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"A Deus, à Poesia"
João Moita, vencedor do Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho, regressa com reflexões sobre Deus, o silêncio, o tempo e o sentido da existência.
Escrevo, asseguro com uma mão que a outra não te desoculta.
Vigio, sacrifico-te o tempo mais fecundo da minha vida.
Quando estiveres pronto, levantas -te e partes. Então já não precisarás
de mim. Serás a promessa eternamente adiada de um retorno.
A Deus, à Poesia move-se entre o aforismo filosófico, a meditação em prosa e o diário de ideias. Organiza-o o problema do silêncio: de Deus, dos astros, do poeta e dos ecos surdos que respondem às invectivas do Homem.
Nas suas quatro secções, o livro traça um percurso que passa pela inquirição ao tempo, a Deus, à poesia e ao erotismo como formas de transcendência deslocadas para a imanência. Este conjunto de fragmentos habita o espaço entre o endereçamento e a despedida – entre falar a Deus sabendo que não há resposta e dizer adeus a uma poesia que não redime e não comparece quando é convocada.
O livro é negro, mas não pessimista: não espera alcançar a luz nem se conforma com as trevas. Nessa aporia, vive.
Lugar onde. – Eu dentro de mim, voz sem timbre, só cadência; caixa de ressonância onde nenhum eco se propaga, nenhum diálogo se estabelece, nenhum confronto se encarniça. Só isto, este estar presente sem ter a quê, a quem, porquê. Tudo tão perto e eu tão longe. Não bem perdido: ilocalizável.

João Moita nasceu em Alpiarça, em 1984. Publicou O Vento Soprado como Sangue (2009), Miasmas (2010), Fome (2015, 1.ª ed., e 2017, 2.ª ed. revista e aumentada), Uma Pedra sobre a Boca (2019) e Que Túmulo em que Talhão (2022). A este último, foi atribuído o Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho 2023, da Associação Portuguesa de Escritores.
Traduziu e organizou, entre outras, obras de Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Saint-John Perse, Antonio Gamoneda e Walt Whitman.

