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Cruzeiro Seixas (1920-2020), o último surrealista português

O pintor deixa uma obra multifacetada que se declinou na pintura, desenho, gravura, e objetos.

Foto de Nelson Garrido


Morreu este domingo, em Lisboa, aos 99 anos, o pintor Artur do Cruzeiro Seixas, um dos protagonistas mais importantes do movimento surrealista em Portugal. Era o único sobrevivente do grupo Os Surrealistas que, a partir de 1949, se formou em reação à estrita obediência aos ditames de Paris dos artistas seus rivais, que compunham o Grupo Surrealista de Lisboa. Autor de uma obra diversificada, que soube integrar e trabalhar memórias da arte africana vista em Angola, mas também das paisagens metafísicas de um De Chirico e das metamorfoses orgânicas e elegantes criadas por Salvador Dalí, coube-lhe o papel, com Mário Cesariny, de transmitir a liberdade poética e plástica surrealista à geração seguinte: a que incluía Paula Rego, Lourdes Castro, René Bertholo e Mário Botas, todos protagonistas do interesse que a figuração despertou na geração de 60, como então se dizia.

Artur Manuel do Cruzeiro Seixas nasceu na Amadora, a 3 de dezembro de 1920. Muito jovem, frequentou a escola António Arroio, em Lisboa, onde integrou um grupo de colegas que se reuniam no Café Herminius, hoje desaparecido, na avenida Almirante Reis, como Mário Cesariny, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria, Júlio Pomar, Fernando de Azevedo, Vespeira, entre outros. Neste meio, onde se discutiam apaixonadamente as oposições estéticas entre neo-realismo, abstracionismo e surrealismo, Cruzeiro Seixas, que experimentara a figuração neo-realista e o gesto expressionista anteriormente, criou os seus primeiros desenhos surrealistas cerca de 1949 e 1950, tendo participado pela mesma altura nas duas exposições que os Surrealistas realizaram nesses mesmos anos. Ao contrário do Grupo Surrealista de Lisboa (composto por António Pedro, António Dacosta, Moniz Pereira, Fernando de Azevedo, Vespeira, José-Augusto França, Alexandre O’Neill e António Domingues), o grupo Os Surrealistas defendia uma liberdade poética total que incluía também, e não em pequena medida, a liberdade de pensamento.

A cisão entre os dois grupos não tinha sido pacífica, e nessa altura, em 49, Mário Cesariny teria mesmo dito que não acreditava que os seus rivais fossem nem grupo, nem surrealistas… certo é que ambas as estruturas tiveram curta vida organizada, permanecendo contudo os seus membros a trabalhar e a criar na procura de linguagens plástica individuais que conjugassem o mundo do sonho e o mundo da experiência concreta numa única sobre-realidade. Em 1950, Cruzeiro Seixas alista-se na marinha mercante, viajando então para as Américas, Índia, África e Extremo Oriente. Dois anos depois, instala-se em Angola, onde participa em várias exposições e colabora com projetos de museologia. A sua segunda exposição individual em Luanda, em 1953, tem um prefácio de Cesariny de Vasconcelos e é constituída por objetos e colagens. Diz, na altura, que “a África é hoje o último continente surrealista”.

Pureza do grafismo

Já então a sua obra se diversificava pelo desenho, a pintura, a escultura e as assemblages de materiais diversos, explorando diversas técnicas e suportes para concretizar uma figuração fantástica a que José-Augusto França, nos anos 70, chama de “imagética cruel, ilustrações possíveis de Lautréamont”, e a propósito de uma exposição feita na altura em Lisboa. Quanto a Édouard Jaguer, crítico de arte editor da revista Phases, que se interessou pelo grupo de Cesariny e Cruzeiro Seixas, afirmou que “a inexorável pureza do grafismo de Cruzeiro Seixas subtrai ao preto e branco silhuetas sucintas de uma beleza ambígua, num estilo cortante onde o escalpelo parece substituir a pena”.

Emília Ferreira, por seu lado, no catálogo de obras do Museu Calouste Gulbenkian, fala de um “mundo desolador” criado pelo artista que “soube coexistir com paisagens mais ligeiras e felizes, como algumas pintadas nos anos de Angola.” No que respeita ao estilo inconfundível desenvolvido por Cruzeiro Seixas, as paisagens lunares, povoadas por seres ambíguos e híbridos — pássaros que possuem braços, torsos de mulheres que se abrem em clareiras de fogo, personagens minúsculas que dão escalas desmedidas às suas composições — convocam a prática de um desenho virtuoso e fantástico que pôde de facto falar aos jovens que, a partir da década de 50, abordavam a Pop Art e todas as suas declinações europeias mais conceptuais. Cruzeiro Seixas, ao contrário de Cesariny, que abriu a pintura a campos de experimentação inovadores dentro do informalismo, é sobretudo um desenhador e um praticante da colagem e da assemblagem. Mas é também um divulgador da estética surrealista no meio português.

De Angola, Cruzeiro Seixas viaja em 64 pela Europa, o que lhe permite tomar contacto com a arte que se produzia fora das fronteiras muito limitadas do meio português. Em 1967 regressa definitivamente a Portugal, expondo então na Galeria Buccholz, com textos de Pedro Oom e Rui Mário Gonçalves, e mais tarde na Galeria Divulgação. Nesse mesmo ano é bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, e pouco depois começa a trabalhar com as galerias 111 e São Mamede, como artista e, pontualmente, como programador.

Na década de 80 instala-se no Algarve, onde expõe também regularmente nas galerias da região. Já em 2001, integrou a polémica exposição Surrealismo em Portugal 1934 – 1952, no Museu do Chiado e, numa versão um pouco diferente, na Fundação Cupertino de Miranda em Vila Nova de Famalicão.

Em 1999, por iniciativa de Bernardo Pinto de Almeida, então diretor artístico do Museu da Fundação Cupertino de Miranda, criava-se na sede desta instituição um Centro de Estudos do Surrealismo – CES, com o objetivo de estudar, conservar e expor a obra dos surrealistas portugueses. Um dos seus primeiros gestos importantes consistiu na compra do acervo artístico e documental de Cruzeiro Seixas, que pouco tempo depois passaria a integrar exposições temporárias e coletivas em Famalicão. Graças a esta aquisição, o público português pode então passar a ter acesso permanente, na sua diversidade e riqueza, à obra deste artista, tanto à pintura, desenho e múltiplos, mas também aos objetos de memória duchampiana e aos seus 42 “diários não diários” (livros de apontamentos quotidianos e notas projetuais da sua obra) que, apesar de pouco conhecidos, constituem talvez a faceta mais interessante e original da sua obra. Cruzeiro Seixas está representado nas principais coleções nacionais. Foi galardoado com a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores em 2012 e com o prémio SocTip Artista do Ano 1989.

Em outubro, o artista foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural pelo seu “contributo incontestável para a cultura portuguesa”.

A morte de Cruzeiro Seixas, este domingo, no Hospital Santa Maria, em Lisboa, a menos de um mês de completar 100 anos, foi anunciada pela Fundação Cupertino de Miranda.

por Luísa Soares de Oliveira in Público | 9 de novembro de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público



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