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Casa das Histórias expõe obra de Bartolomeu Cid sobre poder e liberdade

Uma exposição dedicada ao artista português Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008), cuja obra cruzou arte, política e resistência ao longo de várias décadas, é inaugurada a 14 de maio, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.

Casa das Histórias © António Pedro Santos/Lusa

Intitulada “Bartolomeu Cid dos Santos: Criar em Liberdade”, a mostra, patente até 18 de outubro, está integrada no ciclo de exposições temporárias da Casa das Histórias, dedicadas a artistas cujos percursos se relacionam com o de Paula Rego.

Com curadoria de Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira, a exposição propõe uma leitura transversal da obra de Bartolomeu Cid dos Santos, sublinhando o modo como o artista utilizou a gravura como instrumento de intervenção política, denúncia da repressão e reflexão sobre o poder.

Bartolomeu Cid dos Santos e Paula Rego partilharam uma longa relação de amizade e admiração mútua, consolidada em Londres, quando ambos frequentavam a Slade School of Fine Art, nos anos de 1950, recordam as curadoras num texto sobre a exposição.

Enquanto Paula Rego (1935-2022) concluía os estudos de pintura, Bartolomeu Cid dos Santos iniciava a formação em gravura, vindo mais tarde, já como professor da escola londrina, a desempenhar um papel determinante no ensino das técnicas de gravura à pintora portuguesa.

Segundo a organização, as afinidades entre os dois artistas revelam-se em referências comuns, como a literatura de Jorge Luis Borges e as gravuras de Francisco de Goya, bem como na utilização da arte como forma de denúncia do autoritarismo e da repressão política.

A exposição é também a primeira organizada após a aquisição, pela Fundação D. Luís I, de uma parte significativa da obra gravada do artista, permitindo apresentar um conjunto alargado de trabalhos produzidos ao longo de várias décadas.

O percurso expositivo divide-se em quatro núcleos.

O primeiro reúne águas-fortes e águas-tintas criadas na Slade School of Fine Art, onde paisagens urbanas de Londres surgem associadas a uma dimensão simultaneamente onírica e política, dialogando com o contexto do Estado Novo em Portugal.

O segundo núcleo centra-se em obras realizadas durante o início dos conflitos armados nos antigos territórios coloniais portugueses em África, a partir de 1961, associando imagens de guerra à repressão totalitária e ao colonialismo.

Deste período, as curadoras destacam a série “Bispos”, em que Bartolomeu Cid dos Santos subverte figuras de autoridade religiosa para questionar a relação entre Igreja e ditadura.

O terceiro conjunto apresenta trabalhos do início dos anos 2000, nomeadamente a série “Ratos”, em que o artista recorre à figura do Rato Mickey – criado por Walt Disney e Ub Iwerks - para refletir sobre autoritarismo e imperialismo neoliberal, explorando simultaneamente novas possibilidades formais através da colagem.

O percurso termina com obras inspiradas pela literatura, convocando referências aos escritores Franz Kafka e Jorge Luis Borges como metáforas da condição humana e das relações entre indivíduo e poder.

Segundo as curadoras, para Bartolomeu Cid dos Santos “a criatividade artística não era apenas um meio de expressão individual e um ato de liberdade”, funcionando também como forma de estabelecer ligações entre património cultural, história e contemporaneidade.

Tal como na obra da pintora Paula Rego, acrescentam, o principal alvo do seu trabalho era o poder e os mecanismos da sua representação.

A partir de Londres, onde viveu grande parte da vida, “o artista acompanhou atentamente os acontecimentos políticos em Portugal, acreditando no potencial da gravura para denunciar a violência da ditadura, a repressão e a situação dos presos políticos portugueses junto da opinião pública internacional”.

Após o 25 de Abril, Bartolomeu Cid dos Santos continuou a utilizar a arte para refletir criticamente sobre os riscos e fragilidades da então jovem democracia portuguesa.

Inserida nas comemorações de Cascais Capital Europeia da Democracia 2026, a exposição é organizada pela Fundação D. Luís I com apoio da Câmara Municipal de Cascais.


Fonte: LUSA | 7 de maio de 2026

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