"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Notícias

Nova edição de "Os Maias" usa QR Codes para guiar leitores pelo universo de Eça de Queirós

Uma nova edição de "Os Maias", enriquecida com códigos QR, a ser publicada na quinta-feira, levará os leitores à Lisboa oitocentista de Eça de Queirós, permitindo visitar o Ramalhete, ouvir a música das personagens e compreender referências históricas.

© Fernando Veludo/Lusa

Com esta iniciativa, a editora Quetzal procura aproximar os leitores contemporâneos de um romance considerado central no cânone literário português e de leitura obrigatória nas escolas, mas cuja compreensão – sobretudo entre os jovens - pode ser dificultada pela abundância de referências que estão presas ao passado.

A nova edição do romance de Eça de Queirós já foi apresentada em Lisboa, pelo diretor editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, que definiu este projeto como uma forma de devolver aos leitores do século XXI o contexto histórico, político, cultural e social que os leitores de 1888 possuíam naturalmente.

“Hoje os nossos miúdos não conhecem essas referências e, desculpem, muitos professores também não”, afirmou.

Para tal, a edição mantém integralmente o texto original de Eça de Queirós, mas foi dotada de centenas de notas assinaladas por códigos QR que remetem para conteúdos explicativos acessíveis através do telemóvel.

Os códigos permitem esclarecer referências a geografia, toponímia, política, gastronomia, moda, figuras históricas, literatura, música, pintura, instituições e objetos do quotidiano oitocentista.

Deste modo, torna-se possível ouvir as músicas referidas na obra, como é o caso do “Hino da Carta”, descobrir quem foram personalidades como Guizot, e ver as pinturas referidas no texto, como os quadros pendurados nos salões da Casa do Ramalhete.

Os leitores podem também descobrir quem eram figuras como Gambetta, Klopstock ou o duque de Saldanha, onde ficavam locais como o Aterro, o Jockey Club ou o Hotel Bragança, perceber o significado de palavras como “dogcart”, “fumoir”, “bambinela”, “cretone”, “repes”, “talagarça” ou “rapé”, e contextualizar dezenas de outras referências espalhadas ao longo da narrativa.

Durante a apresentação, Francisco José Viegas defendeu que as dificuldades de leitura de “Os Maias” não resultam essencialmente da escrita de Eça, mas da perda de um conjunto de referências culturais que os leitores do século XIX dominavam de forma natural.

“É absurdo nós lermos um livro e não sabermos aquilo de que ele fala. O que queremos fazer é abrir estes livros para serem lidos na sua totalidade”, considerou o editor, que espera que esta edição “facilite a vida aos estudantes que leiam ‘Os Maias’ por obrigação e também aos professores que têm de dar ‘Os Maias’ por obrigação”.

O editor recordou que o romance começa precisamente com uma referência geográfica muito concreta - a Casa do Ramalhete, situada na Rua de São Francisco de Paula, no bairro das Janelas Verdes - e sustentou que compreender o espaço, os lugares e os contextos onde decorre a ação é fundamental para compreender a obra.

A propósito, evocou uma entrevista do escritor Vladimir Nabokov à revista Paris Review, na qual o autor explicava que, ao ensinar “Ulisses”, de James Joyce, começava por pedir aos alunos que adquirissem um mapa de Dublin e um mapa dos transportes da cidade.

Para Francisco José Viegas, o mesmo princípio aplica-se à obra de Eça de Queirós, em que conhecer a geografia da Lisboa de “Os Maias” é uma das formas de entrar no romance.

Os conteúdos disponíveis através dos códigos QR funcionam como uma rede de notas explicativas digitais, remetendo para fontes abertas, incluindo páginas institucionais, arquivos, museus, enciclopédias, plataformas de consulta pública e, em muitos casos, a conteúdos multimédia.

Os leitores podem, por exemplo, escutar as obras musicais mencionadas no romance, como peças de Mendelssohn ou excertos de óperas como "La Traviata", e visualizar pinturas referidas por Eça, incluindo obras de Velázquez e Rubens.

Segundo Francisco José Viegas, o projeto pretende igualmente recuperar dimensões da obra que frequentemente passam despercebidas aos estudantes, entre elas o humor, a ironia e a riqueza das personagens criadas por Eça de Queirós.

Na opinião do editor, e ex-secretário de Estado da Cultura do XIX Governo Constitucional, o ensino do romance privilegiou durante décadas aspetos relacionados com a estrutura narrativa e a cronologia da ação, quando uma parte importante do prazer da leitura reside nas personagens, nos diálogos e nas referências culturais que atravessam a narrativa.

A edição inclui ainda um ‘quiz’ com 100 perguntas sobre o romance, pensado para testar os conhecimentos dos leitores e promover uma abordagem mais lúdica da obra.

As questões abordam episódios, personagens, diálogos, refeições, locais e outros detalhes do universo de “Os Maias”.

A seleção dos conteúdos acessíveis através dos códigos QR foi realizada pelo historiador e escritor português André Canhoto Costa, autor igualmente publicado pela Quetzal.

De acordo com Francisco José Viegas, esta edição é a primeira de um projeto mais amplo destinado a contextualizar grandes clássicos da literatura portuguesa através de recursos digitais.

No início do próximo ano, deverão ser publicadas novas edições de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, e de “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, estando pensadas também obras de Júlio Dinis, como “As Pupilas do Senhor Reitor” ou “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, adiantou.

Publicado em 1888, o romance "Os Maias" é considerado um dos mais importantes da literatura portuguesa e está integrado nas leituras obrigatórias do ensino secundário.


Fonte: LUSA  | 14 de julho de 2026

Agenda
Ver mais eventos

Passatempos

Passatempo

Ganhe convites para o 34.º Curtas Vila do Conde

Em parceria com o Curtas Vila do Conde, oferecemos convites duplos para as sessões de cinema a decorrer nos dias 21 e 24 de de julho (Cinema Revisitado: John Smith e Filmes de Antologia 5: New York Stories).

Visitas
129,842,328