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Monólogo "Maiúscula" de Jacinto Lucas Pires escrito para Luísa Cruz estreia-se no Porto

O monólogo "Maiúscula", escrita por Jacinto Lucas Pires para a atriz Luísa Cruz, estreia no Teatro Carlos Alberto, no Porto, convocando o espectador a testemunhar a força e a fragilidade de uma mulher com M maiúsculo.

© Fernando Veludo/Agência LUSA

Encenada por Marcos Barbosa, a peça abre com a personagem Benedetta Croce sentada num cadeirão estofado com tecido bege floreado e iluminada por um candeeiro cuja luz revela o cabelo encaracolado da atriz e um corpo protegido por uma camisa de dormir de cetim e um robe.

"Caíram as cuecas da corda", lança Benedetta Croce, aborrecida com a rotina daquela tarefa doméstica. No seu discurso soltam-se recordações da sua vida passada de jovem atriz, repleta de sucessos e festas com flutes de champanhe, onde até tinha uma criada, a Natacha, “de pele branca e ingénua”.

Com o telefonema de um realizador que a convida para ser a protagonista num novo filme, Benedetta Croce tenta acreditar que aquele papel poderá relançar a sua carreira para voltar a ser uma Mulher com letra maiúscula e uma atriz famosa.

“Maiúscula” é o espetáculo que marca o arranque da nova temporada do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, esta quarta-feira, no Teatro Carlos Alberto, e que foi uma encomenda do próprio TNSJ a Jacinto Lucas Pires.

Em declarações aos jornalistas, Marcos Barbosa explicou que a peça fala de uma mulher sozinha, assombrada por certos fantasmas, depois de uma carreira importante.

“É mesmo uma história de uma grande diva, uma grande mulher do teatro, que agora está esquecida na sua casa, ainda com essas memórias e à procura do seu lugar”, disse o encenador.

Nos vários discursos de Benedetta Croce, que vai saltando entre a vida de diva e a velhice solitária, também é mencionado um filho ausente e um marido que se foi embora e que tem uma namorada muito mais jovem.

A recriação poética de “Medeia”, de Eurípedes, traduzida em 1964 por Sophia de Mello Breyner Anderson, é uma presença constante neste monólogo, com os versos dessa tradução a serem ensaiados pela personagem na esperança de vir a desempenhar o papel no novo filme.

Segundo o encenador, há um paralelismo no texto entre aquilo que Medeia faz na peça e aquilo que Benedetta, de alguma forma, resolve fazer em “Maiúscula”, que é também matar os seus fantasmas.

“De facto, o que acontece nestas peças, como a peça do Eurípides, é que a Medeia, na peça de teatro, encontra as palavras certas para expressar aquilo que sentimos. De alguma forma, a Benedetta, na procura das palavras, para transmitir aquilo que sente e para falar sobre a sua solidão, ou para tentar resolver a sua solidão, ou para fazer regressar esses fantasmas da Natacha, ou do Thomas, ou do filho, que é o Jonathan, ou dos grandes cenários dos filmes, ela vai procurando palavras para fazer regressar esses momentos. De facto, quando ela diz aquelas palavras, nós voltamos para esses momentos”, acrescentou.

Segundo Marcos Barbosa, na peça vê-se Benedetta a exigir o seu lugar no mundo, tal como Medeia o fez na peça de Eurípedes.

Luísa Cruz confessou que tinha feito um monólogo e disse que não queria fazer mais, mas acabou por aceitar, porque a peça ia andar em digressão pelo país.

“Acho que é muito importante a descentralização, levarmos a outros sítios que não só Lisboa e Porto, Coimbra, Faro, e isso agradou-me, essa espécie de campanha teatral noutros sítios. E depois, claro, o texto. Eles estavam à espera que eu dissesse que sim ou que não, para o Jacinto [Lucas Pires] escrever, ou seja, isto é um é um bónus muito grande, é uma honra. Não é todos os dias que escrevem para um ator ou para uma atriz”, afirmou a atriz.

Questionada sobre se esta peça é também uma reflexão sobre feminismo e sobre o processo de envelhecimento da mulher e de como lhe podem ser fechadas as portas por causa da idade, Luísa Cruz afirmou que sim: “Sim [é uma reflexão]. Não aponta caminhos ou soluções, […] mas sim, fala-se de muitas coisas, fala-se de ter a coragem de viver num corpo verdadeiro, seja lá isso que queira dizer para cada uma das pessoas, ela diz que não faz plásticas, e que quer ser uma mulher antiga e livre”.

“Maiúscula” estreia-se no Teatro Carlos Alberto na quarta-feira, onde fica em cena até domingo. A sessão de estreia está já esgotada.

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Fonte: LUSA | 8 de setembro de 2026

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