"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

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"A Cortina"

Neste ensaio divertido e sempre estimulante – que prossegue, e de certo modo desenvolve, as reflexões apresentadas nos seus livros A Arte do Romance e Os Testamentos Traídos –, Milan Kundera oferece-nos uma viagem aos locais mais emblemáticos do romance moderno.

O mundo é-nos sempre ocultado por uma «cortina» de interpretações preconcebidas, de imagens falaciosas, de representações enganadoras. A função do romance é precisamente rasgar essa «cortina» para revelar algum aspeto até então desconhecido da nossa existência… os fragmentos de verdade a que só os autênticos romancistas podem fazer-nos aceder.

Em A Cortina, Kundera descreve habilmente como os melhores romances fazem isso mesmo.

«Imaginemos um compositor contemporâneo que tenha escrito uma sonata, a qual, pela forma, pelas harmonias e pelas melodias, se parecesse com as de Beethoven. Imaginemos até que essa sonata tivesse sido tão magistralmente composta que, se fosse mesmo de Beethoven, figuraria entre as suas obras-primas. No entanto, por muito magnífica que ela fosse, sendo de autoria de um compositor contemporâneo, prestar-se-ia a troça. Ou melhor, aplaudir-se-ia o seu autor como um virtuoso da imitação.

Como? Então experimentamos um prazer estético diante de uma sonata de Beethoven e não sentimos o mesmo prazer perante uma outra do mesmo estilo e de igual beleza, se for assinada por um dos nossos contemporâneos? Não é o cúmulo da hipocrisia? A sensação de beleza, em vez de ser espontânea e ditada pela sensibilidade, passa então a ser cerebral e a estar condicionada ao conhecimento de uma data?

Não há nada a fazer: a consciência histórica é de tal forma inerente à nossa perceção da arte que esse anacronismo (uma obra de Beethoven datada dos nossos dias) seria espontaneamente (e entenda-se, sem qualquer hipocrisia) considerada como ridícula, falsa, incongruente e, até talvez mesmo, uma monstruosidade. A nossa consciência da continuidade é de tal maneira forte que intervém na perceção de cada obra de arte.»

Milan Kundera nasceu na Checoslováquia, atual Chéquia.
Viveu em França desde 1975 até à sua morte, em julho de 2023.
É justamente considerado um dos grandes escritores do século XX. 

Literatura Traduzida
176 páginas
16,60 Euros
ISBN: 978-972-20-8594-6
1.ª Edição: Janeiro 2026
Leya | Dom Quixote

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