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Obras de referência da cultura portuguesa

"O HOMEM DAS LOUÇAS"

de EDUARDO VIANA
col. Arq. Carlos Ramos (Lisboa) 
Óleo sobre tela, 1919, 131x114 cm.

Análise de Rui-Mário Gonçalves
Tradução: Alexandra Leitão


Vendido cedo para a Bristol-Clube (1919-1928, Lisboa), grande casa de jogo, restaurante e clube onde se reuniam as celebridades da época, este quadro da autoria de Eduardo Viana (1881-1967) foi vendido diretamente pelo dono do Clube ao Arquiteto Carlos Ramos.
Não deve ter sido nunca repintado, ao contrário de outros quadros do mesmo autor, e, por isso, testemunha com fidelidade a capacidade expressiva do pintor em 1919.
Nesse ano imediato à Guerra de 1914-18, atravessava-se um momento em que por toda a Europa devastada se proclamava, tanto no domínio político como no cultural, a necessidade de um retorno à ordem, que foi contrário ao radicalismo das vanguardas artísticas.
No meio mais restrito de Portugal, o quadro apareceu como cabeça de série da redescoberta do pré-cubista francês Paul Cézanne (1839-1906) que marcou a tendência construtivista dos anos vinte, em compromisso com o dominante gosto naturalista.
Eduardo Viana, formado pela Academia de Belas Artes de Lisboa, faz a confrontação das práticas pictóricas numa só imagem, nomeadamente os cromatismos tonal de Columbano (1857-1929) e o tímbrico de Robert Delaunay (1885-1941), mostrando também que o modernismo não é incompatível com o gosto popular.
À esquerda, um grande disco de delaunianas cores puras corporiza-se num alguidar, sobraçado por tons acastanhados columbanescos. À direita, a mão segura num boneco de barro popular, que Delaunay ensinara Viana e Amadeo a observar, durante a estada do casal Delaunay no Minho, em 1915-16. Tanto num braço como noutro, os volumes são facetados, sendo as facetas marcadas por saltos de claro-escuro (à esquerda) ou por contrastes de cores puras (à direita).

A composição é perfeitamente conseguida, na sua ambição de conjugar unidade e diversidade. Nos cantos superiores do quadro aparecem linhas retas horizontais e verticais, bem integradas na superfície do suporte, enquadrando a cabeça e outras formas arredondadas. No canto esquerdo predominam as cores escuras, num plano frontal que contrasta com os redondos volumétricos. No canto direito, o fundo liso e claro contrasta com cerâmicas de barro preto. Esse canto é o ponto de chegada da diagonal ascendente, marcada pela parte superior de uma das pernas, passando pelo alguidar e pela cabeça.

 



"O HOMEM DAS LOUÇAS" by EDUARDO VIANA
Carlos Ramos Collection (Lisbon)
oil on canvas, 1919, 131x114cm.

Acquired at an early date by the Bristol-Clube (1919-1928, Lisbon), a major gambling house, restaurant and club where the celebrities of the day would gather, this painting by Eduardo Viana (1881-1967) was then sold directly by the club’s owner to the architect Carlos Ramos. As opposed to others of his paintings it was probably never repainted, and therefore is a faithful testimony of the painter’s expressive capacity in 1919. That year, which followed on the 1914-18 war, was a time when the political and cultural circles of a ravaged Europe proclaimed the need for a return to order, contrary to the radicalism of the artistic vanguards. In Portugal’s more restricted environment, the painting emerged as the front runner in the rediscovery of the French pre-cubist painter Paul Cézanne (1839-1906) who marked the constructivist tendency of the 20s, compromising with the predominant naturalist taste.

Eduardo Viana, trained at Lisbon Fine Arts Academy, juxtaposes pictorial practices in one single image, in particular the tonal colourings of Columbano (1857-1929) with the timbric colourings of Robert Delaunay (1885-1941), showing also that modernism is not incompatible with popular taste. On the left, a large disc of pure “Delaunayian” colours is embodied in a bowl surrounded by brown “Columbanoesque” tones. On the right, in the man’s hand is a typical terracotta figure, which Delaunay had taught Viana and Amadeo de Souza Cardoso to observe during the Delaunay couple’s sojourn in Minho in 1915-16. The volumes are faceted in both arms, and the facets marked by leaps of chiaroscuro (on the left) or by the contrast of pure colours (on the right).

The composition is perfectly achieved in its ambition to combine unity with diversity. The upper corners of the painting have horizontal and vertical lines which are well integrated in the surface support, framing the head and the other rounded forms. In the left corner dark colours predominate, in a frontal plane that contrasts with the rounded volumes. In the right corner, the light, smooth plane contrasts with black terracotta figures. This corner is the point of arrival of the ascending diagonal, marked by the upper part of one of the legs, passing through the bowl and the head.



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