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Quando o silêncio também é narrativa — "O Gosto do Cloro"
"O Gosto do Cloro" é uma novela gráfica delicada e profundamente sensorial, que confirma Bastien Vivès como uma das vozes mais singulares da banda desenhada contemporânea francesa.
Integrada na prestigiada Coleção Angoulême da DEVIR, esta obra constrói um retrato íntimo e silencioso da solidão urbana e da possibilidade — sempre frágil — de ligação entre duas pessoas.
A HISTÓRIA
A narrativa acompanha a rotina de um jovem solitário que frequenta regularmente uma piscina pública.
É nesse espaço, marcado pelo som da água e pelos corpos em movimento, que conhece uma mulher com quem desenvolve uma relação subtil e quase muda. A história desenrola-se sem pressa, sustentada por gestos, olhares e pausas, onde a tensão emocional e a leveza do contacto humano coexistem. O Gosto do Cloro é uma reflexão sensível sobre o desejo, a intimidade e a dificuldade de comunicação, num quotidiano feito de silêncios partilhados.
Entre braçadas, pausas à beira da piscina e momentos de observação silenciosa, nasce uma relação marcada pela subtileza. Não há grandes diálogos nem acontecimentos explícitos; a aproximação constrói-se através de olhares prolongados, movimentos contidos e pequenos gestos carregados de significado. A tensão emocional cresce de forma quase impercetível, revelando a dificuldade de estabelecer contacto e a vulnerabilidade inerente a qualquer tentativa de aproximação.
O Gosto do Cloro retrata com rara sensibilidade a solidão contemporânea e o desejo de ligação num mundo onde a comunicação é frequentemente fragmentada. A piscina — espaço público e, paradoxalmente, profundamente íntimo — torna-se metáfora de um estado emocional: um lugar onde os corpos se aproximam, mas onde a verdadeira conexão permanece incerta, frágil e suspensa.
A ARTE
A arte de Bastien Vivès destaca-se pela aparente simplicidade e pela extraordinária capacidade de sugerir emoções com o mínimo de elementos. O uso da cor é contido e estratégico, dominado por tons aquáticos que envolvem o leitor numa atmosfera imersiva e quase táctil. O traço solto e expressivo privilegia o movimento dos corpos e a linguagem não verbal, reforçando a dimensão sensorial da narrativa. Cada página é construída para ser sentida tanto quanto lida, num equilíbrio subtil entre ritmo, espaço e silêncio.
O AUTOR
Bastien Vivès é um dos autores mais reconhecidos da nova geração da banda desenhada francesa. Com uma obra marcada pelo intimismo, pela exploração das relações humanas e por uma abordagem gráfica muito própria, Vivès tem vindo a afirmar-se internacionalmente como um autor capaz de cruzar simplicidade formal com grande profundidade emocional.

