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Exposições

Nalini Malani apresenta "Utopia!?" em Serralves

A primeira exposição em Portugal da celebrada artista indiana Nalini Malani (Carachi, Índia indivisa, 1946), acontece na esteira da atribuição à artista de uma das mais prestigiantes distinções no mundo da arte contemporânea: o Prémio Joan Miró 2019.

16 Dez a29 Ago

Museu de Serralves
Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto

Este prémio é atribuído a cada dois anos pela Fundação “la Caixa” e Fundação Miró, distinção a que se juntou, a partir de 2019, a Fundação de Serralves.

Foi no final da década de 1960, numa cena artística indiana dominada por homens, que Nalini Malani emergiu como uma voz provocatória e feminista, igualmente pioneira no trabalho com meios artísticos como o cinema experimental, o vídeo e a instalação, dando voz e visibilidade às mulheres, às questões sociais, aos marginalizados, explorando temas como o feminismo, a violência, as tensões raciais e os legados pós-colonialistas.

Amplamente conhecida pelas suas pinturas e desenhos, a mostra em Serralves mostra uma faceta do seu trabalho igualmente relevante mas com que os públicos estão porventura menos familiarizados, apresentando exclusivamente as suas animações desenvolvidas entre finais dos anos 1960 e a atualidade.

Este 2020, Nalini Malani expôs os seus trabalhos na Fundació Joan Miró, em Barcelona, e na prestigiada Whitechapel Gallery, em Londres

A exposição em Serralves resulta de uma parceria com a Fundació Joan Miró e a Fundação “la Caixa”, e conta com a curadoria de Filipa Loureiro e Ricardo Nicolau.

Foi no final da década de 1960, numa cena artística indiana dominada por homens, que Nalini Malani emergiu como uma voz provocatória e feminista, igualmente pioneira no trabalho com meios artísticos como o cinema experimental, o vídeo e a instalação. Além de dar voz às mulheres, a artista sempre se destacou como uma artista preocupada com questões sociais, conferindo protagonismo aos marginalizados através de histórias visuais (animações, nomeadamente) que exploram temas como o feminismo, a violência, as tensões raciais e os legados pós-colonialistas.

As animações reunidas na exposição em Serralves, realizadas entre 1969 e 2020, foram agrupadas sob o signo da Utopia (este é aliás o título da mais antiga obra apresentada), relacionando-se, por um lado, com o sentimento utópico que se seguiu à independência da Índia e, por outro, com a desilusão em relação àquilo que o país se tornaria, governado por regras ditadas pela ortodoxia religiosa. De qualquer forma, os trabalhos de Malani transcendem os traumas nacionais para tratarem injustiças sociais globais.

É o caso da grande instalação imersiva que encerra a exposição, composta por nove projeções vídeo de animações e frases. Can You Hear Me?, embora tenha partido de uma violenta história passada na Índia, a morte violenta de uma criança, é uma ode a todos aqueles que não têm voz. Realizada entre 2017 e 2020, a instalação é composta por animações em que se sobrepõem imagens realizadas pela artista e fragmentos de citações de escritores tão influentes como Hannah Arendt, James Baldwin, Bertolt Brecht, Veena Das, Faiz Ahmad Faiz, Milan Kundera, George Orwell e Wislawa Szymborska.

Segundo a artista, Can You Hear Me? corresponde ao tipo de animação a que se tem dedicado mais recentemente, a que chama cadernos de notas [notebooks] e que são realizados digitalmente num iPad.

Malani já afirmou: “Quando eu vejo ou leio alguma coisa que captura a minha imaginação, tenho a necessidade de reagir através de um desenho ou de desenhos em movimento. Não exatamente na sua forma mimética mas mais como uma ‘Memória Emoção’. Sinto-me como uma mulher com pensamentos e fantasias que são disparados da sua cabeça. Cada um deles pode conter ideias diferentes e não parecerem ser da mesma pessoa. Cada uma dessas vozes na minha cabeça precisa portanto de uma diferente caligrafia .”

A exposição em Serralves acontece na esteira da atribuição à artista de uma das mais prestigiantes distinções no mundo da arte contemporânea: o Prémio Joan Miró 2019. Na sua sétima edição, o prémio organizado pela Fundació Joan Miró e a “la Caixa” possibilitou a Nalini Malani a apresentação em 2020 de uma exposição monográfica na Fundació Joan Miró, no âmbito da qual no âmbito da qual aconteceram conversas muitos esclarecedoras sobre as motivações da artista por detrás das obras que compõem UTOPIA!?. Uma primeira conversa entre a artista e William Kentridge, o artista sul-africano celebrizado pelas suas instalações que, à imagem das animações que Malani apresenta em Serralves, utilizam vídeos com desenhos em movimento para confrontarem os espectadores com a vida dos silenciados, injustiçados e carenciados e uma outra conversa com Emily Butler, curadora da Whitechapel Gallery (Londres), que apresenta neste momento (entre 23 de setembro de 2020 e 6 de junho de 2021) a instalação Can You Hear Me? como parte do seu prestigiado programa anual de encomendas artísticas. Link

Sobre a artista:
Nalini Malani é uma das artistas contemporâneas mais influentes da Índia, com uma trajetória sólida que tem recebido amplo reconhecimento internacional. Nasceu em Karachi em 1946, um ano antes da separação da Índia e do Paquistão, após a independência do Império Britânico. A sua família procurou refúgio em Calcutá em 1947 e depois mudou-se para Mumbai em 1954, onde Malani continua a viver até hoje. O trauma pessoal e coletivo da Partição da Índia, a sua experiência inicial de deslocação e o seu estatuto de refugiada, marcaram a sua biografia e a sua produção artística, que se desenvolveu, nas suas próprias palavras, como uma tentativa de "dar sentido aos sentimentos de perda, exílio e nostalgia" que tiveram tanto impacto na sua infância.

O trabalho de Malani aborda a história recente do subcontinente indiano e aprofunda-se corajosamente em temas urgentes e universais como a violência, a guerra, o fundamentalismo, a opressão das mulheres, os efeitos da globalização e a destruição do ambiente. O seu trabalho é construído como uma narrativa que entrelaça as mitologias e as formas estéticas do Oriente e do Ocidente, reavaliando o seu legado. Pioneira na introdução da dimensão feminista da arte no seu país natal nos anos 70, Malani coloca particular ênfase nos arquétipos femininos, numa tentativa de recuperar e amplificar a voz das mulheres de todos os tempos. Significativamente, no seu papel enquanto curadora, Malani organizou a primeira exposição coletiva de artistas femininas indianas em Nova Deli, em 1985. Para ela, "compreender o mundo a partir de uma perspetiva feminista é um dispositivo essencial para um futuro mais esperançoso, se quisermos alcançar algo como o progresso humano".

Tendo a prática da pintura como ponto de partida, a produção de Nalini Malani deslocou-se gradualmente para o espaço e o tempo ao ponto de se expressar em instalações imersivas que integram pintura, elementos audiovisuais, artes tradicionais e performance. No início dos anos 90, Malani foi uma das primeiras artistas na Índia a separar-se da pintura clássica - e das elites culturais e económicas - para explorar novos suportes (new media) que lhe permitissem atingir um público mais vasto, colmatando assim o fosso entre a arte moderna e contemporânea no seu país. Desde então, desenhos murais efémeros, vídeo e outras formas tradicionais de imagem em movimento, tais como lanternas caleidoscópicas e sombras chinesas, tornaram-se veículos de memória e de emoção para a artista. “A forma que utilizo nas minhas peças de vídeo e sombras chinesas", explica Malani, "são rotações ou revoluções [...] que não repetem as sobreposições". [...] As formas de arte diante dos nossos olhos. É completada na sua presença e muda imediatamente. [...] É como a vida, em que um momento único nunca mais voltará. Ela cresce e morre à sua frente enquanto você é parte da própria obra de arte". Através do caráter efémero das imagens, Malani afirma enfaticamente: "Outro aspeto que quero negar é o 'valor de mercado' e trazer de volta o valor da memória".

Malani estudou belas artes na Escola de Arte Sir Jamsetjee Jeejebhoy em Mumbai. Durante esse tempo, montou o seu estúdio no Instituto Memorial Bhulabhai em Mumbai, onde artistas, músicos, bailarinos e atores se reuniram. Logo após a sua graduação, Malani trabalhou em cinema e fotografia. De 1970 a 1972, recebeu uma bolsa de estudo do governo francês para estudar arte em Paris, onde se deparou com as teorias de Louis Althusser, Roland Barthes e Noam Chomsky, entre outros. Em 1973 Malani regressou à Índia, determinada a contribuir para a modernização e emancipação intelectual do seu país através da arte.

Em 2010, o Instituto de Arte de São Francisco concedeu a Malani um doutoramento honoris causa e em 2013 tornou-se a primeira mulher asiática a receber o Prémio Fukuoka de Artes e Cultura. Recebeu também outras distinções de relevo, tais como o Prémio St. Moritz Art Masters Lifetime Achievement em 2014 e o Asian Art Game Changers Award em 2016.

O vasto leque de interesses de Malani levou-a frequentemente a trabalhar ao lado de artistas e pensadores de várias áreas, tais como o antropólogo Arjun Appadurai, a atriz Alaknanda Samarth, a bailarina de Butoh, Harada Nobuo e a diretora de teatro Anuradha Kapur. Estas colaborações atestam a sua contínua exploração de formas interdisciplinares para investigar e comunicar as questões pessoais e políticas que moldam a sua arte. Ao longo de cinco décadas e com mais de trezentas exposições em seu nome - duzentas das quais internacionais - a sua produção foi exibida nos principais locais de arte contemporânea do mundo, com exposições individuais no ICA (Boston), no Stedelijk Museum (Amsterdão), no Irish Museum of Modern Art (Dublin) e no New Museum of Contemporary Art (Nova Iorque); e retrospetivas no Castello di Rivoli - Museu de Arte Contemporânea (Rivoli) em 2018, no Centre Pompidou (Paris) em 2017, no Kiran Nadar Museum of Art (Nova Deli) em 2014, no Musée des Beaux Arts (Lausanne) em 2010 e no Peabody Essex Museum (Salem) em 2005. O seu trabalho foi apresentado em vinte bienais, tais como a 12ª Bienal de Xangai em 2018; dOCUMENTA 13 em 2012 em Kassel; a Bienal de Sidnei de 2008; as 52ª e 51ª Bienal de Veneza em 2007 e 2005, e a terceira Bienal de Seul em 2004. As obras de Nalini Malani estão incluídas em trinta coleções de museus em todo o mundo.

Sobre o Mecenas:
BPI e Fundação ”la Caixa”
A Fundação de Serralves, o BPI e a Fundação “la Caixa” estabeleceram um acordo de colaboração para o desenvolvimento de projetos de caráter social e cultural em Portugal, na sequência da entrada do BPI para o Grupo CaixaBank, que marcou o inicio da implementação dos programas e iniciativas de ação social da Fundação “la Caixa” no país, com o compromisso de alcançar um investimento de até 50 milhões de euros anuais nos próximos anos.

Um dos princípios de atuação da Fundação “la Caixa” é promover uma sociedade melhor, com enfoque especial nos grupos mais vulneráveis. A Fundação dá especial atenção aos seus programas estratégicos na área da integração laboral de pessoas em risco de exclusão social, da atenção aos idosos, do apoio às crianças e jovens em risco e da assistência às pessoas com doenças em estado avançado, promovendo ainda os Prémios de Solidariedade BPI “la Caixa”, em conjunto com o BPI. A Fundação “la Caixa” também atua na área da investigação na saúde e nas ciências sociais, e possui um prestigiado programa de bolsas de estudo. Em Portugal, incentiva ainda o desenvolvimento do interior do país através do programa Promove, nos eixos de gestão de recursos naturais, criação de polos de desenvolvimento e fixação de residentes. As atividades de divulgação cultural são também uma das grandes prioridades da Fundação “la Caixa” através da colaboração com uma vasta rede de museus e entidades culturais de referência, nacionais e internacionais.

Mais de 110 anos após a sua criação, a Fundação “la Caixa” representa hoje um modelo único de compromisso social e é primeira fundação de Espanha e uma das mais importantes do mundo.
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