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UNESCO "gravemente preocupada" com o destino do património cultural ucraniano

A organização exorta as autoridades russas a cumprirem a Convenção de Haia de 1954, pela qual ficou definida a proteção de bens culturais em caso de conflito armado. A Ucrânia tem sete entradas na lista de Património Mundial da UNESCO.

A Catedral de Santa Sofia de Kiev está inscrita na lista de património mundial da UNESCO desde 1990


Neste preciso momento, a UNESCO trabalha com as autoridades ucranianas para marcar monumentos chave do país com o emblema da Convenção de Haia de 1954, que definiu o protocolo para a proteção de bens culturais em caso de conflito armado, na tentativa de os proteger dos bombardeamentos russos. Procura igualmente assegurar uma reunião com os diretores de museus do país para definir estratégias de proteção para as suas coleções. Enquanto prossegue a invasão russa, com cidades cercadas e bombardeamento indiscriminado, ao temor perante o avolumar das perdas humanas junta-se o receio pela destruição do património histórico e artístico de um país com sete entradas na lista de Património Mundial da UNESCO.

Dia 28 de Fevereiro, quatro dias após a invasão, registou-se a primeira grande perda, com a destruição, por incêndio provocado pelas forças russas, do museu de Ivankiv, localidade a noroeste de Kiev. A instituição acolhia 25 obras de Maria Prymachenko (1908-1997), artista autodidata, fortemente influenciada pelo folclore ucraniano, cuja obra saltou fronteiras – “curvo-me perante o milagre artístico desta brilhante ucraniana”, terá dito Picasso após ver as suas obras numa exposição em Paris. Segundo o The Times, um cidadão local terá salvado dez das obras de Prymachenko ao correr para o interior do edifício, enfrentando sozinho as chamas.

Um comunicado da UNESCO emitido esta quinta-feira, na sequência da resolução das Nações Unidas condenando a agressão à Ucrânia, exige, pela voz da sua diretora-geral, Audrey Azoulay, a “proteção do património cultural ucraniano, que presta testemunho da rica história do país, e que inclui sete locais Património Mundial – especialmente localizados em Lviv e Kiev; as cidades de Odessa e Kharkiv, membros da Rede UNESCO de Cidades Criativas; os seus arquivos nacionais, alguns dos quais figuram no Livro UNESCO da Memória do Mundo; e os locais que assinalam a tragédia do Holocausto”.

Tendo em conta a propaganda russa, que justificou a invasão da Ucrânia com o propósito de “desmilitarizar” e “desnazificar” a Ucrânia, é grotescamente irónico que, depois da destruição do museu de Ivankiv e enquanto o centro de Chernihiv, candidato a património mundial da UNESCO, continuava a ser bombardeado, tenha sido notícia a danificação, por um míssil russo que tinha como alvo uma torre de televisão próxima, do Memorial do Holocausto Babyn Yar (o ataque provocou cinco vítimas mortais). O memorial foi criado no local onde, em dois dias de Setembro de 1941, as tropas nazis assassinaram mais de 30 mil judeus ucranianos.

A aparente desconsideração das autoridades russas perante o património do país é uma das preocupações dos responsáveis culturais ucranianos. Oleksandra Kovalchuk, diretora do Museu de Belas Artes de Odessa, recorda esta sexta-feira à BBC que no país está ainda bem presente a destruição de obras de arte ucranianas por parte das administrações soviéticas. “Acredito que faça sentido para eles [invasores russos] destruir arte que mostre a nossa herança ucraniana, que mostre que temos uma história diferente, que somos diferentes, que não somos russos”. Kovalchuk viu-se obrigada a abandonar o país para salvaguardar a vida do filho de um ano. Tendo em conta o que conta à BBC, ela é, porém, uma exceção. “Em quase todos os museus, os trabalhadores estão a dormir [nas instituições], mantêm-se dias seguidos para estarem próximos das obras, de forma a poderem tomar decisões de última hora”.

No período imediatamente anterior ao conflito, enquanto crescia dia após dia o espectro da guerra, o ministério da cultura ucraniano definiu os procedimentos a tomar para proteção e, quando necessário, evacuação das coleções dos museus do país. Aparentemente, as evacuações não chegaram a realizar-se – as autoridades ucranianas temiam que tais movimentações pudessem causar o pânico entre a população. Algum do património pode ter sido evacuado desde o início do conflito, no entanto, mais uma vez, os agentes culturais mantêm-se em silêncio quanto ao tema, por temerem que a informação possa ser usada posteriormente pelos invasores ou por saqueadores.

Na passada sexta-feira, o Smithsonian dava conta de estar em contacto com responsáveis ucranianos no terreno para dar início a uma missão de salvaguarda e restauro de bens culturais, iniciativa que a instituição com sede em Washington, escreve a NPR, desenvolveu após ocupações militares ou desastres naturais em países como o Iraque, Haiti e Porto Rico.

Os sete monumentos e locais património mundial da UNESCO em território ucraniano são a Catedral de Santa Sofia, em Kiev, erguida no século XI; o centro histórico de Lviv; o Arco Geodésico de Struve, um conjunto de triangulações geodésicas que tem o seu limite a sul em território ucraniano junto ao Mar Negro; as florestas primárias de Faia dos Cárpatos, junto à fronteira com a Eslováquia; a Residência dos Metropolitas da Bucovina e da Dalmácia, projeto do arquiteto checo Josef Hlávka erguido em Chernivtsi na segunda metade do século XIX; a Cidade Antiga de Queroseno e sua Chora, colónia grega fundada há 2500 anos; e as Tserkas de madeira dos Cárpatos, igrejas católicas e ortodoxas erguidas em madeira na Ucrânia e na Polónia entre os séculos XVI e XIX.


por Mário Lopes in Público | 5 de março de 2022
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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