"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Teatro

A Noite dos Visitantes, de Peter Weiss

Esta peça popular, escrita em verso e traduzida – na verdade, uma versão – pelo Mário Barradas nos anos setenta, é uma parábola.

20 Jan a 24 Jan 2026

CCC - Centro Cultural e Congressos de Caldas da Rainha
R. Dr. Leonel Sotto Mayor 23D, 2500-227 Caldas da Rainha
Esse é um motivo de interesse maior: praticar uma estética que se opõe à literalidade, desde logo nas falas, à cópia naturalista do real, gerando na comparação, através de um desvio narrativo (uma analogia) o que é o termo da comparação. Fazê-lo entre referências ao kabuki, ao teatro de guignol, ao circo e ao trabalho clownesco, mais nos afasta desta peste contemporânea que é a representação em registo de novela, afundada na irrelevância sobrevalorizada e na psicologia culinária, mole e destituída de potência de ignição enérgica para o jogo dos actores, de energia motivadora de atenção.

É no “entre”, na relação cena/sala, que tudo se passa – as escritas para teatro são as escritas da energia “partiturada” desse “entre”.

Neste caso, em contexto de ar livre, através de um trabalho de criação pensado para as exigências de escala do ar livre – ar livre não é necessariamente teatro de rua. É um exterior que se busca, ou seja, um edifício apropriado, boas condições acústicas e privilegiadas para o exercício do olhar, a procura da atenção comprometida e criada por essa troca enérgica que uma representação viva tem de elaborar.

A história é elementar: dois “visitantes” (dois homens armados, dois exércitos) entram por uma casa camponesa dentro (um país), ocupando-a e fazendo da família (mãe e dois filhos) reféns, enquanto o pai, que ao elencar tudo aquilo que tinham para lhes dar, falou de ouro escondido num cofre, sai e vai supostamente desenterrá-lo no canavial.

A fenómenos semelhantes temos assistido, forças ocupantes e povos massacrados, sejam as razões geoestratégicas ou apenas materiais, de esbulho imediato, metais raros, petróleo, lítios, etc… Saímos há uns anos da guerra fria e estamos em plena guerra quente – a contabilidade dos mortos não cessa de crescer perante a nossa impotência, passividade, e as forças imperiais mantêm a “paz planetária” num inferno constante.

Na peça, é o ouro que é chamariz e, no fim, na prometida arca da fortuna, existem beterrabas – a parábola é obviamente uma forma “estranhada” (desviada) de contar uma história.

Com as beterrabas nas mãos, o casal de irmãos, que sobrevivem, sai em direcção ao futuro, esse é o tempo que lhes resta diante. É um fim, imaginado a partir de uma mortandade generalizada, uma única possibilidade do refazer a vida: o refazer desde a raiz de uma vida que esgotou as suas formas sociais e comuns de existência e que perdeu referências ideais de estruturação. Será possível?

Esse é porventura o exercício proposto pela parábola.

O futuro, neste caso, só pode ser essa invenção, futuro não prescrito, como se as memórias acumuladas dos gestos históricos de emancipação fossem suspensas em nome de um recomeço radical das possibilidades de organizar uma sociedade face aos falhanços generalizados. Nada mais que pernas, mãos, e beterrabas, sendo as beterrabas a riqueza, alimentação, a sobrevivência em busca de vida – durante a peça as crianças dão sinal bem claro, expressivo, de vitalidade e capacidade crítica.

Com beterrabas nas mãos, aí vão eles em direção ao futuro – Marte na entra na fábula a contar -, um futuro a erguer por cima dos cadáveres que em cena dizem os limites a que a loucura venal sistémica, capitalista, e os poderes imperiais nos têm conduzido.

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