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Albert Uderzo, o ilustrador que desenhou Astérix para o mundo

Aos 92 anos, desaparece o co-autor de Astérix, Obélix e dos irredutíveis gauleses.

Albert Uderzo com Obélix e Ideiafix_Reuters


O ilustrador francês Albert Uderzo morreu aos 92 anos, anunciou a sua família esta terça-feira. Com a sua morte, e depois do falecimento de René Goscinny em 1977, desaparecem os dois autores da banda desenhada francesa que ao longo de seis décadas apaixonou gerações com as aventuras de Astérix e sua aldeia de irredutíveis gauleses.

A notícia da sua morte foi dada na manhã desta terça-feira à agência AFP pela família. “Albert Uderzo morreu durante o sono na sua casa em Neuilly após uma crise cardíaca sem ligação com o coronavírus”, disse à AFP o seu genro, Bernard de Choisy com a adenda que nos tempos que correm se tornou mais ou menos essencial - assinalar ou não a relação com a covid-19 em tempos de pandemia. “Ele estava muito cansado já há várias semanas.”

Uderzo tinha deixado de desenhar os álbuns da série Astérix em 2011. Astérix e companhia estão agora nas mãos de Jean-Yves Ferri (argumento) e Didier Conrad (desenho), que em 2019, no 60.º aniversário da série, assinaram o mais recente álbum, A Filha de Vercingétorix. Albert Uderzo nasceu a 25 de Abril de 1927 em Fismes. O pai era italiano e o seu nome de batismo é precisamente Alberto Aleandro Uderzo. Ao longo da sua carreira acabou também por se tornar guionista de BD, nomeadamente dos álbuns de Astérix após a morte do seu amigo e colega Goscinny.

Foi em 1959 que Albert Uderzo e René Goscinny pela primeira vez mostraram ao mundo a sua criação que viria a tornar-se um filão de qualidade e entretenimento desdobrado em filmes de animação e ação real, jogos e videojogos, (muito) merchandising e até um parque temático - o Parc Astérix, a cerca de 2o quilómetros de Paris, é uma das atrações mais visitadas de França e continua a receber milhões de turistas todos os anos. A revista franco-belga Pilote estreava em Outubro de 1959 as aventuras de Astérix, um pequeno gaulês cuja estatura e aldeia entrincheirada eram tudo menos vulneráveis: graças à poção mágica do druida Panoramix, e a um espírito de resiliência que se confundia com a Gália e a França contemporânea, Goscinny escrevia uma história de resistência que Uderzo ilustrava com força e delicadeza.

Havia os nomes sempre cheios de trocadilhos e traduzidos em mais de cem línguas, os invasores romanos sempre a levar “castanhada”, os javalis suculentos, a queda do rubicundo guerreiro ruivo de tranças Obélix no caldeirão da poção mágica e o cãozinho Ideiafix que não aguentava ver uma árvore maltratada. A história universal cruza-se com as muitas aventuras dos gauleses, que temiam apenas que o céu lhes caísse sobre a cabeça. Cleópatra, Júlio César, os Jogos Olímpicos, os normandos, os bretões, os corsos e até os “iberos”, a par de muitos estereótipos sobre estas populações, são até hoje temas que tornam os álbuns da série Astérix transversais a tantos países. Mais recentemente, a A Filha de Vercingétorix foi comparada a Greta Thunberg e anos antes, os novos autores piscavam o olho a Julian Assange com a personagem Doublepolemix, um jornalista gaulês no livro O papiro de César (2015).




por Joana Amaral Cardoso in Público | 24 de março de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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