"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"LEONOR NO PAÍS SEM PILHAS"

de ARMANDO NASCIMENTO ROSA
Análise de Duarte Ivo Cruz
Tradução de Alexandra Leitão

A dramaturgia de Armando Nascimento Rosa documenta com muita relevância uma nova geração e uma nova mentalidade no teatro português. Trata-se de um autor em pleno processo de construção da sua obra, o que será normal dada a cronologia. Mas sobretudo, trata-se de um dramaturgo que se dedica a tempo inteiro à expressão e à cultura teatral, aí envolvendo os aspetos obviamente complementares do aprendizado e do ensino de nível superior, da análise cultural mas sobretudo da exclusividade do teatro na obra criada: e esta já é numerosa e tem já projeção internacional.

Acresce que se trata ainda de um dramaturgo representado, o que não é tão obvio e tão habitual como parece, e isto, reconheça-se, não apenas nos nossos dias e nem sequer, apenas, no nosso meio teatral.

E ainda mais um aspeto. A dramaturgia de  Armando Nascimento Rosa, oscilando na temática e no contexto histórico da cada peça, tem de comum, alem do sentido cénico que a experiência reforça, um teor poético de linguagem que muitas e muitas vezes sublima, sem prejudicar nem sequer atenuar, a dureza psicológica, e social dos temas e dos conflitos. O que não exclui, note-se bem, a capacidade de  recriar situações aparentemente amenas e menos duras e violentas,  sem embargo do recado – o que há anos se chamava sempre “mensagem”  - subjacente.

Citamos, precisamente, um texto infantojuvenil, o que  em sim mesmo também não é habitual, com as honrosas exceções na nossa dramaturgia. “Leonor no País sem Pilhas” (2000) tem ainda outra originalidade, a saber,  retratar, de forma adequada ao seu público-alvo mas muito incisiva na expressão poética, um temário africano de atualidade. E isto, repita-se, num envolvimento poético e num sentido alegórico muito belo na escrita e muito eficaz na cena.

A pequena Leonor recebe de presente “um boneco articulado vindo de África, o Toli”, o qual ganha vida. O temário africano fica desde logo marcado e definido, e isto, sem quaisquer perspetivas de análise histórica ou dialética política direta, que seria descabida no contexto. O que não quer dizer que a peça não tenha a sua própria “mensagem”, cá estamos outra vez…

Essa mensagem é de profunda e enternecida solidariedade. As referências a Angola à Guiné surgem envolvidas num ambiente poético que não escamoteia as realidades. Sejam históricas ou sejam, atuais. E sobretudo, a evocação poderosa, poeticamente dramática, das inundações em Moçambique, que entretanto já novamente ocorreram, reforça essa ligação à realidade.

E já agora acrescente-se que o reverso “africano” desta peça estará na violenta “Audição com Daisy ao Vivo” (2002), que, a partir da evocação da estadia do jovem Fernando Pessoa em Durban, revela uma dimensão dramática impressionante no temário do racismo e do apartheid, mas sem abandonar um  substrato poético da linguagem e até da situação, duríssima e violenta que seja: o que só um verdadeiro dramaturgo consegue conciliar.



"LEONOR NO PAÍS SEM PILHAS
by ARMANDO NASCIMENTO ROSA

Armando Nascimento Rosa’s dramaturgy documents with great relevance a new generation and a new mentality in Portuguese theatre. We are dealing here with a writer at the height of his output, a normal occurrence given the chronology. Above all, he is a playwright who works full-time in theatrical expression and culture, which also involves the evidently complementary aspects of higher learning and teaching and cultural analysis, but above all the exclusivity of theatre in his works: these are plenty already and with international renown.

Furthermore, his plays have been performed, which is not such an obvious event and certainly not as usual as it might appear, not only in our days and not even merely in our theatrical milieu.

There is a further aspect. Armand Nascimento Rosa’s dramaturgy, whose theme and historical context vary in each play, has not only the scenic meaning reinforced by experience in common, but a poetical tone to his language that is often sublimated, without prejudicing or even attenuating the psychological and social harshness of the themes and the conflicts. Note that this does not exclude his capacity to recreate situations that are apparently mild and less harsh and violent, despite the underlying “message”.

With some honourable exceptions we are talking precisely about a children’s text, which is also not usual. “Leonor no País sem Pilhas” (2000) has another originality, in that it is adequately able to portray for the target audience a modern African theme which is very incisive in its poetical expression. This, one might repeat, within a poetical ambience and a beautiful allegorical spirit in the writing that is very effective on stage.

Young Leonor is given a present of “Toli, an articulated doll from Africa”, which comes alive. The African theme is immediately marked and defined, and without any perspectives of historical analysis or direct political dialectics, which would be out of context. This does not mean that the play does not have a “message”, there we go again…

That message is one of deep and touching solidarity. The references to Angola and Guinea are involved in a poetical ambience that does not evade the historical or current realities. In particular, the powerful, poetically dramatic evocation of the floods in Mozambique, that have in the meantime reoccurred, merely reinforce that link to reality.

We should add that the “African” reverse of this play lies in the violent “Audição com Daisy ao Vivo,” (2002) which, evoking the stay of the young Fernando Pessoa in Durban, reveals an impressive dramatic dimension in the theme of racism and apartheid, without relinquishing a poetical substratum of the language and even of the situation, however hard and violent it might be: something that only a true playwright can reconcile.


 

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