"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Exposições

Incómoda Prestigiditação

Exposição de pintura de Aníbal Monteiro.

25 Mai a 21 Jun 2024

Argo - Associação Artística de Gondomar
Largo Júlio Dinis - Pavilhão Municipal - Fânzeres
Preço
Entrada livre
Aníbal Monteiro, nasceu em Belmonte em 1960. Desde muito cedo manifestou interesse em pintura e após concluir o liceu, parte para Lisboa e é aluno do mestre João Hogan. Frequenta o curso de iniciação à serigrafia em Coimbra com o mestre António José Cardona pelo FAOJ. Participa no Simpósio com pintores soviéticos na cidade de Lisboa, pela escola Voz do Operário e com o mestre Virgílio Domingues participa no curso de investigação para a área da escultura pela Fundação Calouste Gulbenkian. Trabalhou como designer de criação gráfica e de conteúdos publicitários para a Brindex Portugal. Em Paris, na Dubuit, concluiu o curso para primeiro-oficial de serigrafia cor-a-cor e em Bensaçon na mesma empresa, concluiu o curso de corte e quinagem para flexografia. Actualmente, dedica-se à pintura, desenho, serigrafia, escultura, instalações e impressões em superfícies concavas e convexas assim como frisos gigantes em tampografia. Tem atelier na vila de Belmonte e nas cidades de Lisboa e Guarda. Produziu e participou em mais de 140 exposições em Portugal, França, Espanha, Suíça, Inglaterra e Brasil. Está representado em quase todos os continentes e referenciado em revistas e livros da especialidade.

Na obra de A. M. a música já não dissolve a matéria. Tornou-se em eco dos espectros. Vozes de vozes, que nunca se hão-de encontrar. As palavras ficam pequeninas, encolhidas num canto, como sentinelas impotentes. Que flutuam em águas revoltas, abandonadas à sua sorte. Cada vez mais perto dos seixos arrastados pela água dos rios. Ou da areia batida pelas ondas. Ou das árvores fustigada pelo vento. Nessa entrega desmesurada, o autor mostra-nos sempre o campo aberto. As imagens que revolvem os sonhos, mas que aconchegam como uma braseira. A doçura que se pode encontrar na aspereza das pedras. O percorrer de uma corda esticada sobre os espelhos desfeitos. Os nomes antigos das ruas que não levam a parte nenhuma. Os pássaros rasantes que nos tocam e nos deixam.

Contemplar a obra de Aníbal Monteiro sempre suscita a comodidade. Está lá a aspereza, o desconforto. Mas quase sempre nos obriga a dar o passo seguinte, quando pensamos que somos incapazes de reconhecer um limite, quando ele é real. E quando isso acontece, assemelha-se ao crime perfeito, tanto na engendração com nos efeitos. Para isso, abre para nós frestas impossíveis, alçapões, inesperados, abismos sem fim. Não para nos debruçarmos sobre eles. Mas para que saibamos usar cordas, construir pontes, como se fosse uma questão de vida ou de morte. A arte, é sabido, não cria novas ferramentas, mas obriga a confiar nas que existem. E a acender o fogo em qualquer lugar. E, se não chegar, conseguimos ouvir Xerazade contando mil histórias que, afinal, são só uma.

Guarda, 22 de Junho de 2019
António Godinho Gil
godinhogil@gmail.com
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