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MORREU CLAUDIO ABBADO, O MAESTRO QUE DESENHAVA A MÚSICA COM OS DEDOS

Morreu Claudio Abbado, o maestro que desenhavaa música com os dedos


Claudio Abbado (à esquerda) com Daniel Barenboim no Teatro alla Scala de Milão em 2012

O maestro italiano Claudio Abbado morreu na manhã desta segunda-feira, aos 80 anos, na sua casa de Bolonha, no norte de Itália.

“Soube da sua morte, há pouco tempo, por intermédio de um dos seus médicos pessoais”, disse à agência AFP Attilia Giuliani, presidente da associação de fãs do maestro. Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, Abbado encontrava-se doente há já muito tempo.

Nascido em Milão a 26 de junho de 1933, Claudio Abbado foi durante anos diretor musical da Filarmónica de Berlim e do teatro La Scala, de Milão, e da Staatsoper de Viena.

Em agosto do ano passado, tinha sido nomeado senador vitalício de Itália. Mas, em dezembro, renunciou ao vencimento deste cargo, doando-o para o financiamento de bolsas de estudo para jovens músicos – uma atenção que marcou toda a carreira do maestro.

Claudio Abbado viveu a última década condicionado pela doença, depois de no ano 2000 lhe ter sido diagnosticado um cancro no estômago. Mas só nos anos mais recentes é que se viu obrigado a refrear a sua atividade musical, tendo-se feito substituir na direção da Orquestra Mozart, que ele próprio tinha fundado em Bolonha, e tendo mesmo cancelado alguns concertos previstos, no final de 2013.

Na sua extensa carreira, que teve a sua estreia no La Scala, na sua cidade natal, em 1960, Claudio Abbado passou duas vezes por Lisboa: em maio de 1969, apresentou-se no Coliseu dos Recreios, no programa do 13º Festival Gulbenkian de Música; em outubro de 1997, dirigiu no grande auditório da fundação, no ciclo Grandes Orquestras Mundiais, a Filarmónica de Berlim e o Coro Gulbenkian, na interpretação da 2.ª Sinfonia de Mahler.

Gravou também com a pianista Maria João Pires obras de Mozart e Schumann.

A maestrina Joana Carneiro viu pela primeira vez Abbado a dirigir uma orquestra ao vivo quando era ainda adolescente e o efeito foi esmagador. “Como maestro é uma das minhas maiores inspirações e é por isso que sinto que hoje a música sofreu uma perda enorme. São raros os maestros que olham para uma partitura com a generosidade e a inteligência com que Claudio Abbado olhava”, disse esta segunda-feira ao PÚBLICO a maestrina portuguesa de 37 anos.

Infelizmente, acrescenta, numa teve oportunidade de conhecer pessoalmente o maestro italiano, mas isso não significa que, na forma que tinha de conduzir a orquestra e a sua carreira, não seja capaz de lhe identificar traços de personalidade. “O seu olhar era sempre atento, tanto para a partitura como para os intérpretes que a iam trabalhar. E isso notava-se muito bem. Demorava-se no estudo da música e dos músicos e tinha uma sabedoria enorme. Estava sempre ao serviço da música, fosse qual fosse o compositor.”

Críticos de música como Andrew Clark, do jornal económico Financial Times, sublinham-lhe as qualidades intelectuais que, dizem, sempre “vigiaram a expressão de sentimentos” na sua condução de orquestra, fazendo com que Abbado não fosse, de forma alguma, “o maestro italiano típico – instintivo”. Esse peso cerebral, escreve ainda Clark no artigo em que assinala os 80 anos de Abbado e em que elogia, entre outros aspetos, “a sua técnica de excecional naturalidade”, nunca lhe retirou, no entanto, “espontaneidade”. O que fazia, garante o crítico, era conferir às peças que dirigia uma exploração contida dos picos musicais, “de bom gosto e brilhante, em vez de temperamental”.

Quando olha para o trabalho de Claudio Abbado e de qualquer outro maestro, Joana Carneiro não faz distinções entre emoção e carga intelectual: “Simplesmente não consigo porque uma e outra estão interligadas. No caso de Abbado isso era particularmente evidente – o que sempre senti foi o respeito que tinha pelo compositor e pela orquestra, que sabia deixar tocar.”

Tudo no ofício do músico lhe interessava, mesmo nos muito jovens, como era o caso em dois dos projetos que mais acarinhou, explica Carneiro: as orquestras Jovem Gustav Mahler e a de Câmara da Europa.

“Era fantástico vê-lo dirigir, ver como desenhava a música com as mãos, com os dedos; como comunicava com os músicos; como mantinha sempre um domínio absoluto da partitura.”

Rui Vieira Nery só viu e ouviu Abbado a atuar ao vivo no concerto da Gulbenkian em 1997. Se, por essa razão, conhece o essencial da carreira de Abbado por via dos discos e dos vídeos, este musicólogo não tem dúvida de que se trata “claramente de uma figura de topo, que veio logo a seguir à geração dos grandes maestros, como Karl Böhm e Karajan”, tendo surgido como “o sucessor natural deste último na Filarmónica de Berlim” - cargo para que foi convidado em 1989.

Vieira Nery acrescenta que, “dentro da geração de maestros italianos que se revelaram na década de 1960, ao lado, por exemplo, de Riccardo Muti, Abbado foi quem teve a maior projeção”. Nesse sentido, vê também nele “um sucessor indireto de Arturo Toscanini”, acrescentando que desde o desaparecimento do mítico maestro italiano, na década de 1950, que “a Europa do Sul não tinha um nome com esta projeção internacional”.

Vieira Nery acrescenta que, “mesmo parecendo um lugar-comum, pode dizer-se que Abbado é um homem que alia o sentido do rigor e da fidelidade ao espírito do compositor, que marca a escola alemã, à imaginação e ao calor característicos da cultura latina”. E dá como exemplos a leitura que Abbado faz de um Beethoven ou um Mahler, que, sob a sua batuta, ganham “um lado solar muito especial”.

Na sua carreira, Claudio Abbado fez aquilo a que poderíamos chamar o “grand slam” das orquestras e instituições mundiais da música.

Depois de se ter estreado no La Scala, de que se tornou diretor artístico logo em 1968, com apenas 35 anos, a conquista, em 1963, do Prémio Mitropoulos deu-lhe acesso a um “estágio” de alguns meses na Filarmónica de Nova Iorque, como assistente de Leonard Bernstein.

Em paralelo com o La Scala, foi também, entre 1979-87, diretor musical da Sinfónica de Londres. E, em 1986, após o fim do mandato no teatro de Milão, assume a direção da Ópera Estatal de Viena.

Em 1978, fundou e tornou-se diretor musical da Orquestra de Jovens da União Europeia, a que se seguiu a criação da Orquestra de Jovens Gustav Mahler (1986). Simultaneamente, ia sendo convidado para dirigir outras orquestras espalhadas pelo mundo, desde a Orquestra de Câmara da Europa à Orquestra Sinfónica Simón Bolívar da Venezuela.

Na biografia que traça de Claudio Abbado, a editora Deutsche Grammophon cita esta sua afirmação: “O termo ‘grande maestro’ não significa nada para mim. Grande é o compositor”.

De facto, na sua carreira, Abbado não distinguiu os compositores, nem cedeu ao elitismo que muitas vezes marca a cena musical e leva muitos músicos a maestros e seguirem apenas caminhos já pisados anteriormente.

A atenção aos jovens músicos, “às obras menos conhecidas e divulgadas de clássicos como Rossini, Schubert e mesmo Mahler”, como nota Vieira Nery, e aos compositores do século XX – Schönberg, Stockhausen, Luigi Nono, Bruno Maderna, Franco Donati… – são também uma marca da vida de Abbado, a quem a Deutsche Grammophon chama mesmo “um campeão da música contemporânea”.

Uma carreira que foi sendo elogiada e consagrada ao longo do tempo, com distinções como o Prémio Imperial do Japão, as Medalhas Mahler e Mozart (Viena), ou a mais alta distinção civil do governo alemão, o Bundesverdienstkreuz, ao lado de doutoramentos honoris causa em universidades de Ferrara, Cambridge, Aberdeen e Havana.


Claudio Abbado dirigindo a Sinfonia N.º 5 de Beethoven, em 2001

por Sérgio C. Andrade, in jornal Público | 20 de janeiro de 2014


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