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Do clássico ao emergente, Teatro Nacional São João anuncia uma temporada de contrastes
O Teatro Nacional São João apresentou à comunicação social um ano inteiro de espetáculos e anunciou a reabertura do Mosteiro de São Bento da Vitória.
A temporada setembro 2026–julho 2027 traz 15 estreias absolutas em mais de 50 espetáculos, com o teatro de repertório, a dança contemporânea e a música clássica em destaque. Ao todo, contam-se 6 produções próprias, 18 coproduções e 8 espetáculos internacionais. Marta Pazos, Victor Hugo Pontes, Tiago Guedes, Marcos Barbosa, Inês Sincero e Tomé Nunes Pinto, e Rui Paixão assumem a encenação das novas criações do teatro nacional portuense. Ciclo de monólogos Parla-Solos, Caravana, de João Luís Barreto Guimarães, e a ópera Relicário Perpétuo, com música de Luís Tinoco, marcam o arranque da temporada.
Construída em continuidade com projetos já previstos e com novas propostas, a primeira programação do novo diretor artístico do Teatro Nacional São João, Victor Hugo Pontes, foi hoje anunciada no Mosteiro de São Bento da Vitória, monumento nacional que se encontra em obras de requalificação no âmbito do PRR Cultura. Com reabertura prevista a 1 de outubro, o Mosteiro voltará a acolher espetáculos, a par dos palcos do Teatro São João e do Teatro Carlos Alberto – os três edifícios do universo TNSJ, cuja identidade é reforçada esta temporada. O Teatro São João permanece a casa das produções próprias, das coproduções e dos acolhimentos, e o Teatro Carlos Alberto reafirma-se como palco dos espetáculos para a infância e juventude. Já o Mosteiro de São Bento da Vitória estará vocacionado para a música, acolhendo concertos e performances.
Num ano em que se renova a aposta no repertório dramático universal e em língua portuguesa, destacam-se as novas produções próprias da casa. No arranque da temporada, a atriz Luísa Cruz interpreta Maiúscula, um solo de Jacinto Lucas Pires encenado por Marcos Barbosa. Em novembro, o TNSJ leva à cena o intemporal Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, numa encenação de Marta Pazos, nome central da cena contemporânea espanhola. Já em 2027, Victor Hugo Pontes assume a direção de O Despertar da Primavera, de Frank Wedekind, com jovens selecionados em audição. A Semana dos Porquês [título provisório], com direção artística de Inês Sincero e Tomé Nunes Pinto, é a criação do TNSJ pensada para a infância e juventude. A 9.ª edição do Visitações, projeto do Centro Educativo do TNSJ, terá direção artística de Rui Paixão. A fechar a temporada, o encenador e realizador Tiago Guedes dirige Anatomia de um Suicídio, de Alice Birch.
Com uma programação marcada pelo reforço de espetáculos para a infância e juventude e pelo aprofundamento da responsabilidade social da instituição, é de salientar o esforço em alcançar um equilíbrio de género entre criadores e o aumento da representatividade feminina, sendo 20 as mulheres e 26 os homens que integram a nova temporada do São João.
Parla-Solos: Maiúscula, Kung-Fu e Cantar de Galo
Em setembro, o Teatro Carlos Alberto dá palco a três monólogos num ciclo intitulado Parla-Solos, que celebra e presta homenagem aos intérpretes que se entregam à condição de ser outro. O primeiro espetáculo da temporada é Maiúscula, o solo que Jacinto Lucas Pires escreveu para a atriz Luísa Cruz, que nele é Benedetta Croce, uma atriz de certa idade a quem um realizador propõe um projeto chamado Medeia. Com encenação de Marcos Barbosa e produção do TNSJ, estreia-se de 9 a 13 de setembro, partindo depois numa digressão nacional com paragens na Lousã, em Tavira e em Bragança.
Segue-se Kung-Fu, o solo autobiográfico de Dieudonné Niangouna, em que o dramaturgo, encenador e ator congolês testemunha o teatro como arte de combate. Com dramaturgia e encenação de Renata Portas e interpretação de Diogo Tormenta, está em cena de 17 a 19 de setembro. O ciclo Parla-Solos fecha com o espetáculo Cantar de Galo, do dramaturgo, argumentista e ator americano Robert Schenkkan, que dá voz ao Galo de Barcelos e põe-no a travar razões com Salazar. Com direção e interpretação de Jorge Andrade, está em cena de 24 a 26 de setembro.
Clássicos reinventados e criação contemporânea marcam produções próprias do TNSJ
A defesa da língua e da literatura portuguesa e a encenação do repertório dramático universal são um imperativo ético do TNSJ, refletindo-se ao longo de toda a sua programação e de modo particular nos projetos de produção própria. Nesta temporada, o Teatro Nacional São João convidou Marta Pazos, encenadora, cenógrafa, artista visual e nome central da cena contemporânea espanhola, para reativar o Auto da Barca do Inferno (1517), de Gil Vicente, ponto nevrálgico do repertório teatral português, com mais de quinhentos anos de atualidade. Nesta visitação dos anjos e dos demónios vicentinos, a artista convoca a dança e as artes visuais, propondo um espetáculo colorido e luminoso. Com coreografia de Victor Hugo Pontes, o espetáculo está em cena ao longo de um mês, de 12 de novembro a 13 de dezembro, no Teatro São João. Numa parceria com o Centro Dramático Galego, o espetáculo será apresentado no Auditorio de Galicia, em Santiago de Compostela, nos dias 16 e 17 de janeiro. A 30 e 31 de maio, vai aos Festivais Gil Vicente, em Guimarães.
Já em 2027, Victor Hugo Pontes lança-se a O Despertar da Primavera (1891), de Frank Wedekind, naquela que será a sua primeira incursão, enquanto diretor artístico do TNSJ, no repertório dramático universal. Peça precursora da modernidade teatral, nela o dramaturgo alemão traça um paralelismo entre o despertar da sexualidade e o conhecimento da morte, colocando em confronto dois grandes corpos em movimento: o dos adolescentes e o dos adultos. Para encenar e coreografar essa tensão, Victor Hugo Pontes reúne um conjunto de jovens selecionados em audição e atores mais experientes. O Despertar da Primavera está em cena durante um mês, de 4 de março a 4 de abril, no Teatro São João. Entre 30 de junho e 4 de julho, será apresentado no Teatro Nacional D. Maria II.
Praticamente ao mesmo tempo, o TNSJ estreia A Semana dos Porquês [título provisório], a sua produção pensada para a infância e juventude, com direção artística de dois jovens criadores, Inês Sincero e Tomé Nunes Pinto. O espetáculo transporta-nos até uma escola imersa numa inesperada revolta: quando uma criança se recusa a comer os brócolos da cantina, libertando o primeiro “porquê”, as perguntas espalham-se pelos corredores, pelas salas de aula e pelo recreio. Levantando um sem-número de interrogações, A Semana dos Porquês está também em cena durante um mês, de 9 de março a 11 de abril, no Teatro Carlos Alberto.
Dirigida por Tiago Guedes, Anatomia de um Suicídio (2017), de Alice Birch, é a última produção própria desta temporada. O encenador e realizador põe em movimento três gerações de mulheres – mãe, filha e neta –, em três tempos e espaços distintos, mas cujas histórias são contadas em simultâneo. Com o fantasma do suicídio sempre presente, a dramaturga britânica dá vida a um monstro com três cabeças autónomas, que comunicam entre si através de uma linguagem crepuscular, feita de silêncios, repetições e não-ditos. O espetáculo está em cena de 3 a 26 de junho, no Teatro São João.
Reabertura do Mosteiro de São Bento da Vitória, uma casa para a música
Em outubro, depois de concluídas as obras de requalificação, onde foram investidos quase 5 milhões de euros ao abrigo do programa PRR Cultura, o Mosteiro de São Bento da Vitória vai reabrir. A reabertura deste monumento nacional assinala-se com dois concertos, reafirmando o Mosteiro como casa da música. A 1 de outubro, ouvir-se-á o primeiro de três concertos do 6.º ciclo de MUSICAL-MENTE – nesta edição com prelúdios literários – e, a 4 de outubro, o primeiro de três concertos da Orquestra XXI, que passará a ser a orquestra residente do Mosteiro de São Bento da Vitória.
A 3 de outubro, o programa de performances My Center Is Not in the Solar System, com direção artística de Celina Brás e curadoria de Alexandra Balona, sinaliza o Mosteiro como território aberto a novas aventuras disciplinares. Será ainda inaugurada uma versão revista e atualizada da exposição de cenografias, rebatizada de Nove Quartos de Cena, sublinhando a vocação do Mosteiro como lugar de memória.
No próximo ano, o claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória acolherá ainda o concerto de piano a mind in the heart, de Ivan Vukosavljevi?, com interpretação de Joana Gama, a 9 de janeiro, e uma semana dedicada a Jovens Compositores, com coordenação de Luís Tinoco, de 19 a 24 de abril. A Sala do Tribunal do Mosteiro passará a acolher as apresentações d’ As Escolas Artísticas no TNSJ, entre 9 de junho e 17 de julho.
No capítulo da música, o Teatro São João dará também palco à ópera Relicário Perpétuo, com música de Luís Tinoco, libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas, a 11 e 12 de setembro, e ao concerto de Natal Shubertíada, com curadoria de Pedro Burmester, a 18 de dezembro.
O que pode o teatro para combater a exclusão social?
O Teatro Nacional São João tem vindo a aprofundar o seu compromisso com a inclusão e a acessibilidade, promovendo outros modos de relacionamento com populações marginalizadas ou desfavorecidas, nomeadamente com sem-abrigo, reclusos e migrantes. Esta temporada, o TNSJ estreia quatro coproduções que são resultado deste compromisso.
Em parceria com a associação cultural Apuro, o TNSJ procurou integrar em diferentes projetos artísticos pessoas em situação de sem-abrigo como as que viveram nas saídas de emergência do Teatro São João, imaginando, com elas, outras “saídas de emergência”. O Conceito Inútil é o espetáculo construído a partir das histórias individuais de cada membro da companhia teatral Do Lado de Fora, a primeira em Portugal criada por pessoas em situação de sem-abrigo. Com direção artística de Rui Spranger, estreia-se de 19 a 22 de novembro, no Teatro Carlos Alberto.
À Porta é um outro espetáculo que procura alargar esta frente de trabalho. Criado pela Estrutura, a convite do TNSJ, pretende refletir sobre questões em torno da cidade, da exclusão, da hospitalidade e do espaço público, num diálogo livre com Filoctetes, de Sófocles. Com direção artística de Cátia Pinheiro e José Nunes, estreia-se de 17 a 20 de junho, no TeCA.
Tendo como ponto de partida a obra Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco, o TNSJ convidou a estrutura de criação artística Terceira Pessoa a desenvolver um espetáculo de teatro com reclusos do Estabelecimento Prisional do Vale do Sousa, em Paços de Ferreira. Com base numa dramaturgia original do escritor Afonso Cruz e direção artística de Ana Gil e Óscar Silva, o espetáculo procura refletir o contexto, as vivências e as vozes dos seus intérpretes. Memórias do Cárcere tem estreia marcada a 21 de maio, no TeCA, sendo apresentado a 26 de maio, no Theatro Circo (Braga), coprodutor deste projeto.
Ao encenador Marco Martins e à sua equipa do Arena Ensemble o TNSJ confiou um desígnio: mapear a realidade dos jovens migrantes que nos últimos anos têm vindo a instalar-se no Porto, construindo com eles um espetáculo colaborativo. Com texto e apoio dramatúrgico de Gonçalo M. Tavares, e investigação das jornalistas Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, Eneias, Max e Outros – Uma Odisseia Contemporânea cruza as biografias de dez jovens imigrantes, forçados a sair dos seus países de origem, com as grandes narrativas sobre deslocação, exílio ou migração. O espetáculo tem estreia marcada de 8 a 18 de julho, no Teatro São João.
Coproduções com novas companhias e artistas
Em 2026-2027, o São João procura dar lugar a novas vozes, coproduzindo com novas companhias e acolhendo nos seus palcos artistas que integram pela primeira vez a programação do TNSJ. Ao mesmo tempo, consolidará laços com companhias de teatro sedeadas na região Norte.
Na abertura da temporada, de 18 a 27 de setembro, numa coprodução com o Teatro Aberto, o Teatro São João recebe o recém-estreado Caravana, de João Luís Barreto Guimarães, com encenação de João Pedro Vaz e interpretação de Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos. De 8 a 18 de outubro, Gonçalo Waddington traz ao São João a sua encenação de O Pai, de August Strindberg, espetáculo coproduzido com o São Luiz Teatro Municipal. Ainda em 2026, de 28 a 31 de outubro, o Teatro Carlos Alberto dá palco à estreia de Festa, uma criação do Teatro Experimental do Porto e da companhia brasileira de teatro, com dramaturgia e encenação de Marcio Abreu.
No início de 2027, Sara Carinhas leva à cena Pessoas, Lugares e Coisas, do dramaturgo britânico Duncan Macmillan, um retrato da adição interpretado por Benedita Pereira, em estreia no Teatro São João, de 14 a 23 de janeiro. Com coprodução do TNSJ e em estreia estão também os espetáculos Se um momento os teus olhos me pudessem ver, de Luís Mestre, de 11 a 14 de fevereiro, no Salão Nobre do Teatro São João, e Fumo, de Tiago Correia, de 18 a 28 de fevereiro, no Teatro Carlos Alberto.
Ao longo da temporada, há ainda quatro espetáculos de dança com o selo TNSJ para ver nos palcos do São João e do TeCA: O Silêncio Pertence-nos [título provisório], de Sofia Dias & Vítor Roriz, de 4 a 7 de fevereiro; O poder não era para ser isto (mas acabou por ser) [título provisório], com coreografia de São Castro, em estreia de 15 a 17 de abril; Assimétrico, com coreografia e direção de Beatriz Valentim, a 16 e 17 de abril; e O mundo inteiro à espera, de Olga Roriz, nos dias 29 e 30 de abril.
Reforço da programação para a infância e juventude
A programação do Centro Educativo do TNSJ continua a ser reforçada com mais espetáculos dirigidos a crianças e jovens em idade escolar apresentados no palco do Teatro Carlos Alberto. Ainda este ano, destacam-se as apresentações de O Estado do Mundo (Quando Acordas), de Inês Barahona e Miguel Fragata, a 15 de outubro, no âmbito do FIMP; TPC: Frei Luís de Sousaaa, a partir de Almeida Garret, com texto e encenação de Raquel Castro, de 4 a 7 de novembro; e Roda-Viva (A Menina e o Círculo), uma ideia original de Cláudia Nóvoa, de 3 a 5 de dezembro.
Para além da produção própria A Semana dos Porquês, no próximo ano, a programação infantojuvenil do TNSJ inclui Montanha e Utopia, a partir da obra de Gonçalo M. Tavares, com dramaturgia e encenação de Sara Barros Leitão, entre 22 e 31 de janeiro; Chão de Meninos, uma criação de Madalena Victorino, em cena de 24 a 27 de fevereiro, no Salão Nobre do Teatro São João; Constituição, com texto e encenação de Isabel Costa, de 21 a 24 de abril; e Elefante na Sala, com direção artística, texto e interpretação de Raimundo Cosme, de 1 a 5 de junho.
A 9.ª edição do Visitações, o projeto âncora do Centro Educativo que reúne alunos de escolas da Área Metropolitana do Porto num espetáculo colaborativo, terá esta temporada coordenação artística de Rui Paixão, criador e intérprete especializado em teatro físico, clown e circo contemporâneo. As apresentações públicas são a 8 e 9 de maio, no Teatro São João.
Expressão internacional: FIMP, DDD e FITEI
A programação internacional do TNSJ expressa-se através do acolhimento de espetáculos de companhias estrangeiras, integrados no FIMP - Festival Internacional de Marionetas do Porto, no FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica e no DDD - Festival Dias da Dança, com o qual será retomada a ligação.
De 9 a 13 de outubro, O FIMP no TNSJ traz ao palco do Teatro Carlos Alberto as adaptações de dois romances históricos pela encenadora Karine Birgé, com produção da Compagnie Karytiades (Bélgica): Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e Os Miseráveis, de Victor Hugo. A 10 e 11 de abril, O DDD no TNSJ apresenta no Mosteiro de São Bento da Vitória um espetáculo internacional ainda a anunciar, que promete ser um dos destaques desta edição do festival. E de 13 a 15 de maio, O FITEI no TNSJ traz aos palcos do São João e do TeCA mais dois espetáculos internacionais ainda a ser anunciados.
Saída de Emergência – Ciclo de espetáculos de criadores emergentes
Dar palco à criação emergente é um dos objetivos da nova direção artística do TNSJ, que na sua primeira proposta programática cria um ciclo de espetáculos dirigido a jovens artistas. Saída de Emergência quer promover a experimentação e a descoberta de novas linguagens teatrais, abrindo as portas do Teatro Carlos Alberto, entre 15 e 24 de julho, a artistas em afirmação com projetos muito diversos. Esta “edição zero”, baseada em convites diretos, funciona como um laboratório para futuras edições, que devem abrir a participação a novos criadores, reforçando o compromisso do TNSJ com a renovação do panorama teatral.

