Exposições2
"De Rubens a Van Dyck"
Pintura Flamenga da Coleção Gerstenmaier, de abril a julho, no Centro Cultural de Cascais.
6 Abr a 9 Jul 2017
Não é todos os dias que se tem acesso a uma coleção centrada na pintura flamenga que inclui obras desde o século XV ao século XVIII. Esta é a oportunidade para ver uma seleção de 30 pinturas e 37 gravuras de artistas flamengos como Rubens, Brueghel, Van Dyck, Van Thielen, Martin de Vos, Van Kessel, entre outros grandes pintores, alguns deles, anónimos ou círculos e seguidores de Anton Van Dyck ou de Van der Weyden que, com a maior mestria, criaram obras que retratam cenas religiosas, paisagens e naturezas mortas.
Na exposição é possível apreciar as notáveis características da pintura flamenga. Estes diferentes artistas desenvolveram as suas técnicas num dos períodos mais florescentes da história da arte e o resultado é um conjunto de pinturas que demonstram uma harmoniosa diversidade quer nos temas quer nas técnicas.

Nas obras de caráter religioso, encontra-se um amplo conjunto de trabalhos em que, naturalmente, a fé (cristã) é a principal fonte de inspiração do artista. A produção dos pintores flamengos conta com um virtuosismo destacado e caracterizado por cores brilhantes. Entre as passagens mais representadas nestas pinturas religiosas podemos destacar algumas, como a infância, a paixão ou a vida de Cristo. Exemplos disso são a Virgen de Cumberland, de Rubens, a Adoración de los Magos, de Artus Wolffort ou Calvário de Victor Wolfvoet, em que vemos Jesus na cruz.
A natureza morta também é um tema em destaque na exposição. Pode ser apreciada a Natureza Morta, de Jan van Kessel, que marca o corpus da exposição pelas suas grandes dimensões, circunstância que a torna singular. A obra reúne elementos tais como flores, frutas, legumes, vasos, envolvidos por diferentes tecidos e com uma paisagem crepuscular subjacente.
São também dignas de menção as composições florais dos pintores flamengos onde se explana a mestria técnica, sem reservas. São características as coroas ou cestas repletas de diferentes flores, composições trabalhadas com tons vibrantes e ao pormenor. A exposição contém grandes obras que utilizam estes recursos como, por exemplo, Jarrón de jardín con flores de Gaspar Pedro Verbruggen II. Os detalhes são subtis, dignos de uma observação detalhada e pintura delicada, vendo-se até gotas de orvalho sobre as pétalas de flores.

Los Cuatro Vientos Septentrio | Non datée | Tintas de impresión grasa sobre papel verjurado
Outro tema presente na exposição é a mitologia. Embora a cultura ocidental tivesse como base fundamental o Cristianismo, a tradição greco-romana mantinha a sua importância. Esta idealização da cultura greco-romana, o surgimento de vários documentos, obras de arte e vestígios arqueológicos são as principais razões que levam à recuperação da tradição clássica.
Na série de obras de Hendrik Goltzius, podem-se encontrar os temas mitológicos e alegóricos inspirados nos textos de Ovídio. Por exemplo, em Las tres Gracias ou na alegoria dos Quatro Elementos, os indivíduos são tratados dentro desta tradição muito pictórica.
O retrato também ocupa um lugar importante dentro dos trabalhos selecionados. O homem tinha também o lugar de protagonista na obra de arte. Estas pinturas estão associadas com o status e são reservadas a determinadas classes sociais ou personalidades. Na exposição podemos apreciar os retratos de Jean Charles de Cordes e Jacqueline van Caëstre, de Van Dyck. É também possível observar retratos na técnica de gravura de Van Dyck como o grabador Paulus Pintius, Adam van Noort, Jan Snellinck, Lucas Vorsterman, Jan de Wael, Paulus de Vos, entre outros.
A partir do final do século XVI, começa-se a assistir a uma certa "democratização" da imagem. Até ao século XV, a paisagem é relegada para segundo plano e aparece sempre como um suplemento de um tema central. Com esta transformação, a paisagem é reconhecida como um género artístico permitindo aos pintores mostrar as suas visões da natureza. Virgen de la leche, em que a Virgem Maria e o bebé estão no meio de uma natureza exultante é exemplo disso.
Há também algumas criações em que a natureza se torna tema protagonista e principal. A paisagem, como um género independente, serviu para testar e compreender a representação direta da natureza, o domínio de diferentes texturas e, acima de tudo, como um outro palco para trabalhar os efeitos de luz. O óleo sobre talha, Paisaje de montaña con mulas, de Joost de Momper e Pieter Brueghel, é um modelo representativo da exploração dessas técnicas. A composição de elementos, o jogo de luz e a imitação perfeita da natureza também se encontra no óleo sobre tela Paisaje con figuras clássicas, de Cornelis Huysmans.
Uma questão de influência – de Rubens a Van Dick
O estilo barroco domina as artes do século XVII e Rubens foi um dos seus melhores expoentes. O barroco incidia em temas dramáticos e intensos, iluminações exageradas, procurando o belo. Tratava-se de um estilo especialmente próximo da Igreja Católica e de reis como Luís XIV de França (1638-1615) que utilizavam a arte para criar uma imagem de poder absoluto de inspiração divina.

Culto e carismático, Rubens foi o pintor mais influente da época barroca. Pintava obras contrarreformistas, explorava temas religiosos, históricos e mitológicos. Foi também um grande retratista e no final da sua vida dedicou-se bastante à pintura de paisagens. Viveu em Itália cerca de oito anos e visitou Espanha, tendo contactado com outros pintores da época, como Velázquez. Em Antuérpia, nomeado pintor da corte do arquiduque Alberto da Áustria, onde ocupou uma posição artística e diplomática importante. Depois das suas viagens, montou um novo estúdio que albergava também os seus aprendizes, um deles, senão o mais famoso, Van Dyck que viria a ser reconhecido como o mais famoso retratista flamengo e frequente colaborador de Rubens.
Van Dyck tornou-se mestre e discípulo de Rubens em 1618, cujo estilo ele assimilou com extrema facilidade. Contudo, a sua mestria altamente aperfeiçoada começou antes, aos quinze anos. Instalou-se num estúdio próprio aos dezesseis anos, em Antuérpia, tendo trabalhado com Jan Brueghel. Aos vinte e um anos, foi nomeado assistente-chefe de Rubens e recebeu a tarefa de pintar o teto da Igreja Jesuíta de Antuérpia. Rubens foi o grande encorajador de Van Dyck a especializar-se em retratos, género em que demonstrava ter pouco interesse.
"O colecionismo é algo inato ao ser humano"
Estas são as palavras de Hans Rudolf Gerstenmaier, que possui uma das coleções de arte mais importantes da Europa. Gerstenmaier, como os grandes colecionadores, começou a recolher obras priorizando o seu gosto pessoal acima de outros fatores. A paixão pelo belo fez com que a sua coleção se tornasse uma das mais interessantes da Europa. Em trinta anos, reuniu mais de duas centenas de pinturas europeias de diferentes escolas, destacando a pintura flamenga.
Um dos grandes méritos deste colecionador é que a maioria das suas obras foram adquiridas em casas de leilões, galerias e lojas de antiguidades, e essa particularidade permitiu-lhe recuperar peças esquecidas e, porventura, sem rasto até então.

