"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Teatro

"O Rinoceronte" a partir de Eugène Ionesco

Nesta nova criação, o Teatro da Garagem debruça-se sobre um dos maiores clássicos do teatro do absurdo para recuperar uma inquietação que julgávamos histórica e descobri-la perigosamente atual.

© Carlos Porfírio

12 Mar a 22 Mar 2026

Teatro Taborda
Rua da Costa do Castelo, 75, 1100-178 Lisboa

Há peças que regressam.
E há peças que regressam a nós como um espelho que, subitamente, decide não colaborar.

Em palco, Dai Ida, Pedro Lacerda, Rita Loureiro e Rui Maria Pêgo sustentam, com o corpo e a voz, esta fábula inquietante sobre a transformação coletiva e a erosão silenciosa do pensamento crítico. Quatro presenças que resistem à metamorfose enquanto o palco à sua volta cede.

Numa cidade banal, as pessoas começam a transformar-se em rinocerontes. Um a um. Depois quase todos.

A metamorfose deixa de ser exceção e instala-se como norma.

É o elenco que habita esse limiar como figuras que ainda reconhecemos como humanas e, por isso, carregam dúvida, hesitação, cumplicidade, covardia. O que os torna inquietantes não é o que se transforma. É o que resiste e como.

Nesta reinterpretação, a encenação de Carlos J. Pessoa constrói um espaço instável, onde a transformação deixa de ser metáfora distante para se tornar processo visível. Já a dramaturgia de Cláudia Madeira, afina o texto de Ionesco com as vibrações do presente, sublinhando a fluidez das identidades, a fragilidade das convicções e a velocidade com que o que damos por adquirido pode ser perdido.

Rita Loureiro traz ao palco uma carreira construída nos maiores teatros portugueses e no cinema de autor, com uma fisicalidade que distingue interpretar de habitar. Pedro Lacerda, figura central da cena contemporânea, percorreu décadas de teatro de linguagem com o rigor de quem sabe que cada gesto é uma decisão política. Rui Maria Pêgo, formado na Bristol Old Vic Theatre School e na Royal Academy of Dramatic Arts, traz uma precisão técnica que aqui serve a ambiguidade, não a certeza. Dai Ida, artista brasileira radicada em Lisboa, acrescenta uma presença que transita entre performance e palavra, fazendo do corpo território de resistência.

Juntos constroem um campo de forças onde a pergunta central da peça se torna inevitável: como permanecer humano num tempo que se habitua à desumanização?

Se Ionesco escreveu sob a sombra do totalitarismo, esta encenação interroga a des-democracia, esse território confortável onde o consenso substitui o debate e a unanimidade dispensa pensamento.

O RINOCERONTE
a partir de Eugène Ionesco

Encenação de Carlos J. Pessoa

12 a 21 de Março (vários horários)
Bilhetes 12€ à venda na see tickets. Descontos disponíveis!

UM PRODUÇÃO DO TEATRO DA GARAGEM
Fundado em 1989 e dirigido artisticamente por Carlos J. Pessoa desde então, o Teatro da Garagem construiu um percurso singular na cena portuguesa . Assente na tensão entre linguagem cénica e pensamento crítico, elege o texto como dispositivo e o corpo como argumento. O seu trabalho tem insistido numa ideia simples e exigente: o teatro não é ornamento cultural, é pensamento em ato.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Encenação: Carlos J. Pessoa
A partir de: Eugène Ionesco
Dramaturgia: Cláudia Madeira
Assistência de encenação: Luís Puto
Interpretação: Dai Ida, Pedro Lacerda, Rita Loureiro, Rui Maria Pêgo
Sonoplastia e operação de som: André Carinha
Desenho e operação de luz e vídeo de cena: Carlos Vinícius
Registo de fotografia e vídeo:: Carlos Porfírio | Puro Conceito
Costureira:: Ana Mateus
Direcção de produção: Raquel Matos
Produção executiva: Luís Puto e Rita Soares
Comunicação: this is ground control

Apoio: Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC, Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, NOVA FCSH
Financiamento: Direcção-Geral das Artes — Ministério da Cultura, Governo de Portugal.

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