Exposições
Paula Rego: Meninas Exemplares
A mostra explora a temática menina-mulher e a influência da literatura no universo da artista.
31 Mar a 31 Jan 2027
Partindo do núcleo de obras apresentadas na exposição Meninas exemplares, organizada pela FDL I/CHPR no Museu Grão Vasco, e outras que acompanharam a apresentação do filme de João Botelho As meninas exemplares em vários cineteatros de norte a sul de Portugal, a nova exposição na Casa das Histórias Paula Rego destaca as meninas-mulheres na obra da artista. O título desta exposição remete para o texto literário Meninas exemplares, da Condessa de Ségur (1799–1874), que cativou a artista desde a sua infância. Os contos da Condessa de Ségur e, entre eles, Os desastres de Sofia, editados em Portugal pela Coleção Azul, são por ela lidos avidamente quando ainda criança. Contam as histórias de raparigas bem-nascidas que se portam terrivelmente, causando problemas.
Curadoria: CATARINA ALFARO
“As minhas rapariguinhas vêm todas da tradição francesa, mais do que da tradição inglesa”. “Lembro-me de a mãe [de Sofia] a obrigar a usar as abelhas todas cortadas num colar de abelhas. Ela pegou numa faquinha e também cortou os peixinhos. Todas as meninas bem-comportadas adoravam ler sobre meninas marotas. E más. Esse era o meu mundo”, afirma Paula Rego, pois cedo se apercebeu de que há um lado selvagem e brutal nas crianças, que lhes dá poder sobre os adultos. A infância não é o lugar da inocência, pelo contrário, a inocência é uma aprendizagem constante ao longo da vida. Já a ferocidade e, com ela, a nossa capacidade destrutiva, acompanham-nos desde sempre, como também referiu a artista: “Sabemos tudo, desde o momento em que nascemos. Violência. Raiva. Desespero. É por isso que os bebés gritam.”
As brincadeiras da infância, o lado perverso, cruel e brutal das crianças, foram igualmente explorados poeticamente por Adília Lopes (1960–2024) que em junho de 2000 convidou Paula Rego a criar imagens para um livro que pretendia publicar, reunindo toda a sua obra. Aceite o desafio, a artista selecionou dois poemas — “O vestido cor de salmão” e “Joaninha a ladra” — que serviram de inspiração, respetivamente, para as litografias coloridas à mão O vestido cor de salmão e Comunhão, expostas na Sala 2 acompanhadas pelos poemas que estão na sua origem. A admiração pelo universo literário da “divina Condessa” — como a apelidou Adília — é partilhada na troca de correspondência entre ambas. A poeta assegura que as gravuras de Paula Rego “são as gravuras do século XIX dos livros da Condessa de Ségur”, afirmando que “a Paula captou o meu lado hardcore, sacrílego”; já a artista considera que na poesia de Adília Lopes “a maldade é reconhecida mas não é praticada, sem ser maledicente reconhece o que é importante no mal. A maldade é o outro lado das coisas boas.” As características emocionais e comportamentais das meninas, assim descritas por Adília Lopes nos poemas, revelam, de modo mais enfático, aspetos da personalidade de ambas as criadoras: desafiadoras, desconcertantes, irreverentes, e que afirmam a sua expressividade num país manifestamente patriarcal e católico, e ainda marcado pela rigidez da realidade política e social. A exposição reflete este imaginário partilhado da infância que se constrói a partir da ambiguidade do estado de ser criança, entre a inocência e a extrema crueldade. Nas narrativas pictóricas, as visões interiores de Rego sobrepõem-se ao que é descrito nas histórias originais, explorando mais profundamente a memória das experiências da infância, em que o bem e o mal coexistem sem estratégias de compromisso.
Muitas das personagens femininas de Paula Rego não se parecem com crianças, mas também não assumem completamente feições e atitudes de adultos, pois a artista gosta da ideia de pôr as crianças a desempenharem papéis de adultos. Esta poderá ser uma das razões para a descrição fisionómica e caracterial dúplice das suas meninas, que agem por determinação própria, como adultas, assumindo papéis que estão muito além da sua idade. Na origem destas raparigas-mulheres está uma menina de doze anos que Rego encontrou na Feira do Alhos, na Ericeira, em 1957. Era feirante com o seu pai e ambos geriam uma tenda que apresentava um teatro de marionetas. A criança desempenhava todas as tarefas necessárias ao funcionamento do espetáculo. A sua eficiência impressionou-a de tal modo que determinou o caráter de todas as crianças que criou nas suas histórias pintadas: “Fiquei muito impressionada com esta criança, que era tão eficiente e capaz de lidar com a vida adulta. Acho que todas as crianças que interpretei desde então têm a ver com essa menina, sabe. Eu tinha vinte e poucos anos e dei-me conta de que havia algo que eu reconhecia nessa mulher, nessa menina — nessa menina-mulher —, algo eterno e tremendamente português.”
A forte presença feminina impõe-se, mesmo quando as suas personagens são representadas em idade pueril. Será justamente o que acontece em Jovens predadoras, uma das oito águas-fortes e águas-tintas da série “Menina e cão”, de 1986, que se centram nas interações estabelecidas entre um grupo de raparigas, homens e um ou mais cães. Envolvidas em jogos de poder, quase sempre associados à sedução, estas adolescentes sábias e de olhos doces desafiam e atacam as únicas criaturas com menos poder do que elas na hierarquia doméstica. Se há algo de maternal nestas cenas, essa qualidade dissipa-se a favor da carga sexual que nelas está explícita.
A soberania da dimensão psicológica destas meninas-mulheres não depende tanto das histórias de onde são quase sempre resgatadas; muitas vezes, o que exponencia a construção do caráter é a intensificação da sua presença nos desenhos, pinturas e gravuras, quando a solidez da sua matéria corpórea é evidenciada pelo virtuosismo da representação realista. Os corpos revelam vivências e estados emocionais que são expressos através da representação de sensações físicas, colocando-nos diretamente no seu centro afetivo. Exemplar neste aspeto é a última litografia da série “Jane Eyre” (Sala 3), Vem a mim, de 2001–02, que é decisiva para o tratamento psicológico da personagem principal, Jane, sugerindo a sua complexidade, a sua hesitação em aceitar um destino que será sempre, de certo modo, sacrificial. Estas litografias coloridas resultam de uma apropriação transformadora do romance vitoriano da escritora Charlotte Brontë (1816–1855) e destacam o sofrimento, a determinação e o caráter independente da sua protagonista. Tanto nesta série, como na série “Bruxas de Pendle”, inspirada nos poemas homónimos de Blake Morrison (Sala 3), de 1996, há imagens que estabelecem uma poderosa relação entre a natureza feminina e o seu domínio da natureza (Amando Bewick, Pântano de Whinny, por exemplo).
Ele, uma água-forte e água-tinta incluída na série de gravuras de 1996, inspirada num outro poema de Blake Morrison, The Ballad of the Yorkshire Ripper, foi considerada uma das imagens mais chocantes alguma vez concebida pela artista, pela ambiguidade entre a violência, a estranheza e a sedução com consentimento da vítima, uma menina. Representa uma situação de ataque a uma rapariga por uma figura de corpo masculino com cabeça de lobo, o homem enquanto predador/violador. Abocanhando violentamente o seu ombro, o predador é estranhamente acariciado por ela, enquanto o olha com algum consentimento.
A série de seis gravuras a água-forte e água-tinta intitulada “Mutilação genital feminina” (2009) (Sala 6) tem um caráter absolutamente diverso por revelar a intervenção cívica de Paula Rego pelos direitos das meninas/mulheres e contra a violência de género. Nestas perturbadoras gravuras, a artista expõe um problema social terrível, com contornos religiosos, que atinge sobretudo as meninas entre o nascimento e a puberdade. As crianças que estão prestes a serem abusadas estão completamente indefesas e o seu olhar é de súplica. As que já foram sujeitas à mutilação surgem inanimadas, cosidas e atadas, como na água-forte que se intitula, justamente, Cosida e atada. A única imagem de conforto, de uma aparente fuga ao destino trágico, surge na última das gravuras desta série, precisamente intitulada Fuga.
O regresso à infância está sempre presente na obra de Paula Rego e é essencial para a construção de um universo singular. Em criança, na intimidade do seu quarto, ela recolhia-se no processo tátil que é desenhar para dar formas eloquentes aos seus sentimentos. É através desse combate expressivo e transformador da realidade, ou fuga pela expressão do desenho que, ainda criança, sublimava os seus medos, transformando-os para se libertar deles. Esse processo de sublimação será sempre a matriz e a força transfiguradora das histórias que se propõe contar.
Catarina Alfaro
Coordenadora de Programação e Conservação da Casa das Histórias Paula Rego
Horário: De terça a domingo, das 10h às 18h

