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"Caravela - Salão" de Fátima Mendonça
De um modo persistente e problemático, a que a artista nos tem habituado desde o início do seu percurso nos anos 90, as novas pinturas versam sobre a sua vida pessoal, nomeadamente, sobre os seus sofrimentos, as suas tristezas, as suas doenças e, particularmente, sobre os seus medos.
14 Jan a 4 Mar 2017
Nesta ocasião, as pinturas são visualmente mais escuras, as cores azuis, castanhas e negras tomam conta da superfície pictórica, tornando, assim, as imagens mais obscuras, mais densas e, profundamente, mais inquietantes.
O universo imaginário que a artista nos revela poderá dividir-se em dois grandes campos fundamentais. Por um lado, a presença constante da caravela portuguesa que desbravou novos caminhos nos tempos dos descobrimentos e que, segundo Camões, ultrapassou com perseverança e bravura a figura mítica do Adamastor, como símbolo de medo e do desconhecido. Por outro lado, a presença do boxe representa a luta permanente que a artista mantém consigo própria, em que as luvas são substituídas por ligaduras, como modo de exponenciar a dor e a violência.
É, pois, na conjugação destas duas imagéticas distintas e delirantes que as pinturas começam a ganhar forma e sentido. Será também necessário recuar até à última exposição da artista para densificar a história destas novas pinturas. Em 2014, na exposição intitulada "A Cura – Operação ao cérebro " a artista representava vários cérebros, como se estivesse a fazer uma operação a si própria para se curar dos seus traumas e doenças. Após esta auto-intervenção a artista deparou-se com novos problemas pessoais que assolaram a sua vida. O ano de 2016, que agora tem o seu término, foi de facto desolador para a artista. Pode-se ler na tatuagem de um pugilista de umas das telas “Nunca mais 2016”. Contudo, como a passagem de ano pode funcionar como um renascer e um renovar de votos e esperanças, a artista apresenta-nos um conjunto de pinturas que nutrem essa vontade de vencer os obstáculos que a vida nos reserva. Através de um traço destemido e, simultaneamente, sombrio a artista vai exorcizando as suas fragilidades e inseguranças, em obras de uma impactante força rude. O combate de boxe representa, em grande medida, a batalha que traçamos connosco próprios perante as adversidades da vida que nos aprisionam e asfixiam num espaço intenso e delimitador. É, talvez, necessário um momento libertador para que a emoção e a ironia permitam que os constrangimentos se tornem passado.
Entendendo que a arte faz parte da vida e é, ou pode ser, um reflexo dela mesma, então as obras de Fátima Mendonça estabelecem com a vida uma particular e única reciprocidade. É através da expressão artística que a artista vive intensamente a sua vida. E é através de acontecimentos externos por ela vividos que a sua produção artística se vai alimentando. Esta dupla e promíscua conjugação desvela um momento agonizante mas esperançoso. Inesperadamente, a qualquer momento, a claridade e a serenidade irão tomar parte da sua vida e da sua arte.
“Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro / Bramido muito longe o mar soou.”
(Luís Vaz Camões, “Os Lusíadas”, Canto V, Estrofe 60)
FÁTIMA MENDONÇA
Nasceu em Lisboa, 1964.
Vive e trabalha em Lisboa.
1992 / 1994 Bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.
1990 Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.
Exposições Individuais
2017 Caravela – Salão, Galeria 111, Lisboa
2014 A Cura – Operação ao cérebro, Galeria 111, Lisboa
Lá, Lá, Lá, Centro de Arte Manuel de Brito, Algés
2012 Casa-Carrossel , Galerie Michael Schultz , Berlim, Alemanha
Máscaras para o dia-a-dia, Galeria 111, Porto
Casa-Carrossel, Museu Municipal de Faro, Galeria Trem, Faro
2011 Casa-Carrossel , Galeria 111, Porto
2010 Casa-Carrossel, Galeria 111, Lisboa
Aleluia, Centro de Arte São João da Madeira, São João da Madeira
2009 Para Cegar o Medo, Galeria 111, Lisboa
2008 Um vestido para falar com Deus, Galeria 111, Porto
2007 Auto-retratos, com dedicação e afecto, da Fátima, Galeria 111, Lisboa
2005 Assim... assim... assim... para gostares mais de mim, Culturgest, Lisboa
2003 Fátifashion-Vestidos de Lã e Bolo, Galeria 111, Lisboa
2002 Para te fazer não tem nada que saber, Galeria 111, Porto
2001 Eu tenho medo: lá, lá, lá, lá, lá…, Galeria 111, Lisboa
1999 Gosto da Minha Casinha, Galeria Fernando Santos, Porto
1998 Câmara Lenta, Casa Fernando Pessoa, Lisboa
O Circo (estudos para um Grande Amor), Galeria Arte Periférica, Lisboa
1996 A Casa do Desarranjo, Pintura, Galeria Arte Periférica, Lisboa
1995 Pintura, Galeria Arte Periférica, Lisboa
Exposições Coletivas (seleção)
2010 Século XXI – Anos 10, Centro de Arte Manuel de Brito, Algés
2008 À Volta do Papel – 100 Artistas, Centro de Arte Manuel de Brito, Algés
2007 Artistas, Galeria 111, Porto
2006 Colecção Manuel de Brito, Centro de Arte Colecção Manuel de Brito, Algés
2005 Em redor do papel, Galeria 111, Porto
Frente a Frente, Galeria 111, Lisboa
2003 Colectiva, Galeria111, Porto
2002 Arte Contemporânea – Novas Aquisições, Culturgest, Caixa Geral de Depósitos, Lisboa
Geração XXI – Cinco Artistas Portugueses em Macau, Galeria de Exposições
Temporárias do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, Macau, China
1999 Ida e Volta, Museu de Arte Moderna de Salvador da Baía, Brasil
1997 II Bienal Arte Jovem, Câmara Municipal da Maia, Maia, Junta de Castilla y Léon,
Valladolid, Espanha
II Bienal de Arte Criativa de Rijeka, Croácia
Bringing up Baby, Cidade do Cabo, Joanesburgo, África do Sul
1995 Exposição Colectiva, Galeria Arte Periférica, Lisboa
VIII Bienal de Artes Plásticas, Vila Nova de Cerveira
Lisboa Fora de Horas, Centa, Lisboa | Lisbon
40 ème Salon d’Art Contemporain de Montrouge, Montrouge, França

