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Obra de Luiz Pacheco regressa às livrarias com inéditos e textos há muito esgotados

A obra de Luiz Pacheco está de volta às livrarias portuguesas, com a publicação simultânea de um volume de textos há muito esgotados e outro de inéditos, que revelam de forma abrangente a “constelação criativa” do “escritor maldito”.

Publicados pela Tinta-da-China, os dois volumes são edições dos académicos e investigadores Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, e refletem dois trabalhos distintos: um de arquivo, recuperação e edição de materiais inéditos e dispersos; o outro de proposta de leitura global da obra de Luiz Pacheco.

“Textos Avulsos, Inéditos e Dispersos” apresenta alguns exemplos da pulsão criativa de Luiz Pacheco através de uma “rigorosa recolha de textos conservados em espólios e no acervo da família, passando por esboços, correspondência, cadernos, crónicas e produção diarística, reflexos de uma aventura literária persistente”, que permitem mostrar a extensão de um “icebergue criativo” ainda pouco explorado, explica a editora, numa nota de publicação Já a obra “Ser Livre em Português”, propõe uma abordagem aos vários ângulos da constelação criativa de Luiz Pacheco, oferecendo ao leitor um acesso renovado a textos icónicos - como “Comunidade”, “Crítica de Circunstância” e “O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor” - e a outros que, menos lembrados, ajudam a dimensionar um projeto literário coerente, produzido maioritariamente no contexto adverso do Estado Novo, acrescenta.

Ou seja, no primeiro caso, o objetivo foi o resgate, a reunião e ampliação do ‘corpus’ conhecido de Luiz Pacheco, enquanto no segundo, o propósito foi mais interpretativo e estruturador.

A introdução de “Textos Avulsos”, assinada por Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, destaca Luiz Pacheco como uma figura singular da literatura portuguesa, cuja obra nasce do cruzamento entre a tradição dos “prosadores oitocentistas” e o contacto direto com o modernismo e o surrealismo.

Essa combinação, aliada à influência de uma linhagem que vai “da emergência da figura do libertino” até “à mitologia do escritor maldito”, contribui para um universo autoral próprio e facilmente reconhecível. 

Segundo os investigadores, apesar da diversidade de géneros e suportes, a escrita de Luiz Pacheco mantém um “núcleo operativo constante, a figura do autor”, sustentado por uma postura crítica, polémica e criativa.

O seu percurso revela um “canibalismo criativo”, que o levou a transformar influências de terceiros num vocabulário próprio, bem patente, por exemplo, no desenvolvimento do Neo-Abjecionismo, corrente literária caracterizada por uma rejeição radical das convenções morais, sociais e literárias.

Os materiais inéditos e dispersos que se reúnem neste volume ilustram as várias dimensões do projeto de Luiz Pacheco, da “crítica de identificação” à intervenção cívica e ao memorialismo. 

Dividida em duas secções, a obra procura dar conta desses dois eixos - o inédito e o disperso -, funcionando como um contributo para aprofundar o conhecimento desse “icebergue criativo” ainda longe de estar totalmente explorado.

Ao mesmo tempo, evidencia traços distintivos da escrita de Luiz Pacheco, como a “acumulação de termos sem vírgulas”, marca estilística que reforça a singularidade da sua voz, acrescentam os investigadores. 

Este trabalho em torno do espólio inédito de Luiz Pacheco, nomeadamente os seus diários, ainda por transcrever e publicar, já tinha sido apontado como um dos “aspetos importantes” na comemoração do centenário do escritor, que se assinalou em maio de 2025, como disse na altura à Lusa Rui Sousa, seu principal promotor. 

Ainda antes disso, em 2023, já o investigador António Cândido Franco, que na altura acabara de publicar uma biografia de Luiz Pacheco, alertara para “todo um continente” ainda por descobrir, maioritariamente diários, por estudar, transcrever e publicar, afirmando que Luiz Pacheco escreveu muito e publicou pouco.

No que respeita ao livro “Ser livre em português”, Rui Sousa e Sofia A. Carvalho destacam, na nota introdutória, o desafio de reunir a obra de Luiz Pacheco, exigindo um “equilíbrio delicado” entre os textos mais reconhecidos e a abertura a novas leituras que revelem a complexidade do autor num contexto “político e cultural pleno de tensões e de metamorfoses”. 

Esta antologia procura restituir a singularidade do escritor através de um conjunto representativo da sua produção, evidenciando um projeto literário “muito pessoal”, que cruza géneros e mantém uma estreita ligação entre escrita, vida e intervenção crítica. 

A sua obra é apresentada pelos autores como um “arquivo móvel e revisitável”, estruturado por processos de montagem e reconfiguração constantes. 

Organizado segundo dois princípios - o percurso cronológico e a distinção entre textos críticos e literários -, este volume apresenta uma escrita que desafia fronteiras e modelos tradicionais, apresentando-se como um “mosaico complexo e multifacetado”, marcado por textos híbridos, “mestiços”, onde se cruzam ficção, autobiografia, ensaio e intervenção, frequentemente em formas fragmentárias.

A seleção divide-se em duas vertentes principais: a produção ficcional, marcada pelo Neo-Abjecionismo, e a dimensão crítica e polémica, em que se afirmam conceitos centrais, como a “crítica de identificação” e a figura do libertino ou do “escritor maldito”.

Ao incluir textos de antes e depois do 25 de Abril, esta antologia revela também a forte ligação entre a obra de Luiz Pacheco e as circunstâncias históricas vividas, muitas vezes ainda “plenas de atualidade”, sublinham os investigadores.

Para Rui Sousa, Luiz Pacheco é uma “figura capital da literatura portuguesa do século XX”, "tanto como autor, editor e crítico literário", tendo sido responsável pela publicação de alguns dos nomes mais importantes da literatura portuguesa, incluindo Mário Cesariny, Herberto Helder, António Maria Lisboa, Natália Correia, Vergílio Ferreira e Hélia Correia. 

Como escritor, a sua obra é marcada pela originalidade e pelo desafio às convenções literárias, de que é exemplo “Exercícios de Estilo”, um dos marcos da prosa em língua portuguesa, conjunto de textos de natureza autobiográfica que exemplificam a pluralidade de facetas do autor. 

O "Diário Remendado”, que também é recuperado nesta antologia “Ser Livre em Português”, representa um “objeto sem equivalente em toda a literatura portuguesa”, explorando “uma prática existencial de uma coerência invulgar” e com uma “vitalidade provocatória”, que ainda hoje desafia a literatura contemporânea, explicou na altura Rui Sousa. 

Luiz Pacheco também foi tradutor de escritores como Anton Tchekhov, Jean Schuster e Gérard Legrand, Françoise Mallet-Joris, Remi Dubois, Voltaire ("Dicionário Filosófico", não creditado). 

Nascido em Lisboa, no dia 7 de maio de 1925, Luiz Pacheco tornou-se um dos mais plurais representantes da literatura portuguesa do século XX.

Iniciou a sua atividade na segunda metade da década de 1940 e notabilizou-se pela inscrição no contexto do movimento surrealista português e pela editora Contraponto. 

A partir do início da década de 1960, acompanhando um ritmo vital marcado pelo profundo nomadismo e controvérsia, Luiz Pacheco desenvolveu um projeto literário muito pessoal, cruzando géneros literários diversos, convocando criativamente aspetos provenientes de várias tradições e movimentos e fazendo da sua aventura biográfica a matéria-prima fundamental, destaca a editora. 

A sua obra passou por uma ampla reflexão sobre a categoria do libertino, pela reiterada contestação livre do regime salazarista e do meio literário edificado depois da Revolução e pela teoria e prática do Neo-Abjecionismo. 

A sua estética afirma-se numa escrita que recusa limites e confronta o leitor com o que há de mais extremo, na escrita e na vida, como o próprio sintetiza em “Comunidade”: “Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo”. 

Do conjunto das suas obras, destacam-se “Crítica de Circunstância” (1966), “Exercícios de Estilo” (1971), “Pacheco versus Cesariny” (1974), “Textos Malditos” (1977), “Textos de Guerrilha” (1979, 1981), “Memorando Mirabolando” (1995) e “Diário Remendado” (1971-1975). 

Sobre Luiz Pacheco, entre outras obras, foram publicadas “Puta que os pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco”, de João Pedro George (Tinta-da-China, 2011), e “O firmamento é negro e não azul: A vida de Luiz Pacheco”, de António Cândido Franco (Quetzal, 2022), que valeu ao autor o Grande Prémio de Literatura Biográfica, da Associação Portuguesa de Escritores.

Luiz Pacheco morreu no Montijo, aos 82 anos, em 5 de janeiro de 2008.


Fonte: LUSA  | 26 de junho de 2026

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