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Companhia Formiga Atómica estreia reflexão sobre o humor sexta-feira em Lisboa
A companhia teatral Formiga Atómica estreia sexta-feira, na Culturgest, em Lisboa, a peça “Uma mosca no nosso chá”, que incita o público a refletir sobre o que é o humor, por que se ri e de que se ri.
Com texto de Inês Barahona e encenação de Miguel Fragata, a peça resulta do desejo de ambos de fazerem uma peça totalmente dedicada ao humor, já que sempre esteve presente nas suas criações.
A dada altura, e porque "estão sempre muito atentos ao presente e ao contemporâneo”, começaram a achar que “tinham de dedicar um espetáculo todo em torno da reflexão sobre o humor e o espaço que este está cada vez mais a ocupar no presente”, disse Miguel Fragata no final de um ensaio da peça.
“Acho que mais do que nunca o humor está espalhado, disseminado”, como mencionam várias falas da peça.
“Já toda a gente faz humor, todos o usam como recurso”, desde humoristas, a políticos, vendedores, acrescentou o encenador, sublinhando que esta “disseminação” também faz com que “a função, a pertinência e o papel” do humor por vezes também “se percam”.
Nestes tempos em que "o humor se tornou uma indústria", Inês Barahona escreveu um texto onde colocou o humor (uma mosca) numa chávena de chá ao mesmo tempo, pondo em palco oito personagens que personificam outras tantas moscas.
Ao longo do espetáculo é visível o trabalho de pesquisa por trás do texto, que levou para o palco “várias dimensões da história do humor, da história ocidental, referências de humoristas, de comediantes, de ‘stand-up’, comediantes incontornáveis no panorama português e interacional”, indicou Miguel Fragata.
"Uma mosca no nosso chá" permite também ao espectador atravessar a história do humor e, ao fazê-lo, aperceber-se de que este resulta “numa espécie de microcosmos da sociedade”.
“Fica muito evidente quando olhamos para o que está documentado da história [do humor] que é muito limitado a uma história egocêntrica, é um universo completamente patriarcal, é a visão masculina, branca, heterossexual e essa predominância, esse domínio, e é muito evidente até há muito pouco tempo”, referiu Miguel Fragata.
Até porque “são sempre homens a fazer humor e essa superioridade moral é de uma lógica perfeitamente desequilibrada”, referiu o encenador, sustentando que se tem verificado um “empobrecimento” do humor, resultado do “empobrecimento e até ‘emburrecimento’ com que o mundo se tem organizado que se tem pautado pela vertigem, pela rapidez, pelo imediato”.
A ação da peça centra-se em quatro personagens femininas e quatro masculinas que põem a mesa para um chá sério e civilizado, enquanto o mundo vai desabando.
À medida que “o lixo se vai acumulando debaixo do tapete”, as personagens vão desafiando o público a descobrir por que se ri, de que se ri e como se ri.
Inês Barahona alertou ainda para o facto de na atualidade o humor ser muitas vezes utilizado de forma “quase gratuita”, levando a que a sua relevância “se esboroe”, justificando com os "clichês e preconceitos que se vão repisando muitas vezes".
A cocriadora do espetáculo definiu a peça como uma reflexão que “navega na questão do humor em três níveis: um mais pessoal, que tem a ver como cada pessoa lida com o humor, um mais social, que tem a ver com o papel que o humor desempenha nas relações e na história, e, por fim, um nível mais conceptual”.
Com três récitas no Auditório Emídio Rui Vilar, entre sexta-feira e segunda-feira, a interpretar o espetáculo estão Bernardo Aguiar, Carla Galvão, Madalena Almeida, Mar Bandeira, Marco Aleixo, Marco Mendonça, Sílvia Filipe e Vasco Barroso.
A cenografia é de Fernando Ribeiro, os figurinos são de José António Tenente, a música original de Hélder Gonçalves, enquanto o desenho de luz e de som são de Rui Monteiro e Nelson Carvalho, respetivamente.
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Fonte: LUSA | 28 de outubro de 2026

