afinal

Por aprender

 

      Isto soa-me a poesia. Soa-me a verdade.

      Decepção íntima e surda? Talvez. Quanto à comunicação, trato e convivência presencial Alice Valente pareceu-me uma saudável poeta feita à vida real e sem tempo para decepções.

      Decepção? De quê? Oh... de quê... a vida.

(…)

 

      Não foi para isto, para esta vida, que eu vim pensará todo o que se sentir palpitante e misericordiosos de palavras: esse, o poeta.

O sempre venerado T.S. Elliot bem dizia:

 

Unreal City

Under the brown fog of a winter dawn

A crowed flowed over London Bridge, so many,

I had not tought death had undone so many.

 

 (…)

Vivemos na lucidez e na incorrecção social do nosso pessimismo. Atingimos a lógica final de forma e fatalidade dos diversos episódios do nosso compromisso, numa retórica de decepção compensada de quando em vez por deslumbramentos encomendados, porque a existência pode estar a ser um ideal perdido.

 

      Regresso de uma especulação do absurdo na voz de Alice Valente: que tocam/ sempre tocados / magoam-se em seu doer/ deixar tudo e seguir a seguir. Ou o trágico recurso à aceitação da vida: alheios/ negativo não demais/ do positivo de um não/ do sim obrigado ao obrigatório.

      Inventário de antíteses:

 

Calor em ventos sobre o largo

Em pleno planam circundadas

Sozinhas e rodeadas vivem

 

      Ou testemunho de um brusco tempo que vai abandonando as suas substâncias:

 

Apenas o tempo necessário para tudo acontecer

O tudo que não retira nada ao já existente.

(...)

Falsas ocupações

De rezas sem orações.

 

      Acaso não se sabia que todo o Nada, como todo o tempo, pouco passa de um compromisso?

 

Não querer

Resfriados pelo calor do pensar

A sentir o querer a não querer

E não ter a Ter

      Ter sempre sem ter.

 

(…)

      Leio o crucial poema O NÃO  e julgo que nos dias flamejante da vida que corre pronto se percebe do optimismo a função de ser antecâmara da mediocridade, carro alegórico de todos os sons e de todos os sins na sociedade que recentemente alguns fundaram sobre um sistema de sins. Há sins negativos/ proveniente de sistemas obrigatórios. Dizer sim, ou dizer não à sociedade dos outros, ao mundo, à vida? Comprometer-se. Porquê. Para quê.

      E sobre a civilização artificial de momento as contradições, falsamente resolúveis pela positiva nas instituições do sim militante. Civilização que perdeu muita capacidade de renúncia e sorri de aceitação ao olhar o prato de lentilhas do previsível. Em que condição da consciência e da identidade poder ocorrer a renuncia ao compromisso, ao não? Quando é que uma renúncia do aparente se prefigura num sim.

 

(….)

      Obrigatório

      Dizer o mesmo

      Repetição

Ou:

      Será que a vida e o amor

      São feitas da não vivência

      Que nos fazem continuar a viver?

 

      Viver, sim, mas devagar, ou no escondido essencial de cada um, na obsessão do devir e da consequência, na coacção de uma angústia, de uma duração, na inconsequência de tudo, o Homem suspeito de nada ter que encontrar dentro de si próprio, a roer o que resta do imóvel/ que não foi escurecido por um verniz qualquer, e pegou nesse mesmo  (tempo) que não era o seu / e levou-o/ precisava de todo o tempo / para se encontrar.

      Alice Valente não escapa (assume!) à retórica de decepção de quem se preparou para viver uma vida com os outros, as vidas de outros e as outras vidas que se contêm nos outros e independentes da sua própria, única, vida.

(…)     

      Água que bebo, que limpa, que lava

      Ligada constantemente

      E que sem ela seria impossível

      Viver-se

 

      Quase apetece descobrir no verso de Alice Valente a sensualíssima felicidade de um descontentamento.

      O que é razoável como rejeição da organização social dos contentinhos. Porque se para cumprir o desígnio e a tonalidade do tempo que gira em volta de mim eu tiver que desmentir a minha ideia, eu digo NÃO e Sou sem querer Ter, em vez de ter sem querer ser.

(…)

 

Excertos do prefácio de Joel Costa do Livro "SENÃO - POESIA e desenho"

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