
EPISÓDIOS DE UMA POÉTICA DO COMPROMISSO
(...)
Se... não...
Estamos numa idade de compromissos. Multiplicam-se-nos na vida os episódios de compromisso. Mas nem todos os compromissos e concessões são para valer a pena. (Se... não.) É preciso pesar a qualidade da nossa entrega. Quem é e o que quer, o destinatário dos meus entusiasmos? Se... muito bem, vivamos, ergamos a taça, cantemos o hino, bebamos até ao fim da noite, e que se lixe. Mas se... ah, então não, cumpramos apenas a formalidade da morte natural e da loucura indispensável e do dinheiro e do consumo (…) e dos prazeres mais pequenos (e por isso menos comprometedores) e não nos entreguemos por inteiro ao que nos merece a inteireza...
O compromisso é o método da vida. E o compromisso como método de vida pode representar uma muito íntima espécie de violência, a sevícia moral auto infligida, uma sujeição a desígnios que circulam do lado de fora da excelência dessa vida.
O compromisso é um método de vida que se aceita e se recusa, ou que se delimita claramente na sua extensão e na sua moral.
Em SE/NÃO, Alice Valente ensaia a poética de um compromisso – a meu ver. Compromisso com a vida e com a totalidade. O que me lembra – sem comparações, só por recorrências de sugestão – aquele outro postulado poético do compromisso que inolvidavelmente devemos a José Régio, o não sei para onde vou, sei que não vou por aí. Leio e digo para mim: não sei que outros compromissos doravante serei obrigado a celebrar, mas esses, quaisquer que sejam, é um caso a ver, sei que não os faço, que jamais os farei.
(…)
Li o livro. E no livro havia isto:
Mas continuamos todos juntos
Nesta total indiferença
O fazer e entender a não perceber
Se virão mais dias de razões
Ocultando a própria Razão.
(...)
Sim estamos sentados ou deitados
Cansados e esquecidos de memórias
De dias
Calmos e serenos
Caídos todos em esquecimento
Não estamos perturbados
Mas inquietos
No dormir ou no pensar.
(...)
Será difícil
O entendimento obrigatório
Da igualdade indiferente
Na imensidão
Das diferentes diferenças.
(...)
O encontro da não procura
Do lado de cada um dos lados
Da alegria da cor
Das muitas cores
Daquela que é única.
E ainda isto:
E trabalhar com as imagens
Na imagem
Revelar os desejos
Em imagens desenhadas sem papel
(...)
Situações diferentes
Diferenciadas
A compreender
A incompreensão dos outros
A não compreender os outros em compreensão
(...)
Olhar o som e a música
Que não ouvimos
E ficar assim por sentar
A pensar e a
Sentir
O que não pode ser sentido
(...)
Conforto necessário
Do estudo de uma lição
Ensinada
Ainda e afinal
Por aprender
Isto soa-me a poesia. Soa-me a verdade.
Decepção íntima e surda? Talvez. Quanto à comunicação, trato e convivência presencial Alice Valente pareceu-me uma saudável poeta feita à vida real e sem tempo para decepções.
Decepção? De quê? Oh... de quê... a vida.
(…)
Não foi para isto, para esta vida, que eu vim – pensará todo o que se sentir palpitante e misericordiosos de palavras: esse, o poeta.
O sempre venerado T.S. Elliot bem dizia:
Unreal City
Under the brown fog of a winter dawn
A crowed flowed over London Bridge, so many,
I had not tought death had undone so many.
(…)
Vivemos na lucidez e na incorrecção social do nosso pessimismo. Atingimos a lógica final de forma e fatalidade dos diversos episódios do nosso compromisso, numa retórica de decepção compensada de quando em vez por deslumbramentos encomendados, porque a existência pode estar a ser um ideal perdido.
Regresso de uma especulação do absurdo na voz de Alice Valente: que tocam/ sempre tocados / magoam-se em seu doer/ deixar tudo e seguir a seguir. Ou o trágico recurso à aceitação da vida: alheios/ negativo não demais/ do positivo de um não/ do sim obrigado ao obrigatório.
Inventário de antíteses:
Calor em ventos sobre o largo
Em pleno planam circundadas
Sozinhas e rodeadas vivem
Ou testemunho de um brusco tempo que vai abandonando as suas substâncias:
Apenas o tempo necessário para tudo acontecer
O tudo que não retira nada ao já existente.
(...)
Falsas ocupações
De rezas sem orações.
Acaso não se sabia que todo o Nada, como todo o tempo, pouco passa de um compromisso?
Não querer
Resfriados pelo calor do pensar
A sentir o querer a não querer
E não ter a Ter
Ter sempre sem ter.
(…)
Leio o crucial poema O NÃO e julgo que nos dias flamejante da vida que corre pronto se percebe do optimismo a função de ser antecâmara da mediocridade, carro alegórico de todos os sons e de todos os sins na sociedade que recentemente alguns fundaram sobre um sistema de sins. Há sins negativos/ proveniente de sistemas obrigatórios. Dizer sim, ou dizer não à sociedade dos outros, ao mundo, à vida? Comprometer-se. Porquê. Para quê.
E sobre a civilização artificial de momento as contradições, falsamente resolúveis pela positiva nas instituições do sim militante. Civilização que perdeu muita capacidade de renúncia e sorri de aceitação ao olhar o prato de lentilhas do previsível. Em que condição da consciência e da identidade poder ocorrer a renuncia ao compromisso, ao não? Quando é que uma renúncia do aparente se prefigura num sim.
(….)
Obrigatório
Dizer o mesmo
Repetição
Ou:
Será que a vida e o amor
São feitas da não vivência
Que nos fazem continuar a viver?
Viver, sim, mas devagar, ou no escondido essencial de cada um, na obsessão do devir e da consequência, na coacção de uma angústia, de uma duração, na inconsequência de tudo, o Homem suspeito de nada ter que encontrar dentro de si próprio, a roer o que resta do imóvel/ que não foi escurecido por um verniz qualquer, e pegou nesse mesmo (tempo) que não era o seu / e levou-o/ precisava de todo o tempo / para se encontrar.
Alice Valente não escapa (assume!) à retórica de decepção de quem se preparou para viver uma vida com os outros, as vidas de outros e as outras vidas que se contêm nos outros e independentes da sua própria, única, vida.
(…)
Água que bebo, que limpa, que lava
Ligada constantemente
E que sem ela seria impossível
Viver-se
Quase apetece descobrir no verso de Alice Valente a sensualíssima felicidade de um descontentamento.
O que é razoável como rejeição da organização social dos contentinhos. Porque se para cumprir o desígnio e a tonalidade do tempo que gira em volta de mim eu tiver que desmentir a minha ideia, eu digo NÃO e Sou sem querer Ter, em vez de ter sem querer ser.
(…)
Excertos do prefácio de Joel Costa do Livro "SENÃO - POESIA e desenho"