Exposições
Expo 40 anos + 1 | Revisitação dos cenários para “O Lavrador da Boémia” e “Letra M”, de Johannes von Saaz
A sinalizar os seus 40 anos de existência, o Teatro da Rainha tem vindo a promover um conjunto de exposições, de natureza interdisciplinar, que permitirão ler tanto a sua “diáspora interna” — a residência prolongada em cidades e o trabalho teatral realizado em edifícios distintos —, como o curso extenso e plural das suas práticas de repertório e encenação.
7 Abr a 11 Abr 2026
Esses 40 anos traduzem um tempo de vida que, partindo dos efeitos propulsores do 25 de Abril em 1985 — iniciámos a segunda fase da descentralização — sofre as diversas crises que assolaram a nossa democracia e a titubeante política — a sua ausência substituída por remendos de ocasião — que nunca assumiu a emancipação cultural do país ao serviço da democracia, como responsabilidade do Estado Democrático contra os privilégios centralistas, uma política virada para possibilitar a fruição dos clássicos e contemporâneos, o rigor profissional de uma tradição de milénios, de Ésquilo a Crimp, de Antoine e Max Reinhardt a Brecht e Strehler, Vitez e Brook, de Vicente a Fosse, do edifício grego aos cenários de Yannis Kokkos, etc. Uma política elitista para todos, como alguém disse.
As pinturas de João Vieira que glosam o texto de Johannes von Saaz – clássico boémio (da Boémia) do século XIV – fazem parte de uma galeria de arte do inferno, corte em que reina a figura da Morte. Elas ilustram – retábulo – o que a Morte, entidade ao serviço de Deus com funções malthusianas, vai fazendo, num emprego que lhe é consagrado eternamente. Assim como Deus o é, a Morte também o é. E que vemos? Assistimos aos seus feitos, sempre triunfante, relatados no texto e observados simultaneamente. Como na pintura religiosa das igrejas, nas paredes do lugar expositivo, o antigo sótão da Lavandaria do Hospital Termal, espaço com o seu quê de fabril, a Morte, sabe-se, é uma serial killer, uma fábrica de produção em série. Assim, vemos retratada a jovem mãe ceifada pós-parto (o caso da peça de Saaz), a criança estranhamente doente terminal, etc. Os quadros ilustram o texto, um longo protesto do poeta Saaz contra os poderes concedidos por Deus à Morte.
Esta exposição será animada com a leitura encenada de O Lavrador da Boémia, a peça em causa, realizada por Hâmbar de Sousa, Fábio Costa e Fernando Mora Ramos. O que se pretende é um regresso aos espetáculos, à sua memória, que transporte para os agora espectadores o espírito dos anteriormente feitos numa verdadeira ressurreição – daí a ideia de os reencenar num ambiente foto-cenográfico inesperado.
LEITURAS ENCENADAS:
7 de abril | 19h
11 de abril | 17h

