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Exposições

O Exilado: da criação à conservação

A nova exposição na Casa das Histórias Paula Rego, é dedicada ao estudo técnico e ao restauro da obra “O Exilado” de Paula Rego. Pela primeira vez, o museu apresenta uma mostra exclusivamente dedicada ao estudo técnico e ao restauro de uma obra de Paula Rego, abrindo ao público um processo que habitualmente decorre longe do olhar dos visitantes.

Paula Rego, O exilado, 1962-63

31 Mar a 31 Jan 2027

Casa das Histórias Paula Rego
Av. da República, 300 2750-475 Cascais

Curadoria: Catarina Alfaro, Sara Babo, Laura Bacalhau, Sílvia Sequeira

A investigação combinou observação visual, aquisição de imagens com diferentes tipos de radiação, análises laboratoriais e uma extensa pesquisa documental, incluindo a recolha de registos fotográficos anteriores. Esta abordagem revelou-se essencial para compreender o processo criativo da artista, identificar os mecanismos de degradação da obra e fundamentar, de forma criteriosa, as decisões de conservação adotadas. Dando continuidade à exploração da fase inicial do trabalho de Paula Rego e depois das exposições 1961: Ordem e Caos (2014) e Manifesto (2024), a Casa das Histórias Paula Rego/ Fundação D. Luís I propõe uma abordagem específica numa obra deste período para compreender, de modo mais abrangente o processo criativo automático que está na origem das “pinturas-colagens”, uma técnica de pintura que inclui o recorte de papéis e a sua colagem sobre a tela. Este processo de construção pictórica é explicado pela artista: “Porque é que eu corto as coisas? Para haver uma modificação e uma transmutação que é torná-las abstratas. Não posso fazer os quadros sem um processo de transformação, senão fazer o quadro seria uma coisa direta e insuportável.”

Esse processo das “pinturas-colagens”, realizadas a partir dos anos de 1960, permite-lhe encontrar as histórias e sobretudo possibilita a sua “transmutação”. A sobreposição de tintas e camadas de papéis em colagens sucessivas, a sua articulação posicional na tela, o arrancar para obliterar o que está a mais — para que as composições-histórias fiquem bem definidas, mas simultaneamente abstratas —, tudo isto produz um efeito desviante de uma previsível unidade temática que tem origem na história que a artista quer contar. A história inicial é, assim, modificada a partir do universo pictórico intrincado que é sempre trabalhado numa lógica desconstrutiva ou indireta.

Testes microquímicos confirmaram a utilização de diversos tipos de papel, com composições variadas. Alguns contêm materiais menos estáveis, como lenhina e metais, que contribuem para o amarelecimento, a fragilidade mecânica e as alterações cromáticas observadas em algumas partes da obra.

Curiosamente, verificou-se que as zonas de papel cobertas por PVAc apresentam menor grau de amarelecimento, sugerindo um efeito de proteção parcial deste adesivo face a agentes de degradação.

A paleta cromática da obra evidencia a predominância de pigmentos sintéticos modernos, característicos da prática artística da década de 1960. Embora Paula Rego recorresse, nas colagens, a materiais disponíveis de forma imediata, no que respeita às tintas referiu a utilização de marcas específicas de materiais para belas-artes, revelando um critério de qualidade na sua escolha.

Foram identificados pigmentos considerados estáveis à luz, como certos azuis sintéticos e os brancos modernos. No entanto, a estabilidade cromática revelou-se dependente não apenas do pigmento, mas também do suporte e do meio em que foi aplicado. Por exemplo, o azul-ultramarino, embora estável à luz, apresentou degradação em zonas sobre papel, provavelmente relacionada com a sua sensibilidade a ambientes ácidos. Nos vermelhos e amarelos identificaram-se pigmentos orgânicos sintéticos, menos resistentes à luz, mas amplamente utilizados nas décadas de 1950 e 1960 pela sua intensidade cromática. Parte de um desenho em que foi usado um destes vermelhos, à base de Lithol Rubine BK, desvaneceu, confirmando a sua vulnerabilidade.

Estas características materiais explicam, em grande medida, as alterações atualmente observáveis na obra. Ao longo de mais de seis décadas, O exilado sofreu transformações irreversíveis: algumas cores perderam intensidade devido à exposição prolongada à luz; os pastéis, naturalmente friáveis, sofreram abrasão; os papéis tornaram-se mais frágeis e amarelados; e surgiram deformações e destacamentos resultantes do envelhecimento diferenciado dos materiais que coexistem na obra.

Longe de serem meros danos isolados, estas alterações resultam da interação complexa entre pigmentos, aglutinantes, suportes e ambiente, tornando-se hoje parte integrante da leitura material da obra.

A INTERVENÇÃO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURO
A intervenção teve como principal objetivo a estabilização da obra, afetada por sujidade superficial, deformações, destacamentos generalizados e desvanecimento das cores. Com base no diagnóstico e na caracterização técnica e material, realizaram-se ações de limpeza, tratamento das deformações, consolidação dos materiais instáveis, adesão dos papéis, preenchimento de lacunas e reintegração cromática pontual, com metodologias adaptadas à natureza heterogénea dos materiais.

Nem todas as alterações puderam ser revertidas. Muitas resultam das escolhas técnicas da artista e do envelhecimento natural dos materiais, constituindo parte da história material da obra. As decisões tomadas seguiram os princípios éticos da conservação e restauro — intervenção mínima, compatibilidade dos materiais e reversibilidade — garantindo a estabilidade da pintura e a sua apresentação em condições seguras de exposição.

 MATERIAIS, TÉCNICA E PROCESSO CRIATIVO 
O exilado, cujo título completo é O exilado (Um velho exilado sonhando a sua juventude), foi realizado sobre um suporte preparado pela própria artista. Sobre a tela de linho, esticada numa grade de madeira, foi aplicada uma camada oleosa de primário antes de ser pintada. A pintura, ou camada pictórica, integra pintura, desenho e colagens. Identificam-se materiais muito diversos, como tinta a óleo, pastéis secos, pastéis de óleo, lápis de cera e colagens com diferentes papéis, fixados com um adesivo à base de poli(acetato de vinilo) (PVAc), vulgarmente chamado de cola branca.

A caracterização técnica, incluindo a refletografia de infravermelho, revelou desenhos subjacentes, alterações compositivas e colagens ocultas sob a superfície pintada. Estes vestígios evidenciam um processo criativo marcado pela experimentação, pela modificação contínua e pela sobreposição de materiais, no qual a colagem assume um papel estrutural na construção da imagem e na topografia da superfície da obra.

Horário: De terça a domingo, das 10h às 18h 

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