"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Exposições

Exposição "What's for dinner" de Hugo Brazão

A Galeria Balcony e o artista Hugo Brazão têm o prazer de convidar a visitar a exposição, “What’s for dinner?”, patente até 22 de maio de 2022.

24 Mar a22 Mai

Balcony Gallery
Rua Coronel Bento Roma 12A, Alvalade – Lisboa
Preço
Entrada livre
 
What’s for dinner?

O nosso cérebro é normalmente entendido como a ferramenta que possuímos que mais nos distingue de outros animais. Somos sempre advertidos de que a sua boa manutenção e exercício nos garantirá sucesso. Contudo, outros animais são igualmente dotados, através de complexos processos evolucionais, com químicos e hormonas que ditam o seu comportamento e sobrevivência.

Foi demonstrado que o estorninho europeu (Sturnus vulgaris) é um pássaro inerentemente otimista. Num estudo, estes pássaros foram ensinados a associar um sinal sonoro curto com uma recompensa em alimento imediata e um sinal sonoro mais longo com uma recompensa retardada. Quando confrontados com um estímulo indeterminado, os níveis elevados de dopamina impulsionaram a maioria dos pássaros a tomar uma decisão otimista de recompensa imediata. Dopamina é produzida quando há expectativa de recompensa: quando um macaco vê uma fruta numa árvore, quando recebemos uma notificação do WhatsApp, ou quando um estorninho otimista responde a um estímulo indeterminado.

Uma região do córtex cerebral das orcas (Orcinus orca), o lobo da ínsula, é muito mais elaborado e complexo quando comparado a outros animais. Esta é a parte do cérebro que processa empatia afetiva e que através da libertação de Oxitocina, alimenta outras emoções sociais como confiança, generosidade ou afeto assim como a ligação entre emoções e sentimentos abstratos, memória, aprendizagem ou autobiografia. Isto leva-nos a crer que as orcas processam estes sentimentos de uma forma que vai para além da perceção primata. Um exemplo que talvez conseguimos compreender, e que demonstra as suas aptidões sociais, é a forma como partilham o alimento quando há escassez de recursos. Nestas situações, em vez de sacrificar um individuo para o bem coletivo, as orcas escolhem que o baleal passe fome coletivamente.

A serotonina é um neurotransmissor que regula o humor e que é maioritariamente encontrado no sistema nervoso entérico, localizado no tubo gastrointestinal. Contraintuitivamente, a abelha-comum (Apis mellifera) apresenta níveis elevados de serotonina quando é mais propensa a picar. Estes elevados níveis são também transportados para o mel que produzem, sendo que a sua ingestão talvez ajude a compensar a prostração subsequente a uma refeição que ansiávamos, depois de passado o entusiasmo causado anteriormente pela dopamina.

Quando hibernam, os ursos-pardos (Ursus arctos) produzem endorfinas que restringem o metabolismo das suas células e reduzem a quantidade de oxigénio necessária para a sua sobrevivência. Isto permite-lhes reduzir o suprimento sanguíneo do cérebro e órgãos internos sem os danificar, para que consigam conservar as suas preciosas reservas de gordura para a hibernação. Quando libertadas, as endorfinas criam um efeito de dormência em casos extremos de sobrevivência. A sensação de euforia depois de uma ida ao ginásio também anestesia a dor após o exercício físico, embora isso não faça com que tenhamos o impulso de hibernar.

Esta exposição examina estes químicos a partir de um ponto de vista que não é exclusivamente antropocêntrico e, ao ir buscar referências a diagramas e gráficos científicos, tenta proporcionar uma forma mitopoética às suas mecânicas microscópicas e reposicionar as suas concessões mais comuns.

No contexto neoliberalista pós-industrial, a pressão para atingirmos um estado definitivo de ‘bem-estar’ através da gestão da dualidade entre o nosso corpo e a nossa mente através de exercício físico, mindfullness, e outras atividades monetarizadas, tem-se tornado inescapável.

A nossa abordagem narcisística coloca o ónus dos problemas globais nos nossos ombros: quando não conseguimos individualmente confrontar o inevitável cancelamento do nosso futuro causado pelas alterações climáticas ou inequalidades socioeconómicas, aquilo que podemos fazer é gerir de forma imediata a nossa reação perante isso.

Não é pouco comum que, após um grande almoço comemorativo, alguém sentado à mesa pergunte “o que é que vamos comer ao jantar?”.

... ou então vamos reformular esta frase.

Não é pouco comum que após uma grande libertação de oxitocina comemorativa, antecedida por um tumulto de dopamina, e seguido de uma prostração causada pela falta de serotonina e uma urgência de hibernar pela libertação de endorfina, haja um ciclo que se completa quando a dopamina é de novo libertada e, com a nossa tendência a ver um futuro promissor, alguém pergunte “o que é que vamos comer ao jantar?”. A urgência política para realinhar estes termos químicos com a sua conotação com um ecossistema e que vai para além do individual, torna-se assim uma imposição hormonal para a nossa sobrevivência coletiva.

Inauguração: 24 de março, quinta-feira, 22h00
Patente até dia 22 de maio
Terça-feira a sábado das 14h – 19h30
www.balcony.pt
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