"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

Recordar Luís Sepúlveda

Luís Sepúlveda (1948-2020) deixou-nos inesperadamente há um ano. Era um amigo de Portugal e a sua obra mantém-se atual, plena de humor e de sentido quase profético, como na “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (Porto Editora, 2008).


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins
De 22 a 28 de fevereiro de 2021 

 

UMA MEMÓRIA VIVA

Ainda a pandemia do Covid-19 dava os seus primeiros passos e, regresssado das “Correntes d’Escritas”, Luís Sepúlveda foi das primeiras vítimas desta terrível peste que assolou o mundo e da qual ainda não nos libertámos. Com uma obra plena de vitalidade, aprendemos com o escritor multifacetado a importância da memória – memória de acontecimentos, memória de pessoas, que  transmitia intensamente. Mas a sua personalidade irrequieta fazia questão de lembrar a tragédia ocorrida no Chile em setembro de 1973. Enquanto pensávamos que esse país parecia ser a exceção numa longa lista de pronunciamentos militares em que a América do Sul era pródiga – eis que o Chile se tornou, com a queda de Allende, mais uma triste confirmação de que a liberdade e a democracia nunca estão adquiridas. E Luís Sepúlveda era o exemplo de alguém que representava o entusiasmo dessa juventude chilena que acreditou na vitalidade inovadora de uma democracia social audaciosa. O certo é que nesse ano de 73 muitos sentimo-nos derrotados com a vitória de Pinochet. E nos olhos de Luís Sepúlveda percebíamos a expressão de uma esperança então derrotada, mas o ânimo de quem acreditava generosamente na força da liberdade, do pluralismo e da capacidade de fazer renascer a democracia no Chile, depois de lições dramáticas que foram sendo aprendidas.

UMA VIDA CHEIA

Nascido em 1948, teve uma vida cheia – como jornalista, militante político, romancista, realizador de cinema e argumentista. Logo em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, “Crónicas de Pedro Nadie”, e uma bolsa de estudo na Universidade Lomonosov de Moscovo, onde apenas ficaria cinco meses. Foi membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, mas partiu para o exílio com a chegada da ditadura militar. Viajou pelo Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. É essa experiência que inspirará o seu romance “Um Velho que Lia Romances de Amor” (1989) – um verdadeiro hino de amor à floresta amazónica, que se tornou uma das obras-primas da literatura latino-americana, em que o humor se liga ao tratamento muito sério de um tema candente. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, e depois da vitória da revolução, trabalhou como repórter. Em 1982 partiu para Hamburgo, atraído pela literatura alemã, militando no movimento ecologista, percorrendo os mares do mundo com a Greenpeace, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez, tendo fundado e dirigido o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos e europeus. Cultor da amizade, o escritor disse em “Jantar com Poetas Mortos”: “os amigos não morrem, simplesmente morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre ossos”. A força de memória está ainda na expressão de uma personagem desse livro – “enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem”. O método do escritor era o da deambulação e a partir dela contava histórias ouvidas a pessoas que foi conhecendo. O ofício de escritor era, assim, captar pequenos detalhes da existência, para que os afetos permanecessem. E considerava-se um cidadão-fronteira, entendendo essa linha não como um lugar de separação, mas como um modo de unir, um ponto de contacto, de diálogo e de novos conhecimentos. No fundo, entendia que assim poderia compreender melhor a natureza, na militância ativa dos últimos anos da sua vida na causa ecológica e na defesa da natureza. A “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (2008) é ilustração viva dessa militância ecológica. Zorbas é um gato grande, preto e gordo, a quem uma gaivota moribunda apanhada por uma maré negra de petróleo deixa dois compromissos: guardar o ovo que acabara de pôr e criar uma pequena gaivota, bem como ensiná-la a voar. Tudo com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabe-tudo, Barlavento e Colonello, numa tarefa dificílima para um bando de gatos habituados à vida dura do porto de Hamburgo… E aqui se sentem as forças da liberdade e da generosidade – num combate de todos em defesa da natureza para que outras gaivotas não fossem mais vítimas de desastres semelhantes.

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Amigo de Portugal, Luís Sepúlveda recebeu em 2016 o Prémio Eduardo Lourenço – pela intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica – e sentiu-se especialmente orgulhoso com essa distinção. Em “A Lâmpada de Aladino” (2008), um conjunto de contos marcados pela imaginação e pela procura de personagens inesquecíveis, deu-nos o retrato de Valdemar do Alentejo, um português impagável: “um personagem absolutamente real (diz o escritor). E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares, No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava navios da Liga Hanseática e distribuía o saque pelos pobres à laia de Robin Hood, nas costas africanas, sob forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo, e depois no Estreito de Magalhães, onde existiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha dos Países Baixos, o Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano. Apesar de distantes no espaço e no tempo todos tinham, a mesma bandeira vermelha e negra, como a dos anarquistas. Uma curiosa coincidência. Isto, e uma ideia elementar de justiça – devolver aos mais fracos o que lhe tinha sido tirado pelos mais fortes… Entusiasmado com essa ideia, Luís Sepúlveda preparava um novo romance baseado nas memórias e nos mitos cultivados em torno da sua recordação. Alguém que existiu realmente e que talvez tenha sido executado nas Ilhas Molucas, paraíso das especiarias. Luís Sepúlveda era uma presença assídua entre nós, tendo participado em quase todas as 21 edições do Festival Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim, a última das quais entre 18 e 23 de fevereiro de 2020. A sua lembrança está, pois, bem presente entre nós. Ao lermos os seus livros, plenos de humor e de uma séria ponderação das questões fundamentais que nos assaltam, é como se ele estivesse sempre a regressar, com a sua generosa força da liberdade…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença


Agenda
Ver mais eventos
Visitas
57,146,382
>