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Exposições

"Realidedarana" de Beatriz Manteigas

A mostra reúne cerca de quarenta obras de várias séries, realizadas em suportes e técnicas diversas, como desenho, colagem, assemblage, impressão térmica, fotografia e vídeo. Curadoria de João Silvério.

Les Sylphides VII, 2025. Técnica mista sobre papel, 198 x 138 cm. Créditos fotográficos: Filipe Braga

23 Jan a 18 Mai 2026

Centro Cultural de Cascais
Avenida Rei Humberto II de Itália | 2750-800 Cascais

O trabalho de Beatriz Manteigas tem, na duplicidade da sua prática, uma componente plástica ligada à manufatura e aos artefactos do atelier e uma outra, talvez mais nómada por se sentir parte ativa do mundo natural e, deste modo, uma agente e respigadora de cruzamentos culturais, modos de viver, modos de cultivar e experienciar a terra onde assenta os seus pés desassossegados.

A sua obra é transversal na articulação de conceitos da filosofia, da escuta da oralidade e da expressão escrita, que também pratica e é patente nas diversas formulações e procedimentos que enriquecem uma posição crítica e uma estruturada consciência política aliada a uma poética do gesto que se combina com uma singular paleta cromática que as suas obras denotam.

A artista e investigadora propõe-nos uma exposição como um itinerário de um permanente work in progress constituído por obras de diferentes séries, trabalhadas em diversos meios e técnicas: o desenho, a assemblage, a impressão térmica, a colagem, a fotografia, uma peça de som e um documentário fotográfico projetado em formato vídeo sobre a sua última viagem de residência na Amazónia. As séries são importantes no trabalho de Beatriz Manteigas porque se revelam através de uma vontade sistemática e cumulativa de experimentar, como uma metodologia que desenha as coordenadas de um caminho de investigação e de exploração no trabalho de campo, regressando ao universo visual como uma interrogação ao espectador e à sua própria prática artística e reflexiva.

Neste sentido, a sua tese de doutoramento, intitulada Linha de Vida - desenhar metáforas do real, lança um repto ao "real” como tema e ao “desenho” enquanto forma de perceção, questionamento e possível marca do lugar da experiência. Neste contexto, em que a linguagem escrita é presente como visualidade poética e semântica, uma das suas séries, intitulada “Monólogos”, inclui uma obra central nesta construção dialógica entre vozes que ressoam intervenientes nas figuras do opressor e do oprimido, a peça "BEDTIME ARGUMENTS” (2024), exemplar de formulações, dúvidas e especulações a partir da experiência do lugar.

Nesta dualidade aparente, a artista abre um campo de possibilidades entre a fenomenologia e a metáfora, a citação e a recontextualização, a voz que clama por outras vozes, que se transformam por uma ação íntima em imitações umas das outras e assim em todas as outras, permitindo percecionar a realidade rana. O sufixo rana é um exemplo do cruzamento das línguas, da portuguesa falada através do caboclo amazonense, que se torna parte da designação das espécies que imitam outras e, na obra desta artista, surge como escultura nos trabalhos, em registo documental, da mais recente residência de investigação que a artista ali começou a desenvolver. Esta ideia, mas também estas imagens, estão presentes nas pesquisas de Beatriz Manteigas, tanto na relação das diversas espécies naturais como na forma como o humano as tem dominado, sequestrado e até demonizado, consoante as estratégias materiais e económicas das sucessivas investidas do nosso suposto progresso. Sob este aspeto, mas numa dimensão poética e de forte plasticidade da obra da artista, a instalação de desenhos de apreciável dimensão intitulada “Les Sylphides” assume na escala, na proporção, na proficiência do desenho e da sua pintura, um domínio dos limites do suporte e da sua eficácia visual. Esta série é inspirada na história e interpretação de um ballet romântico do século XIX intitulado “La Sylphide” (c. 1832), que narra uma paixão trágica entre um jovem escocês e uma fada, a sílfide do título, dualidade que o encantamento projeta como sonho, potência e utopia da beleza eterna. O desfecho desta narrativa encontra-se no mistério da revelação e da morte, entre a natureza que aprendemos a conhecer e a razão que tudo parece conhecer.

Este tema e figura da sílfide foram também objeto de uma outra obra performativa, criada para os Ballets Russes de Diaghilev na primeira década do século vinte, ou seja, no momento da assunção das vanguardas que transformaram e renovaram diversas conceções da estética e da arte. O bosque e as sílfides aproximam-se de outras imagens e desenhos da exposição que, sem a pretensão da rotura vanguardista dos ballets russes, são obras que renovam a nossa construção do olhar sobre a plasticidade manual, sem correções, genuína como a reprodução em grande formato impresso no verso desta brochura.

Toda a exposição é, por um lado, um ensaio e, por outro, um breviário de projetos e trabalhos que transitam, em permanente transformação e interconetividade, entre lugares e comunidades: da exposição e instalação recente na Casa da Cerca, em Almada, para o seu atelier na Quinta das Relvas, no centro do país, onde ocorrem residências para artistas e daí, onde a permacultura é a base de um modus vivendi, para outro lugar de pesquisa, como por exemplo a Amazónia, ao encontro desse contexto natural e cultural vivo que desenhou o título desta exposição: realidaderana.

João Silvério
Curador

Beatriz Manteigas (Lisboa, 1990) é uma artista visual portuguesa cuja prática se desenvolve entre o desenho, abordagens interdisciplinares e práticas baseadas na investigação.

Doutorou-se em Desenho pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em 2022, com o apoio de uma bolsa de investigação da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Possui ainda um Mestrado em Anatomia Artística (2014) e uma Licenciatura em Pintura (2012) pela mesma instituição, onde atualmente é professora de Desenho. A sua formação inclui também passagens pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (2011-2012), Academia Real de São Petersburgo (2011) e Universidade Politécnica de Valência (2010-2011). Por curtos períodos viveu ainda em Düsseldorf (2013) e Londres (2009).

Em 2016, co-fundou a Associação Quinta das Relvas, uma associação dedicada à educação não-formal em artes e sustentabilidade, sediada numa quinta crescentemente ecológica onde atualmente vive e trabalha, presidindo à direção e coordenando o Departamento de Artes. Nesse mesmo ano, tornou-se investigadora colaboradora do CIEBA – Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Desde 2009, o seu trabalho tem sido apresentado em exposições e projetos nacional e internacionalmente, em países como a Bélgica, Brasil, República Checa, Inglaterra, Escócia, Espanha, Turquia e Estados Unidos da América. Participou igualmente em residências artísticas no Brasil, Grécia, Portugal, Espanha e Estados Unidos da América, para as quais contou com bolsas e apoios concedidos pela FLAD - Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (2025), Fundação Calouste Gulbenkian (2024 e 2025) e Culture Moves Europe (2023).

As suas obras integram coleções públicas e privadas em Portugal e no estrangeiro.

Paralelamente à sua prática artística, trabalhou como ilustradora entre 2009 e 2014, colaborando em livros infantis, revistas e jornais, dos quais, o Diário de Notícias.

Horário: 
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada às 17h40

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