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Kukas (1928-2026), a pioneira da joalharia artística em Portugal

Tinha 97 anos e seis décadas de carreira, no cruzamento entre a arte, o design e as jóias. “Revolucionou a joalharia, mas não só”, diz a artista e
investigadora Cristina Filipe.

Kukas, ou Maria da Conceição de Moura Borges, no Mude em 2012  © Pedro Cunha
Maria da Conceição de Moura Borges, conhecida pelo nome Kukas, morreu na passada quarta-feira aos 97 anos de idade em Lisboa, confirmou ao fonte próxima da família. Fez peças para Amália Rodrigues (/Amalia-Rodrigues), Eunice Muñoz (/Eunice-Munoz) ou Maria Helena Vieira da Silva, mas fez acima de tudo uma escolha: abordar a joalharia como arte, com um olhar próprio do design, preferindo um seixo a um metal precioso se assim a criatividade lho pedisse.

Em Portugal, Kukas foi “a primeira artista a expressar-se plasticamente através de jóias”, segundo a investigadora, curadora e artista Cristina Filipe.  Pioneira e precursora são duas palavras que a acompanham por isso mesmo. Este domingo, Cristina Filipe acrescenta mais algumas ao Público: "Visionária. Sempre à frente do seu tempo. Revolucionou a joalharia, mas não só. A sua presença no mundo, o seu savoir-faire, o discernimento e a lucidez eram desconcertantes. Inigualável, insubstituível, única".

“Senti-me sempre habitada por formas. Estou sempre a ver formas”, disse Kukas ao Público em 2012 quando o Museu do Design e da Moda lhe dedicou uma exposição, Uma Nuvem Que Desaba em Chuva, que seria uma das três mais visitadas dos primeiros cinco anos do museu lisboeta. Era uma expressão que repetia, talvez por ser a que melhor descrevia a sua abordagem criativa. Comissariada por Cristina Filipe, que fez uma profunda investigação histórica como comissária da exposição no Mude, a exposição encheu os cofres deste museu de obras distintivas, desafiantes na escala, variadas. Obras que, segundo frisou Cristina Filipe, Kukas continuava a criar.

"O conjunto de trabalhos mais recentes que vi foi em Outubro passado", conta Cristina Filipe. "Encontrei nesse conjunto uma jóia em prata, o seu material de eleição, que formalmente representa a palavra 'amanhã' e pode ser usada no corpo." Mal a viu, sabia que tinha de a ter "por tudo o que representa, tanto no conteúdo como na forma" — "é sobredimensionada, quase como um manifesto, para que todos a vejam e não se esqueçam de que o mais importante é, de facto, o futuro. Responsabiliza-nos pela importância do que fazemos hoje".

Táctil, arrojada na estética, Kukas trabalhou então até aos seus últimos dias, com a produção das suas peças e a sua marca entregue a Filipa Fortunato. Esta partilhou a mensagem que a desginer disse expressamente querer ver numa eventual pedra tumular: “Aqui jaz, contrariadíssima, quem nunca se aborreceu”.

Tudo porque vivia “sempre em processos criativos a observar formas e transformando-as em jóias ou objectos”, diz Filipa Fortunato, que se despede de uma “mulher gloriosa” que conhecia desde menina. É agora “fiel depositária da sua obra” através da Casa Fortunato. É nela que reside o futuro do legado de Kukas. Quanto a Cristina Filipe e à jóia que reservara para adquirir, a artista decidiu dar-lhe o porvir. "A Kukas era também muito generosa — e acabou por me oferecer o 'Amanhã'.”

A intencionalidade da matéria
Foi na década de 1960 que as peças desenhadas por Kukas começaram a surgir no circuito das galerias de arte lisboetas — a primeira foi em 1963, na galeria Diário de Notícias, no Chiado. Nascida a 5 de Maio de 1928, ficou órfã ainda criança e foi educada pelas tias na Beira Baixa, misturando vivências culturais que a contaminaram com uma vida rural plena de liberdade até ir para Lisboa fazer o liceu. Teve aulas de Desenho, Gravura, Escultura, Cerâmica. Estudou Decoração de Interiores na École Supérieure des Arts Modernes em Paris no final dos anos 1950 e ali colheu influências importantes, nomeadamente as nórdicas, na depuração das formas, na intencionalidade na escolha de materiais. Cruzou-se com toda uma comunidade artística: Lourdes Castro, René Bertholo, João Vieira, José Escada, entre outros.

Estagiou no Museu do Louvre, conheceu e foi amiga de Marc Chagall, tudo enquanto procurava a sua expressão artística de eleição. Escultura? Desenho? Design não era uma palavra comum e, afinal, Kukas também fazia cerâmica, que vendeu mesmo na loja da pintora Menez. Em 1962 nasce a sua primeira jóia, um anel para uma das tias. Um ano depois, expunha no Chiado, encorajada por Nikias Skapinakis ou Almada Negreiros e apreciada por Amália Rodrigues.

Também já tinha encontrado o mestre ourives António Jordão, o primeiro a pôr em prática algumas das ideias da autora que, a par de Alberto Gordillo, trilhava um caminho novo na joalharia de autor no país. Trabalharia depois com outros ourives, como Manuel Pinto de Lima.

A sua obra seguia um método, como partilhou com o Financial Times em 2023, que tinha como ponto de partida começar a cortar e colar cartão, papel, tudo o que pudesse depois evoluir para uma forma tridimensional. Era esse o modelo, a maquete, a partir da qual depois se faria uma peça. Nas primeiras décadas da sua carreira trabalhava sobretudo com edições únicas ou limitadas, tendo mais tarde passado à reedição e à produção em série, mas em pequena escala.

Foi em 2023 que o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC-MC) abriu pela primeira vez espaço para expor joalharia. Kukas. Homenagem à Geometria foi mais um convite ao grande público a conhecer a obra da artista portuguesa. “Kukas não é apenas uma cultora da joalharia: foi, antes, a primeira autora a renovar a linguagem formal desta arte, em Portugal”, como escreveu na altura a diretora do museu, Emília Ferreira. Kukas “remodela as tradições da joalharia trazendo-as para a contemporaneidade”. O seu trabalho já fora mostrado na Bienal de Arte de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1977, na Europália (1991) ou na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1982; em 2019, participou numa exposição coletiva de joalharia contemporânea em Portugal na Fundação Calouste Gulbenkian. Teve três lojas e seis décadas de trabalho.

“Há pessoas que me diziam que as minhas peças eram elementos desinibidores em ambientes em que estavam menos à vontade ou algo hostis, porque se desencadeava sempre uma conversa sobre elas”, contou ao Público em 2012. “Queria que as peças tivessem um cunho de individualidade e que pudessem ser reconhecidas. Conseguir transferir um cunho da nossa criatividade é importante como forma de identificação no meio da... globalização”, comentava, criticando essa homogeneização que via no mundo.

Apreciava o cariz irrepetível de um cristal, de um pedaço de quartzo, de um fóssil até, que depois podia ser uma pregadeira, ou de metais claros como a platina que podiam ser um anel. Conchas, pérolas, mas sobretudo formas, arrojo. A geometria desempenhava um papel fundamental na sua conceção de jóia como objecto artístico, mais do que o valor de uma pedra ou metal que nela usasse.

“Não desprezo o valor material, gosto imenso de platina, por exemplo, de ouro branco, mas nunca fiz concessões e optei pelo valor artístico. Sou a antigestora de mim própria”, dizia a sorrir na entrevista dada ao Público na sala dos cofres do Mude em 2012.


por Joana Amaral Cardoso in Público | 15 de fevereiro de 2026
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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