"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

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FERNANDO - PESSOA QUE NOS VISITA...

1888 é o ano do nascimento de Fernando Pessoa, o "rei da nossa Baviera". Cento e vinte e cinco anos depois do nascimento de Fernando Pessoa (1888-1935) podemos dizer que o autor dos heterónimos se tornou um mito cultural na Europa contemporânea.

FERNANDO - PESSOA QUE NOS VISITA...

PEQUENAS PARÁFRASES DE PESSOA:

"O mito é o nada que é tudo"

"O povo português é essencialmente cosmopolita.
Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo"

"É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro,
ou se o nosso futuro é que é nosso passado"

"Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade."

"Que inquietação de fundo nos soergue? O desejar poder querer"
 
"Para viajar basta existir."

"Viver não é necessário. Necessário é criar."

"Minhas mesmas emoções são coisas que me acontecem."

"Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem estou."

"Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações."

"Tenho principalmente não ter nada,
Dormir seria sono se o tivesse."

"Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão."

"Prouvera aos deuses, meu coração triste,
que o Destino tivesse um sentido!
Prouvera antes ao Destino que os deuses o tivessem."

"Sinto às vezes, acordando na noite, mãos invisíveis que tecem o meu fado."

"O que antes era moral, é estético hoje para nós...
O que era social é hoje individual."

"Sou mais velho que o Tempo e que o Espaço, porque sou consciente. As coisas derivam de mim; a Natureza inteira é a primogénita da minha sensação."

"Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus."


"Livro do Desassossego"
de Bernardo Soares

Cento e vinte e cinco anos depois do nascimento de Fernando Pessoa (1888-1935) podemos dizer que o autor dos heterónimos se tornou um mito cultural na Europa contemporânea. Hoje escolhemos o "Livro do Desassossego” de Bernardo Soares (Edição de Richard Zenith, Assírio e Alvim, 1998) como pretexto para uma glosa que pretende interpretar a razão de ser deste carisma póstumo, que tornou Pessoa hoje, surpreendentemente, porventura mais vivo do que quando existiu fisicamente.


Fernando Pessoa

UM AJUDANTE DE GUARDA LIVROS
O autor do “Livro do Desassossego” foi muito próximo de Fernando Pessoa, talvez o mais próximo de toda heteronomia (“Serei uma nação?”), a ponto de ser difícil fazer uma distinção clara, como acontece com Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis, criados, ao que tudo leva a crer, um ano depois de Bernardo Soares (1913), que aqui encontramos. No dizer de Richard Zenith: “Viver sonhando, sonhar imaginando, imaginar sentindo – era este o credo que ressoava em quase todos os cantos do universo pessoano, mas Soares era o exemplo mais prático disto. Enquanto as outras estrelas heteronímicas falam de sonhar e de sentir tudo, Bernardo Soares sonha e sente ‘realmente’, diariamente”. E o próprio Fernando Pessoa, ao apresentar-nos este singular amigo fá-lo sem outras considerações que pudessem apontar para a sua excepcionalidade. “Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como eu perscrutando-as, mas como eu interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse o traço curioso que primeiro me deu interesse por ele”.

"FUI O ÚNICO…"
“Fui o único que estive na intimidade dele” – diz-nos o próprio Fernando Pessoa, revelando, afinal, essa simbiose íntima que ligava a personagem real ao seu alter ego. E é a partir daqui que temos de ler e de compreender tudo o resto, numa obra (laboriosamente reconstruída) que não se resume, nem se pode encerrar em qualquer simplificação analítica. Propositadamente, Bernardo Soares está por detrás de um verdadeiro caleidoscópio, permanentemente mutável, em busca da apreensão das diversas perspectivas da consciência. E é isto mesmo que torna este livro surpreendente e fascinante, pois nunca nos mostra a mesma imagem de ontem, nem qualquer antecipação da de amanhã. “É esta a minha crença, esta tarde. Amanhã de manhã não será esta, porque amanhã de manhã serei outro”. Mas como é esse universo estranho da Rua dos Douradores? Bernardo Soares vê aí, vive aí, exerce aí o seu pensamento, funciona aí. “Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim”. E que é viver senão tomar contacto com esses pequenos nadas? O sonho e a realidade estão sempre presentes, neste labirinto, cuja saída é procurada, com avanços e recuos, com dúvidas e hesitações, nesta “autobiografia sem factos”: “Nunca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida. Não há interrupção em minha consciência: sinto o que me cerca se não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras durmo”.

CAPACIDADE DE ANTECIPAR
Bernardo Soares tem, por isso, uma mágica possibilidade de viver antes. E que é a vida para ele? “A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas”. Soares interroga-se permanentemente sobre esse estranho diálogo de fronteiras imprecisas entre o sonho e a realidade, entre as ideais e as coisas, entre o corpo e a alma. Essa é a chave da sua originalidade, que obriga Fernando Pessoa a cultivá-lo, ora com personalidade própria, ora como cobaia da sua perspectiva individual sobre o mundo e tudo o que o compõe. «O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. Quem está no canto da sala dança com todos os dançarinos. Vê tudo e porque vê tudo, vive tudo. Como tudo, em súmula e ultimidade é uma sensação nossa, tudo vale o contacto com um corpo como a visão dele, ou, até a sua simples recordação (…) Digo, como um poeta inglês, narrando que contemplava, deitado na erva ao longe três ceifeiros: ‘Um quarto está ceifando, e esse sou eu’»

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