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De Hitchcock a Scorsese. Cinemateca celebra o mundo das comédias "improváveis"

Martin Scorsese, Luis Buñuel ou Ingmar Bergman são alguns dos mestres representados na lista de autores "improváveis" do género cómico - é um ciclo para acompanhar na Cinemateca ao longo do mês de Setembro.

'O Terceiro Tiro' (1955), de Alfred Hitchcock, é uma das comédias improváveis que podem ser revistas este mês na Cinemateca Portuguesa © DR

 

Apesar da pandemia e, apetece dizer, através da pandemia, a Cinemateca Portuguesa não desistiu de celebrar a comédia. Saudemos, por isso, o ciclo que decorre ao longo do mês de Setembro, definido pela sugestiva ambiguidade do seu título: "A comédia, improvavelmente".

Na verdade, trata-se da segunda de três partes de um ciclo gigantesco, programado para todo o ano de 2020. A primeira, em Janeiro, sob a designação de "Os Reis da Comédia", correspondeu a uma necessária aproximação canónica: dar a ver uma colecção de clássicos universais, identificar actores e realizadores fundamentais na evolução do género. Agora, depois de um adiamento de dois meses, é a vez dos "improváveis", ou seja, intérpretes e autores que não associamos necessariamente à história do género, mas que o marcaram com as singularidades da sua visão do mundo.

E não deixa de ser curioso sublinhar que tal "marginalidade" das escolhas envolve também a produção do nosso país. Assim, serão exibidos três títulos que, para lá das respectivas derivações cómicas, podem ser vistos também como símbolos de épocas históricas muito precisas (do cinema e da sociedade portuguesa). A saber: Malteses, Burgueses e às Vezes (1973), de Artur Semedo (dia 21, 15h30), Recordações da Casa Amarela (1989), de João César Monteiro (dia 21, 21h30), e Technoboss (2019), de João Nicolau (dia 28, 19h00).

A selecção proposta distingue-se, aliás, pela pluralidade das origens. Assim, por exemplo, será possível ver ou rever Querido Diário (1993), do italiano Nanni Moretti, porventura o seu filme mais subtilmente paródico e também mais confessional (dia 9, 15h30). Ou O Terceiro Tiro (1955), de Alfred Hitchcock, o célebre, paradoxalmente pouco divulgado, Trouble with Harry, por certo uma das comédias mais originais do período clássico de Hollywood, lidando com um cadáver várias vezes enterrado e desenterrado (dia 15, 15h30; dia 30, 19h00). Ou ainda Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, parábola barroca sobre a história do Brasil, numa adaptação muito livre do romance homónimo de Mário de Andrade (dia 19, 19h00).

Aguardando a terceira parte do ciclo, sobre "o riso, dentro e fora do ecrã" (em data a anunciar), aqui ficam mais algumas escolhas possíveis para o mês corrente:

DR. ESTRANHOAMOR (1964) - Duas décadas antes de Nascido para Matar (1987), sobre a guerra do Vietname, Stanley Kubrick retratava o universo militar em cenário dantesco de guerra fria, assombrado pela possibilidade do apocalipse nuclear, contando com quatro personagens interpretadas por Peter Sellers. Sarcástico até à medula, no original ostenta um subtítulo esclarecedor: "Como aprendi a deixar de me preocupar e a adorar a bomba" (dia 10, 21h30; dia 14, 15h30).

O REI DA COMÉDIA (1982) - Um admirador de uma vedeta da televisão rapta o seu herói, tentando encontrar um lugar no mundo do espectáculo... Ou seja: Robert De Niro e Jerry Lewis são dirigidos por Martin Scorsese numa visão contundente, profundamente amarga, dos meandros da fama e da agitação mediática. Comédia, sem dúvida, quase tragédia (dia 12, 15h30; dia 16, 19h00).

A FORÇA DO SEXO FRACO (1964) - Ingmar Bergman a esmiuçar as convulsões da criação artística, de caminho elaborando um saboroso discurso crítico sobre... os críticos. O retrato do paraíso onde vive um reputado violoncelista, na companhia das suas musas, estabelece um belo contraste (complementar, sem dúvida) com o negrume filosófico de muitas narrativas "bergmanianas" (dia 15, 21h30).

ENSAIO DE UM CRIME (1955) - Um dos títulos fundamentais do período mexicano de Luis Buñuel e, em boa verdade, um filme nuclear na arquitectura temática da sua obra: esta é a história bizarra de um homem que planeia o assassinato das suas mulheres que, em qualquer caso, acabam por morrer... acidentalmente. Ou a fábula do desejo e da imaginação, da realidade e do sonho, em todo o seu esplendor (dia 22, 19h00).

UM DIA DE CADA VEZ (2008) - Título original: Happy-Go-Lucky. Mestre do realismo britânico, Mike Leigh ensaia um "desvio" cómico, centrado na personagem de uma mulher, professora do norte de Londres, cuja alegria de viver tende a dificultar a vida dos outros... Com a notável Sally Hawkins no papel central (prémio de interpretação no Festival de Berlim), a comédia intensifica, afinal, as nuances do retrato social.

 


por João Lopes, in Diário de Notícias | 9 de setembro de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Diário de Notícias

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