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Livro analisa "força transformadora" da dança de Marlene Monteiro Freitas

Um livro sobre a obra coreográfica de Marlene Monteiro Freitas, cujas criações têm vindo a marcar a cena internacional da dança pelo "impacto transformador", vai ser lançado em setembro em Lisboa e no Porto pela Dafne Editora.

© instagram @marlenemonteirofreitas
Intitulado "Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas", o livro da investigadora, curadora e professora Alexandra Balona mergulha no universo da premiada coreógrafa cabo-verdiana, e será lançado a 13 de setembro, na Culturgest, em Lisboa, e no dia 19 de setembro, no Rivoli.

O estudo concentra-se em cinco peças consideradas "fulgurantes" pela autora: "Guintche" (2010), "Paraíso – coleção privada" (2012), "Jaguar" (2015), "Bacantes – prelúdio para uma purga" (2017) e "Mal – embriaguez divina" (2020).

Alexandra Balona explora a forma como Monteiro Freitas tem construído coreografias que abrem “espaços de estranheza e contradição”, onde corpos e materiais em diáspora se transformam em busca de sentidos plurais, aponta a investigadora sobre a coreógrafa e bailarina galardoada em 2018 com o Leão de Prata pela Bienal de Veneza de Dança.

O livro propõe-se seguir as pistas da “abertura, impureza e intensidade” que atravessam a criação de Monteiro Freitas, para traduzir sensibilidades e violências que escapam ao discurso racional, oferecendo um olhar sobre a uma "obra fulgurante, cuja ousadia abala as estruturas dos teatros por onde passa", segundo a autora.

As criações de Marlene Monteiro Freitas, que unem muitas vezes o drama e a comédia, têm sido elogiadas pela crítica internacional pela expressividade, originalidade e criatividade.

Alexandra Balona refere que a obra - de 256 páginas - nasceu do "espanto do desejo, dos encontros eufóricos e da intensidade da obra" de Freitas, provocados pelo "desfasamento entre o ver, o sentir e o pensar", desde o dia 21 de setembro de 2012, data do primeiro encontro da investigadora com a obra "Paraíso-coleção privada", em estreia absoluta no Festival Circular, em Vila do Conde.

"Diante do palco, deparei-me com um universo coreográfico insólito e informe. Forças que me capturavam sem se deixarem inscrever num discurso fixo ou coerente. E, nesse instante, ocorreu-me que, depois de mais de uma década a questionar a ontologia da dança contemporânea, eis que os corpos que dançam furiosos e fulgurantes, regressam definitivamente ao palco num renovado e visceral diálogo com a música", recorda, no livro, a curadora de diversos projetos de pensamento, performance e artes visuais.

Balona assegura que o trabalho de Marlene Monteiro Freitas – cuja carreira começou como fundadora do grupo de dança Compass, em Cabo Verde - lhe "desassossegou o pensamento" com uma multitude de "sensações sem nome, pensamentos dispersos, ideias em suspensão que começaram a agregar-se, numa negociação contínua de opostos: o sagrado e o profano, o erotismo e a violência, o animal humano e o não-humano, o desejo e a submissão".

Além da análise crítica, a autora convoca o arquivo pessoal da coreógrafa e coloca-a em diálogo com obras da história da arte, construindo uma leitura que funciona como um “Atlas” para sustentar múltiplas referências e imaginários.

O livro lança um olhar atento sobre métodos, processos e mecanismos da artista que estruturam a criação coreográfica, oferecendo ao leitor pequenas “máquinas críticas para ler o ilegível”.

Em 2018, em entrevista à agência Lusa, Marlene Monteiro Freitas contava ter crescido a ver um 'poster' de uma bailarina que a irmã, dez anos mais velha, tinha colocado no quarto, porque ambas gostavam de dançar.

Marlene praticou ginástica rítmica entre os 6 e os 13 anos, mas deixou este desporto porque não gostava do lado competitivo, e juntou-se a um grupo de amigos com quem começou a dançar e a criar coreografias, dando origem à Compass.

Ao longo dos anos, foi conhecendo várias figuras da dança, bailarinos e coreógrafos, alguns deles portugueses, como Clara Andermatt, que lhe começaram a “fazer acreditar” que seria possível viver da dança, e que a influenciaram profundamente nos seus trabalhos, repletos de referências à música, cinema, pintura e literatura.

"A obra da coreógrafa e bailarina cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas é de uma politicalidade sismográfica: abala os teatros por onde passa, deixando um rasto em que o fascínio e a estranheza, o choque e a perplexidade, se tornam matéria sensível de negociação", afirma no livro Alexandra Balona, considerando a artista "magnética e vertiginosa", devido a criações que estão "longe de se submeter à lógica de uma narrativa linear ou à exigência de um sentido fechado", mas sim a "universos que deslocam os territórios do reconhecimento".

É nesse terceiro espaço, entre o palco e a plateia, "onde as forças da performance colidem, ressoam ou se entrelaçam com as forças de cada pessoa presente que, para Marlene Monteiro Freitas, a dança acontece", num "acontecimento irrepetível, enraizado nas intensidades do aqui e agora", considera a doutorada em Estudos de Cultura, também arquiteta e docente na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa.

Publicado pela Dafne Editora, o livro terá uma versão em inglês lançada em simultâneo pela Lenz Press, ampliando a circulação internacional de um estudo que se apresenta como referência para compreender a "força transformadora" da obra de Marlene Monteiro Freitas.

Em ambas as datas, os lançamentos vão acontecer após a estreia naquelas cidades da nova criação da coreógrafa cabo-verdiana, "Nôt", sendo que o lançamento em Lisboa contará com a presença da autora, de Marlene Monteiro Freitas e da professora Gabriele Brandstetter, prefaciadora do livro, especialista em estudos de teatro e dança da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha.


Fonte: LUSA | 25 de agosto de 2025
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