"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Um homem de grandes ideais, coerente, toda a sua vida

Mário Mesquita foi um dos fundadores do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais e membro da sua primeira Direção. Do importante contributo de Mário Mesquita para o IEEI destacam-se textos de referência sobre imprensa e segurança e dezenas de conferências sobre esses temas.

A morte de Mário Mesquita enche-me de tristeza, a mim e a todos aqueles que durante a década de 80 tiveram o privilégio de participar na aventura da fundação, em 1980, de um Instituto de Estudos Internacionais em Portugal, o IEEI.

Conhecemo-nos em 1975, em frente ao Jornal República, então ocupado pelos tipógrafos que queriam impor ao jornal uma orientação antidemocrática. Foi assim que nos conhecemos, a manifestarmo-nos pela liberdade de imprensa.

Mário Mesquita foi um dos fundadores do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais e membro da sua primeira Direção. Nos anos 80, não havia em Portugal verdadeiros especialistas de relações internacionais e assuntos estratégicos, e assim o IEEI foi fundado por cidadãos politicamente comprometidos que, por razões diversas, compreendiam a importância do contexto mundial, bem como a sua enorme influência na “situação portuguesa”. Ao mesmo tempo sentíamos a necessidade de garantir uma perspetiva civil nas questões de defesa e contribuir assim para a normalização das relações político-militares. Mário Mesquita contribuiu e muito na orientação que o IEEI seguiu, uma orientação singular em comparação com os institutos congéneres. O IEEI, desde o início, debruçou-se sobre várias áreas do conhecimento na análise da situação internacional, numa perspetiva europeísta que procurava fazer vingar uma política de valores, designadamente no debate estratégico.

Mário Mesquita, foi indicado para fundador do IEEI por Jaime Gama, ambos açorianos e com um enorme interesse pelas questões estratégicas e pelas relações com os Estados Unidos.

Com Mário Mesquita o Instituto iniciou uma série de iniciativas no Açores, para o qual contou com a colaboração de outro saudoso membro do IEEI, Gustavo Moura então diretor do Açoriano Oriental.

Foi também sobre os Açores (e a Madeira) o primeiro texto que Mário Mesquita escreveu para o IEEI. O Valor Estratégico dos Açores na Prespectiva Africana, capítulo de “África num Mundo Multipolar” (1983) primeiro livro publicado pelo IEEI.

Como Diretor do Diário de Notícias (DN) e mais tarde do Diário de Lisboa, Mário Mesquita fez da política internacional um dos grandes temas desses jornais, dando-lhe um enorme relevo. Foi a convite de Mário Mesquita que comecei a escrever regularmente para o DN e com Mário Mesquita, no Diário de Lisboa (1989-1990), participei numa série de mesas redondas sobre as grandes transformações que estavam a ter lugar, com a implosão da União Soviética, na ordem   mundial, posteriormente reduzidas a escrito e editadas por António José Teixeira. O espaço que esses debates tiveram no jornal, creio, foi inédito em Portugal.

Foi com entusiasmo que Mário Mesquita participou no lançamento da revista Estratégica e na definição da sua linha editorial, ao mesmo tempo que atraía para a sua redação jovens jornalistas como José António Teixeira e Luís Delgado, garantindo assim a qualidade da publicação. 

Na Revista Estratégia, Mário Mesquita publicou dois artigos importantes sobre a imprensa: “Espírito da defesa ou defesa da censura” e “Defesa e Segurança na imprensa americana”. No primeiro, defende que a liberdade de imprensa é fundamental à criação do “espírito de defesa” que terá, segundo ele, de se basear “na inteligência e não no chauvinismo; na compreensão e não na adesão emocional; na critica livre – e não no seguidismo passivo das tradições.” No segundo, valendo-se de exemplos americanos sublinha que “em democracia política, a definição do interesse nacional não emana, apenas, da lei e dos centros de decisão política ou da burocracia da defesa e da segurança. Envolve toda a comunidade.” Temas que hoje ganham novamente importante relevo, nomeadamente, quando, com a brutal invasão da Ucrânia por Putin, a guerra regressa à Europa.

Sobre a questão dos média e a segurança pronunciou-se em variadas intervenções, que, com o seu enorme rigor intelectual soberbamente preparou, no âmbito de conferências organizadas pelo IEEI e dos cursos do IEEI sobre política internacional, em Évora e Ofir.

No seu gabinete no IEEI, depois de abandonar a direção do DN, em 1986, Mário Mesquita, um ambicioso projeto de investigação sobre a visita do Secretário da Marinha dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, aos Açores e o que ela revelou sobre a visão que os açorianos tinham das suas relações com os Estados Unidos. Desse estudo nasceram várias intervenções e referências em textos diversos. Numa das últimas conversas que tivemos falámos desse estudo e Mário contou-me que era um tema sobre o qual ainda gostaria de escrever.

Neste momento, recordo muitas histórias, e de entre tantas que guardo na memória, lembro com especial saudade, a da viagem que fizemos à China, com um grupo organizado pelo IEEI. Tão longas foram as nossas conversas sobre o futuro de um país que Mário tinha compreendido iria pesar fortemente  na ordem do Mundo. Da nossa viagem resultou a publicação por Mário Mesquita de um artigo no DN inspirado pela “Condição Humana” de Malraux, cuja edição traduzida para português por Jorge de Sena, o acompanhou na visita.

Mário Mesquita foi, sem margem para dúvida, um dos grandes jornalistas portugueses do pós 25 de Abril e defendeu sempre um jornalismo independente e crítico, na linha da tradição dos grandes jornais de referência europeus. Não cedia a pressões de nenhum poder, mesmo proveniente do PS, partido de que foi fundador. Investigador e professor de jornalismo, é indiscutível que do seu legado fazem parte todos os jornalistas a quem incutiu os seus valores, como o da integridade e o da procura da verdade.

Com emoção, lembro hoje e dedico-lhe as mesmas palavras que nos ‘seus Açores’ me disse, junto à campa de Antero de Quental, “um homem de grandes ideais, coerente, toda a sua vida”.

Álvaro Vasconcelos