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Uma Peça | Um Museu

Presépio dos Marqueses de Belas

Presépio conservado dentro da sua maquineta original de madeira entalhada, policromada e dourada, coroada por dois anjinhos que amparam uma cartela com a seguinte inscrição: Verbum caro factum est (“O Verbo se fez carne”). 

Uma peça do Museu Nacional de Arte Antiga.


Presépio dos Marqueses de Belas
Joaquim José de Barros (dito Barros Laborão),
Joaquim António de Macedo, escultores e António Pinto, pintor
Lisboa, c.1796-1807
Barro, madeira, cortiça, vidro e metal
Esculturas de vulto cozidas (terra cotta) e policromadas;
maquineta de madeira entalhada, dourada e policromada
A 358 x L 422 x P 162 cm
Aquisição, 1937 (a Sebastião de Carvalho Daun e Lorena e sua mulher)
642 Esc

A composição deste Presépio constituído por figuras e grupos modelados em barro cozido policromado, assentes sobre estruturas de madeira e de cortiça, organiza-se em vários planos: ao centro, em baixo, num cenário de ruína, representa-se a Natividade entre grupos de adoradores e gentes com oferendas; no plano intermédio, ao centro, representam-se os Reis Magos organizados em cortejo, enquanto lateralmente surgem cenas do quotidiano e à esquerda a “Anunciação aos Pastores”; no plano superior da composição, sobre um cenário pintado, figuras e grupos de personagens de menor escala distribuem-se por entre o casario e a arquitetura variada. Num resplendor raiado, a figura de Deus Pai rodeado de anjos paira sobre todo o conjunto.

A designação de Presépio dos Marqueses de Belas parece resultar da lenda de no “Grupo do Mouro” (1º plano, à esquerda) se encontrarem representados o 1º Marquês de Belas, D. José Luís de Vasconcelos e Sousa (1740-1812), e sua mulher D. Maria Rita de Castelo Branco, filha dos condes de Pombeiro, que eram figuras socialmente distintas e de grande beleza física, segundo a crónica da época; sabe-se que o Marquês foi mecenas de Barros Laborão e que lhe conseguiu o Hábito de Santiago, pelo que por este modo poderia querer homenagear os seus patronos, utilizando-os como modelos.

Pelo conjunto de documentação conhecida confirma-se que o presépio foi encomendado por José Joaquim de Castro, um colecionador importante e na posse do qual se encontrava, em 1816. Posterior e sucessivamente foi pertença de D. Maria Augusta Fialho de Castro, de D. Maria Augusta de Castro Lemos, do Conselheiro Augusto Fialho de Castro, de D. Francisco de Almeida e de D. Maria da Nazareth Monteiro de Almeida Carvalho Daun e Lorena.

A execução da obra foi entregue a Joaquim José de Barros, dito Barros Laborão (1762-1820), com quem o encomendador se terá incompatibilizado, provavelmente devido a interferências no plano de montagem do presépio (por exemplo, o acrescento de figuras avulsas adquiridas a negociantes e intermediários como é o caso do pintor Pedro Alexandrino de Carvalho). Ao escultor Barros Laborão, para além da execução de alguns grupos, terá cabido a conceção da maquineta – estruturar o conjunto e definir o móvel onde as figuras seriam colocadas –. Barros Laborão foi aluno na Aula de Estuques de João Grossi, e depois de passar por várias oficinas veio a montar a sua própria. Juntamente com outros escultores trabalhou nas estátuas do palácio da Ajuda, sendo da sua autoria a “Honestidade”, a “Diligência”, o “Desejo” e o “Decoro”. Já no final da sua carreira recebeu como ajudantes os seus três filhos formando com eles uma parceria.

Joaquim António de Macedo (1750-1820) executou o “Pescador” colocado no socalco à esquerda da gruta da Natividade, um pastor no socalco intermédio à direita e Grupos de Anjos, que se encontram no teto da gruta junto da Sagrada Família – algumas das peças estão assinadas e uma delas datada de 1796. Este escultor foi discípulo de Giusti na Escola de Mafra a partir de 1765 (estabelecimento que pela morte de Giusti veio a ser dirigido por Barros Laborão, c.1790).

Por seu lado, António Pinto (c.1758-c.1820) pintou muitas das figuras do presépio, apesar de se ter especializado na escultura de madeira.

O Presépio, dito dos Marqueses de Belas, pelas características que apresenta é uma peça única e invulgar para a tradição dos grandes presépios de barro portugueses: por um lado reflete o gosto e a estruturação habitual nos conjuntos do século XVIII, por outro introduz a novidade do acrescento de figuras avulsas, obras de outros escultores ou barristas menores, dando assim início aos presépios modernos onde, em cenários múltiplos, emparelham figuras com origem e qualidade diversas.

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