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Cinema e Vídeo

Ciclo de Cinema Kinuyo Tanaka

Tanaka Kinuyo (em japonês, o apelido antecede o nome, 1909–1977), ocupa um lugar singular na história do cinema nipónico.

17 Fev a 22 Fev 2026

Academia de Artes do Estoril
Av. Acácias 2, 2765-294 Estoril

Reconhecida internacionalmente como uma das maiores atrizes da era clássica — colaboradora frequente de realizadores como Mizoguchi Kenji, Ozu Yasujiro e Naruse Mikio —, Tanaka construiu também uma obra autoral como realizadora que permanece, ainda hoje, objeto de redescoberta crítica e reavaliação historiográfica. Num contexto industrial marcadamente masculino e tradicionalista como aquele em que viveu, foi a segunda mulher a realizar longas-metragens no Japão (antes dela, apenas há Sakanê Tazuko, com Hatsu Sugata, 1936) e a primeira a desenvolver uma carreira consistente ao longo da década de 1950.

A filmografia dela enquanto cineasta — que inclui os títulos que são exibidos: Koibumi/Carta de Amor (1953), Tsuki wa noborinu/A Lua Ascendeu (1955) e Chibusa yo eien nare/Para Sempre Mulher (1955), Ruten no ohi/A Princesa Errante (1960), Onna bakari no yoru/Mulheres à Noite (1961), Ogi-sama/Senhora Ogin, 1962 — revela uma atenção particular às experiências femininas no Japão do pós-guerra. Tanaka explora, com delicadeza e lucidez, temas como a sexualidade, a maternidade, o estigma social, a marginalização e as tensões entre tradição e modernidade. A abordagem que pratica distingue-se por uma sensibilidade intimista que articula o drama individual com as transformações históricas mais amplas, inscrevendo as trajetórias das suas protagonistas no tecido social e político da época

Do ponto de vista técnico-formal, a sua mise-en-scène privilegia a expressividade contida, a composição rigorosa do espaço e uma direção de atores que evidencia a interioridade das personagens. Se a experiência como atriz lhe conferiu uma compreensão profunda do trabalho interpretativo, Tanaka, enquanto realizadora, constrói um olhar próprio, que evita quer o melodrama excessivo quer a abstração formalista, com a câmara a acompanhar os corpos femininos não só com empatia, mas também com uma consciência crítica das estruturas que os condicionam.

Durante décadas, a receção da sua obra foi ofuscada pela centralidade dos grandes mestres masculinos do cinema japonês. Contudo, análises críticas mais recentes, sobretudo no âmbito dos estudos de género e da historiografia do cinema, têm sublinhado a importância do contributo dela enquanto autora que introduz uma perspetiva feminina, ou feminista, num sistema de produção dominado por homens. A filmografia de Tanaka constitui hoje um corpus de enorme importância para a compreensão tanto da representação das mulheres no cinema japonês clássico, como das possibilidades de uma intervenção criativa feminina no interior de uma indústria fortemente hierarquizada, como acontece com tudo no Japão ainda hoje.

Deste modo, a obra de Tanaka Kinuyo afirma-se como um território de resistência subtil e de invenção estética, onde a experiência feminina é tratada com complexidade, dignidade e densidade histórica. A sua redescoberta contemporânea não é apenas um gesto de justiça historiográfica, mas o reconhecimento de um verdadeiro auteur que enriquece decisivamente o panorama do cinema japonês do século XX.

PROGRAMA

Auditório Carlos Avilez - Academia de Artes do Estoril
Edifício Cruzeiro 17 a 22 de fevereiro | 21h

17 fev
Carta de Amor - Love Letter (1953)

18 fev
A lua ascendeu - The moon has risen (1955)

19 fev
Para sempre mulher - Forever a woman (1955)

20 fev
A princesa errante - The wandering princess (1960)

21 fev
Mulheres da Noite - Girls of the night (1961)

22 fev
A senhora Ogin - Ogin-sana (1962)

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