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"Um Sonho de Pó e Água"
Quando voltou do campo de concentração, no final da Guerra, Renato nem perguntou à mãe quem era a criança que tinha ao colo; só quis saber onde é que o pai «o» tinha escondido. Referia-se, claro, ao molde inovador da cafeteira Moka, que receava ter caído nas mãos dos alemães.
Numa vila italiana chamada Crusinallo ainda hoje permanecem as instalações de uma das maiores fábricas do mundo. Era um edifício de arquitetura futurista onde centenas de trabalhadores produziam um único objeto singular: a cafeteira Bialetti. Devia o seu nome a dois homens que não tinham nada em comum além do facto de serem pai e filho: Alfonso – um sonhador discreto e metido consigo – que, na década de 1930, transformara uma ideia inovadora num produto revolucionário; e Renato – ambicioso, ousado e dotado de uma visão empresarial impressionante – que fez com que a Bialetti fosse desejada em todos os lares italianos e um enorme sucesso em todo o mundo.
Alfonso e Renato eram tão diferentes quanto pó de café e água, mas a Moka não existiria sem eles e sem a garra das mulheres da família, que zelavam permanentemente pelo equilíbrio precário entre ambos, procurando evitar os conflitos. Tina – a mais nova dos Bialetti, nascida quase por milagre durante a Segunda Guerra Mundial – é, de resto, quem agora nos conta a história da cafeteira mais famosa do mundo, dando a mão a Alessandro Barbaglia para apresentar, como se se tratasse de um romance, a saga épica da família que desempenhou um papel fundamental no boom económico europeu do pós-guerra.
«Os últimos modelos Bialetti… Apetecia-me dizer-lhe que conheço bem a história dos primeiros; que conheço quem concebeu a cafeteira Moka número um, e a número dois, e a número três…
Que sei porque é que se chama assim, que sei até como funciona e como surgiu ao meu pai a ideia de a inventar.
Chamem-me Tina. Sou a Celestina. Celestina Bialetti.
O meu pai inventou a Moka Express Bialetti, já o meu irmão tinha uns grandes bigodes. Foi ele que levou a invenção do meu pai a todo o mundo.
Se por acaso já tiveram uma cafeteira Moka, o mérito é deles.
Hoje, dos três, apenas eu estou viva. Esta é a razão pela qual tomei a decisão de vos contar a história. Para que não seja demasiado tarde, antes que tudo se desvaneça no tempo, esquecido.»
Celestina Bialetti nasceu em 1945 e é a mais nova dos quatro filhos de Ada e Alfonso Bialetti.
Vive em Omegna, nas margens do Lago d’Orta, na companhia da sua gata Luna.
Foi professora do ensino primário, tendo lecionado com entusiasmo e satisfação, recorrendo a métodos pedagógicos inovadores. Dedica o seu tempo livre à sua neta Adele.
Alessandro Barbaglia, escritor e livreiro, nasceu em 1980 e mora em Novara.
Publicou vários livros: La Locanda dell’Ultima Solitudine (finalista do Prémio Bancare-lla), L’Atlante dell’Invisibile, Nella balena, La mossa del matto (vencedor do Prémio Segafredo Zanetti e do concurso literário CONI) e L’invenzione di Eva.
Em 2021, ganhou o Prémio Strega para Jovens com seu primeiro livro infantil, Scacco matto tra le stelle.
Testemunhos/Biografias
272 páginas
19,90 Euros
ISBN: 978-989-58-1924-9
1.ª Edição: Outubro 2026
Casa das Letras | Leya

