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Uma Peça | Um Museu

Anunciação

Uma das obras mais interessantes e típicas do estilo de Frei Carlos, que documenta exemplarmente o trabalho retabular da Oficina do Espinheiro na década de 1520-30.

Uma peça do Museu Nacional de Arte Antiga.


Anunciação

Frei Carlos, datado 1523
Óleo sobre madeira de carvalho
197,5 x 198 cm
Proveniência: Mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro, Évora
Inv. 677 Pint

De origem flamenga e tendo professado em 1517 no antigo Convento do Espinheiro, junto a Évora, o monge-pintor Frei Carlos foi uma das mais proeminentes e lendárias figuras da pintura retabular em Portugal nas primeiras décadas do século XVI e alguns dos grandes painéis que a sua oficina pintou para os altares daquele convento jerónimo são das obras mais apreciadas na coleção do Museu Nacional de Arte Antiga.

É nos grandes formatos que a pintura do Espinheiro revela particulares traços de alguma originalidade no contexto da pintura portuguesa do seu tempo, demonstrando em tais registos uma invulgar capacidade de integração espacial dos elementos da imagem em situações narrativas. A Anunciação, que deve ter sido pintada para um altar da sacristia da igreja do Espinheiro, é um excelente exemplo desses traços “identitários” da oficina.

A composição estrutura-se segundo um esquema bipartido (também utilizado no Aparecimento de Cristo à Virgem, de 1529 (sala 9)), secundarizando o lado “de fora” onde tocam e salmodeiam os anjos, abrindo ao nosso olhar a câmara da Virgem visitada por São Gabriel e a Pomba do Espírito Santo. Maria esboça um movimento de serena inquietação, alheando-se do livro de horas e do oratório doméstico em que assenta um simbólico vaso de brancos lírios. Nesse pequeno oratório (onde se vê a data de 1523, pintada num escudete) ensaia-se um jogo de imagem dentro da imagem, ou quadro dentro do quadro, pois que aí se inscreve a visão de Moisés diante da Sarça Ardente, tema do Antigo Testamento e símbolo da maternidade virginal de Maria, que daria à luz sem lesão tal como a Sarça ardeu sem se consumir. Este quadrinho pode constituir também indireta alusão à lenda fundadora do mosteiro, em que um pastor, qual Moisés, viu, dizem as crónicas, “arder um espinheiro sem se consumir e nele a Virgem Senhora”.

A representação do episódio principal é servida por uma construção perspética algo empírica mas muito marcada por uma articulação e sucessão em profundidade de formas e volumes retos, de cheios e de vazios, que vão desvendando o interior dos aposentos. A franca estrutura geométrica da espacialidade da cena suporta, no entanto, uma espécie de interposição da figura do Anjo Anunciador. Em vez de representar, como era habitual, os dois protagonistas dispostos simetricamente e num plano paralelo ao plano da imagem, o pintor recuou a posição do Anjo para uma zona de convergência das ortogonais da composição. A denunciada planificação retilínea do espaço pictórico altera-se assim com este desequilíbrio dinâmico, não menos sensível que a ordenada cenografia da representação, uma estrutura aberta e teatral, como se o episódio se ensaiasse num palco, que talvez proceda dos códigos e dispositivos cénicos do teatro religioso tardo-medieval.

Frei Carlos esteve ativo cerca de duas décadas, sabendo-se que faleceu pouco antes de 1540. A Anunciação é uma das obras mais interessantes e típicas do seu estilo e documenta exemplarmente o trabalho retabular da Oficina do Espinheiro na década de 1520-30.

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