"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Cinema e Vídeo

Novo Ciclo de Cinema - O que é um autorretrato?

Ao longo da história do cinema, vários foram os criadores que viraram a câmara para si. Inscrevendo-se no campo da intimidade e recorrendo, frequentemente, ao discurso na primeira pessoa, o autorretrato fílmico não pressupõe, no entanto, a narração de uma história de vida, mas a autorrepresentação do artista no ato de criação. 

15 Jan a 5 Mar 2023

Casa do Cinema Manoel de Oliveira - Fundação de Serralves
Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto

A Casa do Cinema apresenta um ciclo que incide sobre as múltiplas abordagens que concorrem num mesmo gesto e definem os contornos do que poderá aproximar-se de um género: o autorretrato filmado. Este é um programa que se apresenta em contraponto com a omnipresença das autorrepresentações em meio digital (vulgo, selfie), propondo uma série de filmes que desfazem a codificação do Eu. Do exercício rememorativo de Oliveira, passando pela autodepreciação de Fellini, pelo olhar confrontacional de Akerman, pela especularidade reflexiva de Godard ou pela deambulação temporal e espacial de Regina Guimarães ou Boris Lehman, este é um ciclo que procura interrogar o modo como esta prática foi sendo explorada, entre a autoparódia e a mitificação.

PROGRAMA E SINOPSES:

1. CONFERÊNCIA:

22 FEV | QUA | 19:00
AUTORREPRESENTAÇÃO E CO-REPRESENTAÇÃO NO CINEMA
A POLÍTICA DAS FORMAS E AS FORMAS DA POLÍTICA
Conferência de Raquel Schefer
Professora, Investigadora e realizadora

2. CICLO DE CINEMA:
15 JAN | DOM | 17:00

DEATH AND TRANSFIGURATION
Terrence Davies
UK | 1983 | 30 min.
Terrence Davies estreou-se na realização com uma trilogia de curtas-metragens de carácter fortemente autobiográfico. “Death and Transfiguration” é o último desses três filmes e foi desenvolvido com o intuito de encerrar a trilogia, sendo, portanto, a mais alegórica e fragmentária das partes. À semelhança do próprio realizador, a personagem central, Robert Tucker, tem origens proletárias, perde o pai ainda criança e torna-se um adulto amargurado pela culpabilização católica da sua orientação sexual. Um filme fragmentário, onde as memórias de infância se fundem com o retrato das vivências do realizador no momento (presente) da realização do filme e a encenação da sua própria velhice e morte.

PORTO DA MINHA INFÂNCIA
Manoel de Oliveira
PT, FR | 2001 | 61 min.
“Porto da Minha Infância” é um documentário impossível: a sua matéria é o tempo, o seu objeto é uma cidade que já não existe e que, como tal, não pode ser filmada, e o seu guião é o que resta da memória. Um retrato de Oliveira sobre as suas recordações de uma cidade. Avançando entre ruínas, excertos dos seus próprios filmes, imagens de arquivo, imagens do presente e reencenações de um outro tempo, Manoel de Oliveira não é aqui apenas o espetador do seu próprio passado, ele é também o ator, o réu e o juiz. Filme sobre o Porto da infância do realizador ou filme sobre a infância como porto, este documentário é um retrato de Oliveira. Um retrato onde, entre o outrora e o agora, entre a cidade de que se fala e o sujeito do discurso, a figura e o fundo permanentemente se confundem.

22 JAN | DOM | 17:00

INTERVISTA
Federico Fellini
IT | 1987 |105 min.
A Cinecitta, o enorme estúdio de cinema nos arredores de Roma, celebra os seus 50 anos de atividade com a nova produção cinematográfica de Federico Fellini. Uma equipa de reportagem da televisão japonesa acompanha a rodagem e entrevista o realizador sobre o seu método e o seu percurso. O penúltimo filme de Federico Fellini é uma viagem autorreflexiva (e autodepreciativa), tanto pelos seus sonhos quanto pelo seu universo artístico – aspetos que, não raramente, se confundem na obra de Fellini. Ficção, memórias, autoparódia, mitificação e auto-citação encontram-se neste filme onde reaparecem Marcello Mastroianni e Anita Ekberg para uma reencenação tão irónica quanto trágica da famosa sequência da Fontana de Trevi em “La Dolce Vita” (1960).

29 JAN | DOM | 17:00

3 CURTAS-METRAGENS DE CHANTAL AKERMAN
SAUTE MA VILLE
BE | 1968 | 13 min.
Na curta-metragem de estreia de Chantal Akerman, uma jovem rapariga, interpretada pela própria realizadora, passa o dia a tratar das lides domésticas: lava o chão, cozinha, dá brilho aos sapatos. Entre tarefas vai dançando, cantarolando e bebendo vinho. A certa altura calafeta a porta da cozinha com fita adesiva, liga o gás e rebenta com tudo!

LA CHAMBRE
BE, EUA | 1972 | 11 min.
Influenciada pelo cinema estruturalista norte-americano (nomeadamente o de Michael Snow), Chantal Akerman filma um plano sequência em que a câmara gira duas vezes sobre o tripé, numa panorâmica de 720°. A objetiva percorre lentamente o espaço de um quarto banal onde se encontram vários móveis, objetos, peças de fruta e uma cama onde a própria realizadora está sentada e a partir da qual lança um olhar, tão curioso quanto provocador, em direção à câmara e, consequentemente, a nós, espetadores.

PORTRAIT D'UNE PARESSEUSE
FR, GR | 1986 | 8 min.
Chantal Akerman foi convidada a participar numa longa-metragem coletiva em que sete realizadoras retratam cada um dos sete pecados mortais (“Seven Women, Seven Sins”), sendo que à cineasta belga calhou a preguiça. Como não podia deixar de ser, Akerman filma a sua pouca vontade de cumprir com a encomenda. Não lhe apetece nada fazer um filme, é tão melhor ficar na cama até ao meio-dia... Um filme preguiçoso sobre a preguiça.

JLG/JLG – AUTOPORTRAIT DE DECEMBRE
Jean-Luc Godard
FR | 1994 | 62 min.
A propósito de “JLG/JLG”, o realizador afirmou: “um autorretrato em princípio não pode ser feito em cinema, é qualquer coisa que tem a ver com a pintura. Queria tentar compreender o que significava para mim fazer um autorretrato, ver até onde podia ir no cinema, e até que ponto é que o cinema me podia aceitar”. Jean-Luc Godard filma-se nos primeiros dias do inverno da sua vida (à data da estreia entrava na idade da reforma), exilado e isolado na sua casa suíça, onde lamenta o fim das suas esperanças utópicas e faz o luto do cinema, da Europa enquanto bastião cultural e da arte enquanto arma política. Ou como o põe o próprio, no filme, “a cultura é a regra, a arte é a exceção”, e “faz parte da regra querer a morte da exceção”.

05 FEV | DOM | 17:00
6 CADERNOS DE REGINA GUIMARÃES
CADERNO DO PASSEIO DE CIMENTO
PT | 2017 | 3 min.
“Há quem olhe para o céu, eu sou das que olham para o chão. Exemplo em Super 8 do que vejo e, de certo modo, me guia.” – R.G.

CADERNO DA CIRURGIA
PT | 2016 | 19 min.
“Um dia trocaram a minha anca por uma prótese. Entre cama e janela com muito hospital pelo meio, lá fui construindo uma ponte para me ligar ao mundo através desta escrita que é um ramo da outra maior e também minha. Cometi este caderno videográfico como uma oferenda, mesmo que só eu pudesse entender isso. E a par dele escrevi um livro ? “Quebra de linha” ? cujo último poema, “Quebra de Encanto” ficou cravado no coração das imagens.” – R.G.

RUA A B
PT | 2016 | 8 min.
“Uma coleção de autorretratos captados ao longo de mais de dez anos. Entre o momento em que me ofereceram a minha primeira (e modesta) máquina fotográfica e o verão de 2016, acontecem netos em idade de aprender a nadar e cardumes de náufragos no Mediterrâneo…” – R.G.

URSAS MENORES
PT | 2010 | 10 min.
Filmado principalmente em Ljubljana, narra a história da bela Urska que o rio ininterruptamente traga e volta a trazer à vida.

NUS DANS LA CAGE D’ESCALIER (co-real. Saguenail)
PT | 2010 | 26 min.
Após uma visitação da história do nu na pintura, dois velhos amantes cometem este filme a quatro mãos no qual trocam imagens um do outro. A representação bidimensional abalada pela desconstrução cubista dialoga com volumes de carne e luz.

A ÚLTIMA FITA
PT | 2010 | 3 min.
“A nossa primeira câmara vídeo, durante tanto tempo cobiçada e mais tempo ainda pau para toda a colher, começou a dar o berro, isto é, a enfeitar os planos com drops outs. Este filme é um adeus e uma grata homenagem à pequena Panasonic…” – R.G.

12 FEV | DOM | 17:00

A MÃO
Ângelo de Sousa
PT | 1976 | 7 min.
Nos anos 1970, Ângelo de Sousa realizou várias experiências com imagens em movimento, sempre em suporte Super 8. “Chão”, “Marmeleiro”, “Muro”, “Ribeiro”, “Flores Vermelhas”, “Água no chão” e “A Mão” são algumas dessas obras fílmicas, produzidas entre 1972 e 1976, todas elas em depósito na Fundação de Serralves. Neste filme, o artista filma a mão esquerda empunhando a câmara com a mão direita (o que constitui uma antecipação do mote dado por Agnès Varda para “Les Glaneurs et la Glaneuse”), utilizando uma lente macro que lhe permite ampliar e fragmentar a superfície da mão, expondo as células dérmicas, os folículos dos pelos e as bases das rugas – numa investigação que já havia começado antes, com a série de diapositivos de 1975, intitulada “A mão esquerda”.

LE FILMEUR
Alain Cavalier
FR | 2005 | 97 min.
“As primeiras imagens que surgem neste filme foram feitas em 1994, numa altura em que percebi que preferia manter um diário filmado em vez de um diário escrito, trocando assim a caneta pela câmara. Já as últimas imagens datam de 2005. A verdadeira dificuldade na escolha e organização de todas estas filmagens encontra-se na procura dos não-ditos e de como lhes atribuir valor. Quando se filma constantemente, não se fazem comentários, não se está preocupado em ser-se legível, vive-se simplesmente. Como é normal em todo o cinema diarístico, filmei sempre sozinho. Concretizei o sonho antigo de qualquer realizador que se tornou cineasta antes de ser filmeur (literalmente, filmador): encontrar-me a sós com aquele que está sozinho diante da minha objetiva. É uma forma de ampliar a minha relação com quem escolho filmar ou que vem até mim." – A.C.

19 FEV | DOM | 17:00

TENTATIVES DE SE DÉCRIRE
Boris Lehman
BE | 2005 | 165 min.
“Tentatives de se décrire” é um filme sobre a representação e a autorrepresentação. Como pode o cinema ajudar-nos a descrevermo-nos e a descrever os outros? O cineasta belga Boris Lehman oferece uma câmara que funciona como um espelho e um terceiro olho. O filme começa por ser uma colagem algo aleatória de cine-correspondências, investigações e diários de viagem – ocupando um lugar instável entre o documentário e a ficção –, e acaba por se constituir como um autorretrato de Boris Lehman entre 1989 e 1995 que é, afinal, uma reflexão sobre o modo de olhar e de representar o mundo através de uma câmara. Este é o segundo tomo de um projeto monumental de auto-cine-biografia que o realizador vem desenvolvendo desde 1983 e que tem, até ao momento, seis partes, totalizando cerca de 20 horas de duração, série em que se inclui, mais recentemente, um “último” capítulo testamentário sobre a “arte de morrer”, no qual o cineasta coloca a questão “como filmar a própria morte?”.

26 FEV | DOM | 17:00

2 PERFORMANCES PARA A CÂMARA DE BRUCE NAUMAN
DANCE OR WALK ON THE PERIMETER OF A SQUARE
EUA | 1967-1968 | 8 min.
PULLING MOUTH
EUA | 1969 | 8 min.
Em “Dance or Walk on The Perimeter of a Square”, o artista Bruce Nauman traça um quadrado no chão do seu estúdio com fita adesiva, marcando o ponto médio de cada lado. Partindo do centro do lado mais distante, e seguindo o ritmo de um metrónomo, a cada batida alterna o movimento das pernas, esticando metade do comprimento do lado para tocar nos cantos do quadrado com os dedos dos pés. A intervalos regulares desloca-se para um dos lados adjacentes, procedendo metodicamente ao redor do perímetro do quadrado, ora voltando-se para dentro, ora para fora. Nauman funde o formalismo minimalista de uma performance com uma arquitetura efémera feita de gestos corporais mecânicos. Já “Pulling Mouth” é um dos filmes da série "Slo-Mo" [câmara lenta] em que o artista distorce a própria boca com os dedos, filmando-se num grande plano muito aproximado.

THIS IS NOT A FILM
Jafar Panahi, Mojtaba Mirtahmasb
IR | 2011 | 75 min.
Preso pela primeira vez em julho de 2009, o realizador Jafar Panahi teve o passaporte confiscado e foi proibido de sair do Irão. Preso novamente em março de 2010, ficou encarcerado na prisão de Evin, em Teerão, até finais de maio, saindo sob uma fiança; em dezembro desse mesmo ano, foi condenado a seis anos de prisão efetiva e vinte anos de proibição de filmar e de sair do país por “propaganda contra o regime”. Preso em casa, Panahi e outro cineasta iraniano, Mojtaba Mirtahmasb, decidem "contar" um filme. Assim, usando um tapete como maqueta, Panahi desenha um cenário imaginário construindo um filme onde demonstra o poder do cinema contra a repressão e a liberdade de expressão. Depois deste primeiro filme caseiro feito após a sua proibição de filmar, Jafar Panahi realizou quatro outras longas-metragens e outras tantas curtas-metragens, sempre com parcos meios e sempre refletindo sobre o papel social e político de realizador.

05 MAR | DOM | 17:00

SELF-PORTRAIT N.1 (TOILETTE)
Cécile Fontaine
FR | 1982 | 3 min.
SELF-PORTRAIT N.2 (REVEIL)
Cécile Fontaine
FR | 1982 |3 min.
“‘Self-Portrait n°1 (Toilette)’ é um dos meus primeiros filmes, no qual seguro a câmara com o braço estendido e assim capturo imagens fragmentárias e muito próximas de mim mesma enquanto lavo o rosto ou me penteio; tudo intercalado com fotografias minhas em diferentes idades. ‘Self-Portrait nº 2 (Réveil)’ é o meu segundo autorretrato em que seguro a câmara Super 8 com a mão e me filmo à distância de um braço. Como no primeiro autorretrato, este compõe-se de planos extremamente aproximados, neste caso de mim ao sair da cama. Como no primeiro, a cena é intercalada com imagens, desta feita de vários documentos administrativos que estão em meu nome: bilhete de identidade, cadernetas escolares, cartão de tipo sanguíneo... – eles são os únicos elementos coloridos neste filme rodado num preto e branco bastante granulado." – C.F.

A LETTER FROM GREENPOINT
Jonas Mekas
EUA | 2005 | 79 min.
“Em fevereiro de 2004, depois de viver 30 anos da minha vida no SoHo, tomei a decisão de deixar esse bairro e mudar-me para Greenpoint, em Brooklyn. Este vídeo retrata o modo como se deixa um lugar onde se passou mais tempo do que em qualquer outro, um lugar que foi, também, o da minha vida familiar. Agora estou noutro sítio. Este vídeo é sobre começar a criar raízes num novo lugar, um novo lar, com novos amigos, novos pensamentos, novas experiências. Este vídeo também é sobre o vídeo. Quando em 1949 comecei a filmar com a minha Bolex, levei quinze anos a conseguir, realmente, dominá-la. Foram precisos quinze anos para que a minha Bolex fizesse aquilo que eu queria. Quando em 1987 arranjei a minha primeira câmara de vídeo, uma Sony, pensei que seria diferente. Mas não. Só hoje, depois de quinze anos a trabalhar com ela, é que sinto que ela se tornou uma extensão do meu olho, do meu corpo. ‘A Letter from Greenpoint’ é o meu primeiro trabalho sério em vídeo.” – J.M.

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