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Exposições

"Que Azul?" de Pedro Mendes Leal

Na exposição Pedro Mendes Leal parte de uma memória reminiscente da sua juventude, que se revelou fundadora da sua relação com o mundo enquanto artista e ser humano.

23 Jan a 18 Mai 2026

Centro Cultural de Cascais
Avenida Rei Humberto II de Itália | 2750-800 Cascais

“Numa tarde de primavera, sentei-me num muro a olhar para o mar, o céu, o horizonte e o infinito. Dei por mim, cinco horas passadas, sem me lembrar de mais nada, nem do que tinha acontecido. Já era noite e eu ali estava, numa espécie de transe, suspenso no tempo…”

Essa experiência de suspensão do tempo surge como matéria sensível, na qual memória, corpo e paisagem se confundem, abrindo um intervalo — um espaço de distância, de silêncio e de escuta, habitado por um azul profundo.

É a partir desta premissa que Pedro Mendes Leal desenvolve a sua pesquisa: voltar a encontrar aquela sensação de azul, questionando simultaneamente a perceção que cada indivíduo tem dessa cor. Fá-lo por meio de uma técnica fotográfica do século XIX, a cianotipia, cuja etimologia remete para o grego kyanós (azul escuro, azul profundo) e týpos (marca, impressão, vestígio, molde), significando literalmente “impressão azul”.

Apesar de recorrer a meio fotográfico tradicionalmente associado ao realismo ou ao documento - Pedro cria imagens de carácter abstrato: paisagens compostas por mar, céu, luz e vento. As suas imagens são paisagens fenomenológicas, nas quais estes elementos são “capturados” para dar origem a uma imagem mental.

À semelhança dos artistas do Renascimento, que produziam as suas tintas a partir de pigmentos vindos do Oriente, Pedro procura obsessivamente a sua própria paleta de azul. Experimenta sucessivas misturas de emulsões, aplicadas em diferentes suportes, com diferentes tempos de exposição e sob condições atmosféricas distintas.

O trabalho apresentado nesta exposição divide-se em dois grupos. Na série À procura do azul-céu, é desenvolvido um processo sistemático de experimentação cromática. Testando diferentes emulsões, o artista expõe pequenas folhas de papel (13x18cm) à luz solar, deixando que o azul se revele gradualmente. À semelhança da teoria de Goethe, a cor não é aqui entendida como um dado fixo ou puramente físico, mas como um fenómeno relacional, que emerge do encontro entre luz, matéria e perceção. A acumulação destas variações constitui uma amostra organizada como a imagem de um céu possível, simultaneamente totalidade e fragmento, onde o azul, enquanto experiência de distância e profundidade, convida o visitante à demora, à observação e ao reconhecimento.

A segunda série - Momentos do mar, das ondas e do vento - é composta por imagens obtidas em contacto direto com os elementos. Mergulhadas no mar, estas folhas de papel de grandes dimensões fazem um registo da água, do sal, das ondas, da luz e do vento. Expostas e reveladas quase em simultâneo, resultam de um gesto que implica entrega e atenção, um regresso a um tempo lento: o da preparação da emulsão, da secagem do papel, do aguardar o surgimento da imagem.

Aqui, o local onde as imagens são produzidas assume uma importância central: todas foram realizadas na orla costeira do concelho de Cascais, em proximidade com o Centro Cultural onde são expostas; no Cabo Raso, perto do Guincho, no Marégrafo junto à Marina, e na praia de Carcavelos. É nestes lugares que o artista constrói a sua mitologia pessoal com o mar.

Em todos estes locais há uma ligação profunda aos afetos, mas também uma preocupação ecológica que atravessa o seu trabalho. Neste tempo em que ecossistemas, espécies e climas se encontram profundamente alterados pela ação humana, a escolha do Marégrafo de Cascais - em funcionamento desde 1885 - evidencia a importância da monitorização contínua das marés e do estudo de fenómenos associados ao aquecimento global. Neste sentido, Que Azul? aproxima-se da ideia proposta por Timothy Morton de que toda a arte é ecológica (1), não por representar a natureza, mas por estar inevitavelmente implicada nas relações entre corpos, matérias, tempos e ambientes. As imagens de Pedro Mendes Leal não se limitam a mostrar o mar, o céu ou o vento: elas acontecem com eles, expondo-se às suas forças, às suas variações e à sua instabilidade.

A cianotipia, enquanto processo lento e dependente da luz, do clima e do tempo, torna visível essa condição relacional. Cada imagem resulta de um encontro entre o papel e a água, entre o sal e a luz, entre o gesto humano e os ritmos do mundo natural. O azul que emerge é, assim, um vestígio dessa coexistência, uma marca deixada por um sistema de interdependências que vai além do artista e do visitante. Ao convocar o azul como experiência de distância, Pedro Mendes Leal propõe uma forma de atenção e de escuta de um tempo marcado pela aceleração e pela crise ecológica. Mais do que uma cor, o azul torna-se aqui um espaço de relação: um intervalo onde a perceção se abranda, onde o olhar se implica e onde a arte se afirma como parte integrante do mundo que partilhamos.

(1) Morton, Timothy, All Art is Ecological, Penguin books, London, 2018

João Paulo Serafim
Curador

Pedro Mendes Leal, (Lisboa 1966), é um artista visual cuja prática se situa entre processo e representação, explorando as relações entre a natureza, o ser humano e a memória.

É um apaixonado pela natureza, pelas pessoas e pelas questões sociais, que aborda através do desenho e da fotografia, questionando o Homem na sua relação com o meio ambiente, com a sociedade e com o discurso artístico. Tem participado em exposições coletivas e individuais, em residências e projetos globais ligados à Cianotipia.

Horário:
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada às 17h40

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