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Um cânone da literatura portuguesa que quer valer pelos argumentos

Os ensaístas António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen apresentaram O Cânone.


Chama-se apenas O Cânone, foi organizado por três professores e ensaístas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen – e faz a defesa da particular relevância de 50 escritores portugueses, de D. Duarte (1391-1408) a Luiza Neto Jorge (1939-1989). O livro teve a sua primeira apresentação esta quarta-feira, numa ventosa sessão ao ar livre no Jardim Botânico, difundida em streaming na página de Facebook da Tinta-da-China, que publica a obra com a Fundação Cupertino de Miranda, de V. N. Famalicão.

Com a presença dos três autores e moderação do humorista Ricardo Araújo Pereira, digamos que não se tratou de uma apresentação especialmente canónica. António Feijó frisou várias vezes que O Cânone não pretende ser um guia para a literatura portuguesa – “não é um livro sobre o esplendor de Portugal, é um livro de crítica literária” – e que a lista de nomes importa menos do que os ensaios, muitos deles redigidos pelos três coordenadores, outros pedidos a diferentes investigadores, e não necessariamente especializados no autor em causa. “O que pedimos às pessoas e a nós próprios foi que os ensaios exprimissem opiniões próprias”, explicou Miguel Tamen, justificando: “Muitas vezes os professores e os críticos acham que o melhor é não dizer o que pensam sobre coisa nenhuma, não sei se é porque acham que são cientistas ou se assim estão mais protegidos”.

Mas se os telespectadores (admitindo que o termo se aplique ao streaming) ficaram a conhecer o rol de autores selecionados, que Araújo Pereira leu logo no início, reservando apenas três nomes para divulgar mais adiante – talvez para manter o suspanse, talvez para gozar com a mania de se manter o suspanse –, já não foi assim tanto o que se ficou a saber acerca dos ensaios. Feijó recomendou especialmente o texto de Abel Barros Baptista sobre Júlio Dinis (1839-1871), possivelmente um dos nomes menos consensuais desta lista, pelo menos entre críticos e académicos; João R. Figueiredo justificou a inclusão de Frei Luís de Sousa, que lhe coube tratar, como “um prosador dos prosadores”, admirado por António Vieira; e o que Miguel Tamen adiantou sobre o ensaio que dedicou aos críticos João Gaspar Simões e Eduardo Prado Coelho foi curto mas sugestivo: “Eram dois críticos que se detestavam, e o meu argumento é que eram muito parecidos”, explicou. “Fiz uma vida paralela de duas pessoas que não concordavam em quase nada e que estiveram ativas durante muito tempo, com grande profissionalismo e com pouco interesse”.

Cada um dos escritores escolhidos teve direito a um ensaio (ou dois, nos casos de Camões e Pessoa), com a exceção de Maria Teresa Horta (nascida em 1937 e único autor vivo desta lista), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016), tratadas conjuntamente como As Três Marias. Uma decisão algo controversa, já que não é claro se as três autoras teriam entrado todas caso não se tivesse seguido esta opção, além de que poderá sugerir que o feito central de uma autora como Maria Velho da Costa foi ser co-autora das Novas Cartas Portuguesas.

O livro inclui ainda ensaios sobre a literatura portuguesa de determinados períodos, como o Renascimento ou o Barroco, outros sobre revistas como Orpheu ou Presença, e dois textos respetivamente dedicados a escritoras e a autores homossexuais.

No campo das ausências, Ricardo Araújo Pereira assinalou quatro nomes: os romancistas Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires e os poetas Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. “A Sophia é uma personalidade cultural, cívica e política em relação à qual não temos nenhuma reserva, e é também reconhecida no país de um modo que se pode dizer canónico”, reconheceu António Feijó, que ao procurar depois justificar a sua ausência – aliás relativa, já que, notou, aparece citada em vários ensaios – adiantou um argumento que pode ajudar a esclarecer um dos critérios desta escolha, sugerindo que teriam sido privilegiados autores que, no interior da tradição literária que prosseguem, tivessem inovado, “alterado as condições de expressão”.

Este Cânone ignora as cantigas trovadorescas e abre com D. Duarte e Fernão Lopes, e depois Gil Vicente, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, Fernão Mendes Pinto, Luís de Camões, Frei Luís de Sousa, António Vieira, António José da Silva e Bocage. Todos os outros nomes – cerca de 80 por cento da lista – são já de autores dos séculos XIX e XX. Todas as escolhas deste género são discutíveis, mas a vantagem desta é justamente que promete discutir as inclusões uma a uma. Teremos, pois, de ler o livro para saber, por exemplo, por que é que Florbela Espanca é mais relevante ou mais inovadora do que Sophia, ou Ruben A. é um romancista mais importante do que José Cardoso Pires. E como Miguel Tamen observou na sessão, quem achar que falta alguém, “que escreva um livro, que é o que se quer”.

Sublinhando o modo como aquilo que temos por canónico vai mudando com o passar do tempo, o mesmo Miguel Tamen observou que se alguém tivesse feito uma lista semelhante a esta há 70 anos, apareceriam nomes que nunca lhe teriam sequer ocorrido a ele e aos restantes autores deste livro. No entanto, sendo a generalidade dos autores incluídos bastante consensual, talvez se possa arriscar que alguns nomes seriam provavelmente ainda mais consensuais há algumas décadas, como João de Deus e Júlio Dinis, mas também Pascoaes ou Régio, para citar apenas alguns. A questão não foi abordada na sessão e não é fácil de argumentar, sobretudo se nos centrarmos apenas nas inclusões, mas fica-se com a impressão de que este Cânone revaloriza uma linhagem da moderna literatura portuguesa – Raul Brandão, Nobre, Pascoaes, Régio – que de algum modo foi perdendo reconhecimento perante o crescente prestígio de Pessoa e do primeiro modernismo.

O livro volta esta quinta-feira a ser apresentado, novamente em streaming, mas desta vez a partir da Casa de São Roque, no Porto, e com o presidente da administração do Teatro Nacional São João, Pedro Sobrado, a falar da obra com os três coordenadores de Cânone. A transmissão iniciar-se-á às 18h00 e poderá ser seguida nas páginas de Facebook da Tinta da China e da Fundação Cupertino de Miranda. Esta última promoverá ainda no dia 8, domingo, uma sessão para a imprensa com os três autores, a preceder a inauguração, na sua sede, de uma “torre literária” que funcionará como um museu de literatura com características singulares.


por Luís Miguel Queirós in Público | 15 de outubro de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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