Bibliotecando em Tomar 2026
Na edição deste ano, que tem como tema central “Entre o natural e o construído”, será homenageado o escritor Valter Hugo Mãe.
8 Mai a 9 Mai 2026
Pelo décimo sexto ano consecutivo, realizar-se-á nos dias 8 e 9 de maio na cidade templária que lhe dá nome, o festival literário Bibliotecando em Tomar, que tem como presidente da Comissão de Honra o Doutor Guilherme d’ Oliveira Martins, numa organização conjunta das seguintes instituições: Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, Agrupamento de Escolas Templários, Câmara Municipal de Tomar, Centro de Formação ‘’Os Templários’’, Centro Nacional de Cultura, Instituto Politécnico de Tomar e Rede de Bibliotecas Escolares. Este ano será homenageado o escritor Valter Hugo Mãe, um autor com uma vasta, multifacetada e premiada obra, que será analisada e interpretada por especialistas e leitores.
Mantendo a tradição, no encerramento da edição do ano passado, foi enunciado o tema em torno do qual os debates deste ano se centram, «Entre o natural e o construído», propondo-se examinar as tensões dialógicas entre essas duas realidades, o modo como mutuamente se interpenetram, se confrontam e se redefinem.
A relação entre o ser humano e os territórios – sociais, culturais, afetivos, políticos – que percorre nunca foi de mera dominação ou contemplação passiva. Como nos recorda Michel de Certeau em l’invention du Quotidien (1980), «l’espace est un lieu pratiqué», argumentando que cada território se forma através dos gestos, percursos e apropriações daqueles que o atravessam. As nossas construções — sejam elas físicas, sociais ou simbólicas — emergem sempre de uma relação dialógica com os territórios que habitamos, entre o natural e o que construímos.
No tempo presente, esta reflexão ganha novos contornos com a emergência da inteligência artificial e das tecnologias digitais, que vieram abalar as nossas conceções tradicionais de «natural» e de «construído». No seu estudo La technique et le temps (1994), o filósofo francês Bernard Stiegler introduz o conceito de «tecnologia», entendido como uma forma de memória. Defende que toda a tecnologia não é simplesmente um conjunto de ferramentas, mas um aspeto fundamental da identidade humana, profundamente enraizado no nosso desenvolvimento histórico. Se o homem inventa a tecnologia, a tecnologia inventa o homem, sugerindo que as ferramentas criadas se constituem, por sua vez, como recriadoras dos seus criadores. Mais recentemente, Gérard Bronner, num estudo paradigmaticamente intitulado À l’assaut du réel – Vers la post-réalité? (2025), alerta para os perigos que corre o real, suplantado pelo construído. O autor considera que as sociedades modernas enfrentam desafios crescentes na compreensão da realidade, marcada por uma supremacia do desejo individual em detrimento da aferição e certificação, originando distorções, simplificações ou mesmo a negação de factos estabelecidos, em que as redes sociais e uma profusa divulgação de relatos divergentes e versões alternativas assumem papel principal.
Este encontro pretende ser um espaço de partilha e de escuta, onde diferentes perspetivas se cruzam— da literatura às artes plásticas e visuais, da política social às preocupações ecológicas, da inteligência artificial à inteligência natural — para, em conjunto, refletirmos acerca das tensões explícitas e implícitas entre o natural e o construído. Num belíssimo texto, Valter Hugo Mãe fala-nos do lugar central das bibliotecas na construção de cada indivíduo. Diz o autor: «As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir.» (Jornal de Letras, Artes e Ideias, maio de 2013). Nestes dois dias, também este evento, dando pleno significado à sua nomeação, procura ser o local de embarque para viagens mediadas pelos nossos ilustres convidados.
Programa completo e mais informações em http://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/

