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Exposições

Exposição "Saudades" de Paula Rego

No dia 13 de novembro de 2021, pelas 16h, a exposição "Saudades" da artista Paula Rego abre ao público na Galeria 111


13 Nov a15 Jan

Galeria 111
Campo Grande, 113 - 1700-089 Lisboa
Preço
Entrada livre

Unida pela coerência e consistência dos temas e pela inconfundível marca da sua identidade, a obra de Paula Rego, desde o final dos anos 50, enquanto ainda estudante na Slade School, até aos dias de hoje, tem atravessado uma compulsiva necessidade de se renovar formalmente, com vários ciclos identificáveis e temporalmente definidos. Paula Rego tem sido a artista inconformista e insatisfeita que sobrevive a cada ruptura e que renasce em sucessivos estados experimentais.

O ano de 1986 tem sido apontado por vários críticos como ano de fractura mais evidente e aquele que desencadeou uma mudança de rumo decisiva no seu trabalho. A doença degenerativa de Victor Willing , pintor com quem a artista partilhou de modo absoluto a sua vida e o seu trabalho, e a irremediável aproximação da sua morte, marcam o início de uma ruptura no desenvolvimento do trabalho de Paula Rego. A série Girl and Dog que desenvolveu a partir deste ano , exterioriza (metaforicamente), a fase final da doença do marido, transferindo para a representação das duas figuras (humana e animal), a coreografia dos gestos de um quotidiano de dependência física e violência psicológica.

Enfrentando uma crise existencial duríssima, Paula Rego sentiu a necessidade de uma expressão mais autêntica, exigindo um total domínio dos meios de representação para poder transmitir com clareza e de modo convincente a força e implosão das suas emoções. Um (falso) naturalismo, serviu essa urgência de transmitir, sem equívocos, o que tinha para dizer. A artista coloca-se pela primeira vez “frente a frente” com o público, optando por um espaço tridimensional, em grandes escalas, onde figuras reais, corpos densos capazes de projectar sombras, representam cenas de vida, como se de um palco se tratasse. Sem aparentes mediadores, nem processos plásticos de ocultação ou dissimulação, Paula Rego assume, do ponto de vista formal, e recuperando nós aqui uma expressão antiga de Victor Willing , a sua caligrafia directa, a sua “verdadeira pele”. E enfrenta a dor: as citações directas a Victor Willing tornam-se mais frequentes e inteligíveis.

The Family, realizada no ano de 1988, ainda em tempo de vida do marido, é uma pintura icónica que abriu uma sequência narrativa atravessada pela representação de múltiplos estados emocionais, onde a paixão (nas suas várias vertentes: familiares e pessoais, socio-políticas e religiosa) tem um lugar central. A figura de uma mulher poderosa, identificável como um “Anjo”, vingador e piedoso, que segura nas mãos a espada e a esponja, símbolos da Paixão de Cristo ou da sua força castigadora, poderá materializar e sintetizar a iconografia do tema: a maior história de todos os tempos é a Paixão. Haverá alguma outra história? Na arte, para atingirmos a profundidade, temos de a olhar de frente de vez em quando , é a própria artista a reconhecê-lo. Seria esta a pintura que gostaria de levar consigo quando partisse. Não sendo explicitamente um auto-retrato, é uma imagem forte que se identifica com o sentido interventivo do seu trabalho: entre a protecção e a vingança, o castigo e o perdão. Tirar o bem do mal, ou o inverso, conforme o que for mais eficiente nessa inversão.

A paixão encontra-se sobretudo na atitude da artista e na incansável procura de temas que a conduzem à representação do drama (ou comédia) humano, no implacável escrutínio da sua complexa natureza ética e moral. Ninguém melhor que Paula Rego para clarificar, com simplicidade desarmante, o âmbito temático do seu trabalho, que por múltiplas formas que tome, tem sido invariável: “Mandar nas pessoas. Obediência. Subversão. Fazer bem às pessoas más, fazer mal às pessoas boas. Poder. Desigualdade entre os sexos. Os homens mandam nas mulheres em geral. As mulheres às vezes mandam, mas é de outra maneira. A relação entre os sexos. É isso. Não é preciso mais”. A sua abordagem é sempre ética, pedagógica e o propósito transformador das consciências e dos comportamentos.

Esta exposição que reúne obras que atravessam várias décadas e temas, desde os anos 80 (Girl and dog) até aos seus mais recentes trabalhos (Maria Madalena, 2017) é estruturada num campo de revisitação de uma iconografia religiosa, que Paula Rego tem recuperado, de diferentes modos, ao longo do seu trajecto artístico. A usual apropriação de cenas bíblicas ou dos seus símbolos é sempre feita em total liberdade, colocando em planos indiferenciados o sagrado, o mítico ou o quotidiano. Encontramos múltiplas citações religiosas em The Family (1988), onde a tensão dos corpos é sustentada pela expectativa salvífica de um oratório; na pintura alusiva à Guerra do Iraque, War (2004), com a sugestão de uma Pietá nas duas figuras centrais - ambas as pinturas unidas pela exasperação de um sentimento de perda. Ou ainda na representação que sabemos ser de Maria Madalena (Sem título, 1995), a mulher que puxa uma cinta para esconder a sua nudez e o desconforto da sua impureza, ou nos sinais iconográficos, mais evidentes como a cruz, ou a escada, que encontramos em muitas das suas obras.

A representação de Maria Madalena, em 2017, (como de Mary of Egypt, 2011) de novo nos coloca em face de uma santa pecadora, recriada no intencional ambiente de humanização e de proximidade. Mas se décadas atrás, esta figura surge destacada e calculada num único plano, frontal, impositivo e incómodo para o espectador, mais recentemente a artista desvia-se para um caminho de maior libertação do seu espaço plástico, fazendo-nos recordar algumas das suas composições dos anos 60 e 70, como se de novo quisesse fugir às nossas expectativas e às suas próprias regras. As figuras aparecem suspensas, sem tecto nem chão definidos e flutuam num espaço desconfigurado e livre, mais próximo do sonho. Sonhos que a artista quer partilhar, numa recorrência temática onde esta liberdade compositiva melhor se pode expandir. Ao mesmo tempo evidencia-se uma pulsão dicotómica, entre a configuração do real e a dimensão onírica, deixando espaço para a deriva e para a intervenção de agentes menos explícitos de uma lógica narrativa.

A pecadora Madalena, ruiva, decotada, impura e que tem ao colo a figura descomposta e grotesca, em roupa interior, de um homem em queda, vem sinalizada num plano superior, pela imagem de uma menina que abraça um pequeno unicórnio, símbolo da pureza. A nossa possibilidade interpretativa é infinita.

As três obras aqui recuperadas do ciclo da Virgem Maria (“Anunciação”, 2002) estudos para a encomenda do Presidente da República, Jorge Sampaio, à artista, para a Capela de Nossa Senhora de Belém, são obras maiores no percurso da artista, aquelas que a partir do culto mariano, criaram o espaço de reflexão mais pertinente sobre a voz das mulheres. Toda a coreografia deste episódio bíblico, que convoca a castidade e a sexualidade, a impureza e a inocência é protagonizada no feminino e no contemporâneo. O anjo anunciador é uma mulher e a Virgem é uma menina, na verdade uma colegial a atravessar a difícil passagem da infância para a idade adulta. A artista transpõe para o plano do presente o episódio que historicamente sempre foi tratado com distância e irrealidade e, com o à-vontade com que sempre tratou o vai e vem entre presente e passado, entre a religiosidade e o quotidiano, entre as histórias dos outros e as suas próprias histórias. Será mesmo difícil na convocação deste episódio, não recordarmos o verdadeiro significado de um conhecido desenho dos anos 80, com a coelhinha grávida a anunciar ao pai a sua inesperada gravidez. Quaisquer que sejam as fontes que tome por referência, Paula Rego seguiu e seguirá sempre o seu próprio guião narrativo e artístico, que transpõe e adapta à medida das circunstâncias do presente onde quer intervir.

Paula Rego é uma artista sagaz e subtil que incorpora na pintura múltiplas dinâmicas disciplinares, e que utiliza como método e pulsão pessoal uma singular técnica de deslocação, inversão ou desvio, provocando um duplo efeito de reconhecimento e surpresa. Também por isso se impõe como uma artista interventiva no espaço do contemporâneo e se demarca de qualquer rótulo virtuoso.

A persistente troca de personagens e situações, de géneros e espécies feminino/masculino, humano/animal, sagrado/profano, de escalas, o modo como flexibiliza o tempo em total liberdade, como expande as narrativas e as referências, transformam, de facto, a dissonância e a dicotomia em poderosas armas do seu discurso plástico. A artista sabe agir por dentro das aparências. Tudo parece estar certo e nada está onde parece.

Paula Rego tem a capacidade única de encontrar a configuração da dissonância ou transferência que melhor nos atinge, comove ou violenta. Tem a sabedoria de fracturar onde nos sabe vulneráveis. Porque é mais intensa e dolorosa a imagem dos coelhos feridos que muitas das fotografias que transportam e banalizam as imagens da Guerra? Porque surge tão espiritualmente poderoso o anjo na forma de uma mulher carnal de corpete negro e saia dourada? Ou, patética, a figura de Maria Madalena, santificada e prostituta, desconfortável e prisioneira de uma cinta que simultaneamente a esconde e expõe. Como Paula Rego diz, as histórias servem para ir mais longe. A artista utiliza as narrativas (das histórias ou da vida) para criar e dominar a linguagem das imagens e dos simulacros, desmontando qualquer expectável sentido ilustrativo. A sua admiração pela obra de Klossowski não será alheia a este facto. Não há qualquer disfarce literal em jogo, muito pelo contrário, a artista investe nas possibilidades de expansão dos sentidos de todas as palavras de todas as imagens e de todas as associações. Os disfarces, quando existem, servem para tornar as imagens mais verdadeiras e as mensagens mais cruas.

Helena de Freitas | 1 Novembro, 2021
Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico.

A exposição estará patente ao público até ao dia 15 de janeiro de 2022 e pode ser visitada de terça-feira a sábado, das 10h00 às 19h00, salvo alterações impostas pela DGS. A galeria encerra ao domingo, segunda-feira e feriados.

+ info: https://111.pt/ 

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