"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"NIÑA ERA LA INFANTA"

Romance (1521), autor anónimo
Análise de João Pedro d'Alvarenga
Tradução de Alexandra Leitão

Dos géneros poético-musicais praticados na Península Ibérica entre o ocaso da Idade Média e o período maneirista, o romance é porventura o mais genuíno. A tradição destes poemas extensos remonta ao século XIV, cristalizando-se nos exemplares mais antigos fragmentos das canções de gesta, particularmente as do ciclo arturiano ou bretão, que igualmente fornecem a matéria e o substrato ético e moral às novelas de cavalaria, das quais teve entre nós maior fortuna o Amadis de Gaula. Os romances, escritos em verso octossilábico de rima assonante, narram acontecimentos históricos ou lendários, fazem eco de factos contemporâneos e, pelos finais do século XVI, abordam igualmente temática devocional.

A partir das últimas décadas do século XV principiam a surgir nos cancioneiros ibéricos exemplares do romance polifónico (o primeiro, escrito a quatro vozes, parece ser Lealtad, o lealtad, inserido nos Hechos del Condestable Don Miguel Lucas de Iranzo, crónica castelhana datada de 1466). Do ponto de vista da música, o romance consiste num período de quatro frases, correspondendo aos quatro versos de uma estrofe, em raros casos com repetição do último verso, pela mesma música ou por música diferente, com ou sem refrãos de um ou dois versos intercalados cada uma, duas ou quatro quadras.

O texto de Niña era la infanta surge perto do desfecho do auto alegórico Cortes de Júpiter, composto por Gil Vicente e representado no Paço da Ribeira no ano de 1521, em vésperas da partida da infanta D. Beatriz, segunda filha do Rei D. Manuel I, que ia casar-se com o Duque Carlos III de Sabóia:
«Romance. Niña era la iffanta / doña Breatiz se dezia / nieta del buen Rey Fernando / el mejor Rey de Castilla […]. Este romance cantam os planetas & sinos a quatro vozes, pera com as palavras delle & musica desencantarem a Moura Tais de seu encantamento […]». A versão do pequeno Cancioneiro Musical da Biblioteca Nacional, fonte única da música, apresenta um texto variante, com lusismos e condensado do original: «Ninha era la infanta / neta Del Rey de Castilha / Dona Briatiz ha por nome / todalas gratias tenia […]».
A música, amiúde convocada no teatro vicentino, não é um mero adereço, é antes um elemento essencial da sua dramaturgia, fornecendo-lhe uma rica dimensão subtextual. No caso deste romance, o poema, superficialmente banal, exalta a genealogia da infanta, o senhorio do noivo, a prodigalidade do dote, a excelência do séquito que a acompanha e o poder da armada que a leva. Mas a música pelo qual é cantado, de carácter paradoxalmente melancólico, reflete afinal o estado de espírito dos circunstantes, tristes e já saudosos da jovem prestes a deixar para sempre, pelo dever da condição, o círculo das suas íntimas referências afetivas.

Gravações disponíveis:
– O Lusitano: Portuguese vilancetes, cantigas & romances, Gérard Lesne, Circa 1500, dir. Nancy Hadden, Virgin Classics, 1992, VC 7 91500-2, CD [faixa 12]
– Música para o Teatro de Gil Vicente 1502-1536, Segréis de Lisboa, dir. Manuel Morais, Portugaler, 2006, 2007-2, CD [faixa 10]

 



"Niña era la infanta" Romance (1521), Anonymous

The romance is possibly the most genuine of the poetical and musical genres practised in the Iberian Peninsula between the late Middle Ages and the Mannerist period. The tradition of these long poems goes back to the 14th century, the oldest forms being fragments of chansons de geste, particularly of the Arthurian or Breton cycle, which also supplied the form and the ethical and moral substance of the novels of chivalry, one of the most popular among us being Amadis of Gaul. The romances, written in octossyllabic verses with assonant rhyme, narrate historic or legendary events, echo contemporary facts and, by the end of the 16th century, also touch on the theme of religious devotion.

From the last decades of the 15th century examples of the polyphonic romance appear in the Iberian songbooks or cancioneiros (the first, written for four voices, seems to be Lealtad, o lealtad, included in Hechos del Condestable Don Miguel Lucas de Iranzo, a Castilian chronicle dated 1466). From the point of view of the music, the romance has a four-phrase period corresponding to the four verses of a strophe, on occasion the last verse is repeated with the same or with different music, and with or without a refrain of one or two verses interspersed every one, two or three stanzas.

The text of Niña era la infanta appears near the end of Cortes de Júpiter, an allegorical auto composed by Gil Vicente and performed at Paço da Ribeira in 1521, just before the departure of Princess Beatriz, the second daughter of King D. Manuel I, on her way to wed Charles III, Duke of Savoy:
«Romance. Niña era la iffanta / doña Breatiz se dezia / nieta del buen Rey Fernando / el mejor Rey de Castilla […]. (The princess was a young girl / Beatriz was her name / granddaughter of good King Fernando / the best King of Castile) […] Este romance cantam os planetas & sinos a quatro vozes, pera com as palavras delle & musica desencantarem a Moura Tais de seu encantamento […]». This romance sings the planets and bells at four voices so that its words and music may remove the spell from Tais, the Moorish girl […]». The version of the Cancioneiro Musical of the Biblioteca Nacional, the only source of the music, has a text with Portuguese terms and is condensed from the original: «Ninha era la infanta / neta Del Rey de Castilha / Dona Briatiz ha por nome / todalas gratias tenia […]». “(The princess was a young girl / granddaughter of the King of Castile / her name was Beatriz / and she had all the graces).
The music, so often a feature in Gil Vicente’s theatre, is not a prop but an essential element of its dramaturgy, supplying a rich sub-textual dimension. In the case of this romance, this superficially banal poem exalts the lineage of the princess, the lordliness of the bridegroom, the prodigal dowry, the quality of the people in her retinue and the power of the armada that transports her. Its music, however, which is paradoxically melancholic, really reflects the state of mind of the people involved, who are sad and already missing the young girl who, on account of her condition, will be leaving the circle of her closest entourage forever.

Available recordings:
– O Lusitano: Portuguese vilancetes, cantigas & romances, Gérard Lesne, Circa 1500, dir. Nancy Hadden, Virgin Classics, 1992, VC 7 91500-2, CD [track 12]
– Música para o Teatro de Gil Vicente 1502-1536, Segréis de Lisboa, dir. Manuel Morais, Portugaler, 2006, 2007-2, CD [track 10]



Obras de Referência da Cultura Portuguesa
contam com o apoio do

Agenda
Ver mais eventos
Visitas
51,046,097
>