"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"FÍGADOS DE TIGRE"

de GOMES DE AMORIM
Análise de Duarte Ivo Cruz
Tradução: Alexandra Leitão


Gomes de Amorim marcou a sua época na dupla qualidade de dramaturgo típico do ultra-romantismo e de dedicado amigo e biógrafo de Almeida Garrett. Mas para a nossa época e para a nossa cultura teatral, é mais relevante a insólita incursão que, em 1857, faz no que hoje chamaríamos de "teatro do absurdo" com os "Fígados de Tigre - Paródia dos Melodramas ou O Melodrama dos Melodramas", verdadeira prefiguração de uma charge bem contemporânea do próprio ultra-romantismo que o autor, em mais de dez peças hoje esquecidas, afincadamente cultivou.

Também não se diga que se trata de uma "paródia" no sentido de  farsa ou imitação burlesca, quase circense, que naquele tempo foi habitual nos nossos palcos, a par das "mágicas", por exemplo. E isto, apesar do autor, sobretudo no prefácio da edição, que é de 1869, se auto-justificar relativamente àquele desvio surreal dos melodramas habituais. Esse prefácio justificativo lembra que a peça foi estreada no Carnaval, a pedido do ator Epifânio Aniceto Gonçalves. Mas acrescenta, numa base de elogio ao Epifânio, que "sabia tomar o pulso às multidões e cujo talento levou muitas vezes adiante do seu tempo, (pelo que) profetizava que o único acepipe de que estas se tornariam gulosas seriam peças sem senso comum"...

Ora bem: este "non-sense" profético das farsas trágicas absurdas de Beckett e Ionesco, aparece vazado no ritmo alucinante da troça aos dramalhões que os "Fígados de Tigre" contem. São 62 personagens e mais alguns integrantes de um coro. As denominações e caracterizações, e a própria escolha dos personagens também é Absurdo: temos o protagonista, Fígados de Tigre, "Imperador de um país desgraçado"; Golias, que "não se sabe quem é"; Pai Tomás, "preto que teve uma cabana"; Orfeu, "grande artista em gaita-de-foles"; Cervantes, "autor iludido" e D. Quixote "seu filho"; Caronte "catraeiro no outro mundo"... Todos se enfrentam e se degladiam, numa rivalidade assumida em conflitos que redundam na mais descabelada das farsas!

De tal forma que a certa altura, o absurdo é reconhecido mesmo em cena: "o enredo vai-se complicando de tal modo, e vão-me aparecendo tantos e tais parentes, que estou em risco de chegar a não saber quem sou!" diz um personagem. Ou Pedro Cru, "filho de pais incógnitos": "por ti, Elisa, por ti... / Porque depois que te vi / nunca mais me conheci / e não sei o que senti / Aqui! / Ai de mi! / Sofri, / Carpi / Gemi / Vivi Morri / Mas não fugi" / De ti / Kikirikiki!..." Assim mesmo!

Trata-se efetivamente de uma intuição da própria essência do teatro do absurdo, na perspetiva do desenvolvimento lógico de um ponto de partida ilógico. Há algo de semelhante no "Victor ou as Crianças no Poder" de Roger Vitrac: só que esse texto também profético foi estreado em Paris em 1938. Esta modernidade, em meados do Século XIX, no Teatro Nacional D. Maria II, é de facto no mínimo singular!

E repita-se: vai completamente ao arrepio da dramaturgia do próprio Gomes de Amorim. O autor justifica-se, já vimos, com a quadra carnavalesca e com a intuição farsica do ator que lhe encomendou o texto. Mas também vai reconhecendo que a cultura teatral em que se inscreve a sua própria dramaturgia também deveria ser vista com algum distanciamento irónico e algo complacente.

Pois escreveu, no tal Prefacio de 1869, que nos anos 50 "as mães de família não iam para o teatro sem provisão de lenços para enxugar os olhos durante os esfaqueamentos dos galãs, e sem bolos para fazer calar as crianças assustadas com o berreiro dos tiranos"!

E mais: se a peça teve sucesso, diz o autor, foi porque "o público aplaudia os disparates"! Ora, diremos agora, só esta peça resistiu à copiosa dramaturgia de Gomes de Amorim!


 

"FÍGADOS DE TIGRE" by GOMES DE AMORIM

Gomes de Amorim marked his era by being both a typical playwright of the ultra-Romantic period and the friend and biographer of Almeida Garrett. As far as our era and our theatrical culture are concerned, however, what is more relevant is his unusual incursion in 1857 into what today we would call the theatre of the absurd with his "Fígados de Tigre -Paródia dos Melodramas ou O Melodrama dos Melodramas," truly a prefiguration of a contemporary take on ultra-romanticism which the playwright cultivated strongly in more than ten plays, now forgotten.

Nor can it be said to be a “parody” in the sense of a farce or an almost circus-like burlesque imitation, which was customary then on our stages, together with other comic performances, for instance. This, despite the fact that the author, mainly in the preface to the 1869 edition, provides self-justification concerning his surreal deviation from the usual melodramas. The preface recalls that the play was first put on during Carnival at the request of the actor Epifânio Aniceto Gonçalves. He adds, whilst clearly praising Epifânio, that “he knew how to take the pulse of the crowds and his talent was often ahead of his time (so that) he prophesised that the only titbit they would be greedy for would be plays lacking commonsense"...

Now, this nonsense prophesising Beckett’s and Ionesco’s absurd tragic farces is diminished in the hallucinating rhythm of the fun poked at the melodramas that "Fígados de Tigre" contains. The play has 62 characters and a few members of a choir. The names and descriptions, and the very choice of the characters is also absurd: we have the main character, Fígados de Tigre (Tiger Livers), "Emperor of a disgraced country"; Goliath who “does not know who he is"; Uncle Tom, "a negro who had a cabin"; Orpheus, “a major artist on the mouth organ”, Cervantes, "an illusioned author” and Don Quixote “his son;” Charon “a boatman of the other world”. All confront and fight each other, avowed rivals in conflicts that lead to the most ridiculous farce!

So much so, that at one stage, absurdity is acknowledged on stage: “the plot gets so complicated and so many relatives appear that I run the risk of not knowing who I am!” says one character. Or Pedro Cru,” son of unknown parents”: “For you, Elisa, for you… / Because after I saw you / I never knew myself / And know not what I felt / Here! / Woe is me! / I whimpered / I mourned / I lived / I died / But I did not flee / Kikirikiki!" Just so!

It is in fact an intuition of the very essence of the theatre of the absurd from the point of view of the logical development of an illogical point of departure. There is something similar in “Victor ou les enfants au pouvoir” by Roger Vitrac, except that this similarly prophetic text was first performed in Paris in 1938. This modernity in the mid-19th century at D. Maria II National Theatre is in fact unusual, to say the least!

It is also completely contrary to the dramaturgy of Gomes de Amorim himself. The author justifies himself, as we have seen, with the Carnival period and the farcical intuition of the actor who commissioned the play. But he also acknowledges that the theatrical culture to which his plays belong should also be seen with a certain ironic and somewhat complaisant distance.

In the 1869 preface he wrote that in the 50s “mothers of good families did not go to the theatre without a supply of hankies to dry their eyes when the Lotharios were knifed, or with cakes to quieten children frightened by the roar of the tyrants!”

Moreover, said the author, if the play was a success it was because the “audience applauded the silliness!” Now, as we say, only this play of Gomes de Amorim’s copious playwriting has survived!



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