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Guitarrista António Chainho morre aos 88 anos
António Chainho nasceu em S. Francisco da Serra, no distrito de Beja, a 27 de janeiro de 1938, e começou a tocar no meio fadista na década de 1960. Morreu esta terça-feira, no dia em que completaria 88 anos.
O músico e compositor António Chainho morreu esta terça-feira, na sua residência em Alfragide, nos arredores de Lisboa, no dia em que completaria 88 anos.
António Chainho, frequentemente descrito pela crítica internacional como o “mestre da guitarra portuguesa”, encerrou uma carreira com mais de seis décadas em setembro de 2024. Nesse mesmo ano lançou aquele que viria a ser o seu último álbum, O Abraço da Guitarra, um trabalho de homenagem aos músicos que o influenciaram através da rádio e que marcaram o seu percurso artístico.
Natural de São Francisco da Serra, no distrito de Setúbal, onde nasceu a 27 de janeiro de 1938, António Chainho iniciou o seu contacto com o fado no início da década de 1960. Antes de se afirmar nos palcos lisboetas, tocou no café do pai e deu os primeiros passos no meio fadista numa taberna da praça do Chile, em Lisboa, quando se apresentou ao serviço militar obrigatório, em 1961.
Foi precisamente durante o período militar que os seus talentos começaram a ganhar projeção, nomeadamente numa digressão por Moçambique. Anos mais tarde, recordaria à agência Lusa um episódio marcante desse tempo, quando interpretou o Fado Lopes, de Mário José Lopes, e foi carregado em ombros pelo público, tal foi o impacto da atuação.
O início oficial da carreira artística viria a acontecer no final de 1965, quando se mudou para Lisboa para tocar no restaurante típico A Severa, no Bairro Alto. “Assinalo essa data como o começo da minha vida profissional na música”, afirmou em entrevistas, sublinhando a importância desse momento.
Ao despedir-se dos palcos e dos estúdios de gravação, no final de 2024, António Chainho dizia-se “em paz” e satisfeito com um percurso que o levou a tocar em todos os continentes. “Dei a volta ao mundo e sinto-me feliz”, afirmou, sublinhando ainda o significado de ter gravado um novo disco aos 85 anos, algo raro no universo da guitarra portuguesa.
O Abraço da Guitarra presta tributo a figuras centrais da guitarra portuguesa, como José Nunes, Francisco Carvalhinho, Armandinho e Jaime Santos, assim como aos violistas com quem partilhou o palco ao longo da carreira. A revista britânica Songlines chegou mesmo a definir Chainho como um “embaixador da guitarra portuguesa”.
Com uma discografia iniciada em 1975 com Guitarradas, António Chainho destacou, em várias ocasiões, álbuns como Guitarra e Outras Mulheres (1998), gravado com intérpretes como Teresa Salgueiro e Adriana Calcanhotto, e o trabalho realizado em 1996 com a Orquestra Filarmónica de Londres, sob a direção de José Calvário, que considera ter-lhe “aberto caminhos por todo o mundo”.
O músico dividia a sua carreira em três grandes fases: o acompanhamento de fadistas, a longa colaboração com Carlos do Carmo e Frei Hermano da Câmara e, por fim, a afirmação como solista. Ao longo do percurso, trabalhou com artistas de universos muito diversos, de José Afonso a Paco de Lucía, de Maria Bethânia a Rui Veloso, passando por Sara Tavares, Pedro Abrunhosa ou John Williams.
Reconhecido como um dos grandes virtuosos da guitarra portuguesa, António Chainho procurou sempre cruzar tradições e influências, refletindo nas suas composições as “mestiçagens” resultantes do contacto com músicas do mundo. “A minha música respira as viagens que fiz e os músicos com quem trabalhei”, disse.
Em Santiago do Cacém concretizou um dos seus sonhos, com a criação de uma escola de guitarra portuguesa. Em 2023 foi publicada a sua biografia, O Abraço da Guitarra, da jornalista Moema Silva. Um ano antes, em 2022, foi condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo contributo excecional para a divulgação da cultura portuguesa em Portugal e no estrangeiro.
por Olímpia Mairos com Lusa in Renascença | 27 de janeiro de 2026
Notícia no âmbito da parceira Centro Nacional de Cultura | Rádio Renascença

