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"À Espera Que Venha o Diabo": o diário maldito de Mary MacLane chega finalmente a Portugal

O livro-escândalo da jovem de 19 anos que inaugurou o feminismo e que, mais de um século depois, continua a ser um texto fundamental que tem de ser descoberto.

«Não sei o que fazer.
Não sei que seria bom fazer.
Não faria nada, se soubesse.
Talvez acrescente isto à minha ladainha:
'Oh, bom Diabo, livrai?me de mim mesma.'»

«Mary MacLane… o que és tu, criaturinha desesperada e desolada? Porque não fazes parte do rebanho galopante? Porque ficas à margem, recortada sob o pano de fundo de um céu nublado? Porque não te consegues integrar nas vidas e cair nas boas graças das outras jovens criaturas como tu? Houve alturas em que te empenhaste, com todos os nervos desesperados do teu ser, para o conseguires… antes de perceberes que essas coisas não eram para ti, que as únicas boas graças que interessavam eram as da Mary MacLane e as únicas coisas que te interessavam eram as que conseguias tirar, não as que te eram dadas. Tens poucas, muito poucas coisas, seu bagre faminto e magro, seu geniozinho cansado, sombrio e enfadado da juventude!
Oh, como é extenuante esperar… pelo Diabo.»


À Espera que Venha o Diabo,
de Mary MacLane, foi um escândalo e um sucesso de vendas internacional em 1902.

Este livro é o diário de Mary MacLane, uma jovem de 19 anos que vive em Butte, Montana, que se auto-intitula «ladra», «vagabunda», «mentirosa» e «filósofa da minha própria escola peripatética».

Com uma escrita provocadora e confessional, a protagonista anseia por experiências mundanas e transborda de desejo bissexual e de revolta contra as injustiças da juventude e de ser mulher, ao mesmo tempo que expressa um orgulho desmesurado pelo seu belo corpo jovem feminino e pela sua mente, rejeitando abertamente a ideia de que era como todas as outras pessoas, da sua época ou de qualquer outra.

Num estilo naturalmente coloquial, a diarista adolescente ousada e angustiada de 1902 soa, mais de um século depois, moderna, e À Espera que Venha o Diabo continua a ser um texto fundamental que tem de ser descoberto.

Mary MacLane nasceu em 1 ou 2 de maio de 1881, em Winnipeg, no Canadá, foi uma pioneira escritora feminista cujo relato autobiográfico franco, escrito aos 19 anos e publicado em 1902, se tornou num bestseller instantâneo.

Filha de pais presbiterianos escoceses e canadianos, era uma de quatro irmãos. O seu pai, James, trabalhava como agente do governo canadiano, investindo em rebanhos de gado e barcos a remos.

Quando Mary tinha 4 anos, a família mudou-se para Fergus Falls, no Minnesota. Pouco depois da morte do pai, em 1889, a família foi para o Montana e, por fim, para Butte, então uma próspera cidade mineradora de cobre, onde a mãe se casou com um «fotógrafo errante».

Conhecida como a «mulher selvagem de Butte», MacLane adoptou um estilo confessional modernista para expressar os seus desejos eróticos e as suas francas e ousadas reflexões acerca da amizade e dela mesma. Após duas décadas de estrelato, em que participou no desfile do 4 de Julho, teve MacLane Clubs e era exemplo para as jovens rebeldes, foi praticamente esquecida.

Enfant terrible da literatura americana, em 6 de agosto de 1929, Mary MacLane foi encontrada morta num albergue em Chicago.

Escritores como Ernest Hemingway, Stephen Crane, Gertrude Stein e F. Scott Fitzgerald afirmaram que MacLane foi uma influência importante na sua busca por um novo estilo americano.
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