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Teatro

A Escola da Noite recebe "Pareciam homens ao longe" de Gil Vicente Tavares

Espetáculo teatral com textos e encenação do dramaturgo brasileiro Gil Vicente Tavares. Em cena estarão três peças curtas, uma das quais inédita. A guerra, os totalitarismos, o medo e a violência de género são alguns dos temas dos textos apresentados.

© Eduardo Pinto

7 Mai a 31 Mai 2026

Teatro da Cerca de São Bernardo
Cerca de São Bernardo, 3000-097 Coimbra
Nesta sua primeira encenação em Portugal, Gil Vicente Tavares apresenta as peças “Praça de Guerra” (inédita), “Os Javalis” (1998) e “Os Amantes II” (2006). A primeira, que funciona como um prólogo ao espectáculo, refere-se aos efeitos de um conflito étnico. Nas suas próprias palavras, o autor procurou tratar, “no isolamento e sofrimento de duas vítimas de uma possível guerra separatista, ou racial, ou enfim, idiota, a possibilidade de entendimento, compreensão e discernimento do que é a vida além de uma fronteira”. “Os Javalis” é uma “metáfora política”: o argumento gira em torno de uma suposta invasão da cidade por javalis, que devoram os habitantes e ameaçam exterminar a raça humana. O diálogo que estabelecem entre si os dois desconhecidos e supostos únicos sobreviventes do ataque permite uma reflexão sobre o consumismo, as referências e as identidades do ser humano contemporâneo. “Os Amantes II”, inspirada pela pintura homónima de René Magritte, adopta uma linguagem seca e directa. A súbita avaria da televisão exacerba as tensões e a incomunicação entre um casal até ao ponto da mais dura insensibilidade perante o drama com que está confrontado. A solidão, a alienação e a violência doméstica marcam com grande intensidade dramática toda a peça.

O tempo que passou desde a escrita destes textos e as transformações sociais ocorridas nas últimas décadas acrescentam-lhes novas possibilidades de leitura e tornam-nas particularmente pertinentes para a Europa dos nossos dias. No caso de “Os Javalis”, temas como a desinformação, a ameaça dos totalitarismos e a dominação através do medo ganham ainda mais acuidade; em “Os Amantes II”, a reflexão sobre a incomunicabilidade, mesmo (ou sobretudo) entre os mais próximos, sai reforçada pelo inevitável confronto com as alterações tecnológicas nos meios de comunicação que se registaram nos últimos vinte anos.

O espectáculo é a 82.ª criação d'A Escola da Noite, construída em parceria com o Teatro NU, no âmbito das comemorações do 20.º aniversário deste grupo brasileiro fundado e dirigido em Salvador (Bahia) pelo encenador brasileiro. Para além de Gil Vicente Tavares, o projecto conta com a participação do reputado cenógrafo e figurinista Márcio Medina, baseado em São Paulo e um dos directores de arte mais requisitados da cena paulista contemporânea. A interpretação está a cargo do elenco residente da companhia: Ana Teresa Santos, Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Ricardo Kalash. A iluminação foi concebida por Danilo Pinto, o som é assegurado por Zé Diogo e o vídeo por Eduardo Pinto. O espectáculo estará em cena no Teatro da Cerca de São Bernardo entre 7 e 31 de maio de 2026, com sessões de quinta a domingo (excepto dia 24 de maio).

O teatro para questionar e incomodar
Comentando o tempo que separa a escrita destas peças e a sua estreia nos palcos portugueses, Gil Vicente Tavares escreve no programa do espectáculo: “seguimos com estilhaços de guerra nos destroçando a alma. Com javalis batendo em nossa porta, nossa mente e nossas ideias. E homens tolos idiotizados por telas, violentando mulheres e mutilando as belezas do mundo. E sempre os homens como protagonistas da desgraça”. Felizmente – afirma – “temos o teatro para tentar questionar, incomodar, provocar”.

A dramaturga italiana Letizia Russo, responsável pela tradução para italiano das peças “Os Javalis” e “Os Amantes II”, reconhece nas obras de Gil Vicente Tavares um “pequeno milagre”: “é uma escrita que, pelo estilo, pelos objectos de pesquisa artística e humana e pela forma, se coloca corajosamente longe das modas, do folclore, das supostas tendências da cena teatral ocidental. Aquilo que me atingiu, como autora e tradutora das suas peças, é a capacidade de manter vivos ao mesmo tempo dois ou até mais teatros dentro de uma escrita só: o uso das personagens, da matéria teatral enquanto história, trama, desenvolvimento, é filtrado através dos óculos que o teatro do passado nos entregou, e a capacidade de Gil é usar esses tais óculos para reinterpretar o mundo em que nós vivemos, nós, agora, e aqui, de maneira nova, original no sentido etimológico do termo”. “Os Javalis” consegue “falar do presente eterno da humanidade com ironia, força, sem piedade, com uma solidariedade para com as misérias do nosso ambiente humano e cultural, e a capacidade de se fazer ouvir própria das crianças na sua pureza”. Em “Os Amantes II”, destaca a forma “desapiedada” como retrata cada um de nós: “com um pequeno aperto no coração descobrimos que, nessas personagens que andam perdidas nos poucos metros quadrados de uma casa, à procura do único contacto com o mundo que para elas é possível, há o retrato do nosso vizinho, do nosso amigo, do nosso familiar, até descobrirmos que é também de nós próprios que este texto fala”. A peça – conclui Letizia Russo – “é um texto profundamente humano, cuja força poética está no seu esforço de universalização, na recusa da lógica das nações, longe também da crónica bruta: nesses laivos de solidão é possível reconhecer uma humanidade ofendida, pisada e despida da possibilidade de procurar a felicidade, mas ainda digna, ainda capaz de gritar, ainda capaz, se quisesse, de dar a vida”.

Gil Vicente Tavares, A Escola da Noite e o teatro brasileiro
A Escola da Noite acompanha o percurso artístico de Gil Vicente Tavares (1977) desde 1998, quando a companhia se apresentou em Salvador, na sua primeira digressão ao Brasil. Gil Vicente era então um jovem e promissor autor, cuja carreira tem vindo a confirmar as expectativas. Encenador, dramaturgo, compositor e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas, Gil Vicente Tavares é formado em direcção teatral (Prémio Revelação COPENE de Teatro, actual Braskem, pela sua peça de formatura – Quartett, de Heiner Müller) e doutorado em artes cénicas, com a tese “A herança do absurdo”. Em 2006, criou o grupo Teatro NU. Com mais de dez espectáculos realizados, o grupo tem acumulado prémios e participado em alguns dos principais festivais de teatro do país.

Destacam-se: Sargento Getúlio (2011), Prémio Braskem de melhor espectáculo e melhor actor; Quarteto (2014), Prémio Cenym de melhor grupo de teatro, melhor qualidade artística, melhor iluminação, melhor maquilhagem e melhor cartaz; SADE (2015), Prémio Fapex de Teatro, Prémio Braskem de melhor texto e Prémio Cenym de melhor elenco; Os pássaros de Copacabana (2017), Prémio Braskem de melhor encenação e melhor actor e Prémio Cenym de melhor monólogo nacional; Um Vânia, de Tchekhov (2018), Prémio Braskem de melhor espectáculo, melhor encenação e melhor actor; As tentações de Padre Cícero (2018), Prémio Braskem de melhor texto e melhor direcção musical.

Em 2019, dirigiu a sua primeira ópera, Lídia de Oxum, de Lindenbergue Cardoso e Ildásio Tavares, com a participação da Orquestra Sinfónica da Bahia, com a qual tem trabalhado na direcção de diversos concertos. Destacam-se ainda trabalhos como a encenação de Alzira Power, o trabalho como co-argumentista do filme Cidade Baixa, de Sérgio Machado, e a co-autoria do espectáculo Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia. Em 2024, dirigiu o espectáculo A visita da velha senhora, de Dürrenmatt, pela Companhia de Teatro da UFBA, com a actriz Ítala Nandi. O espectáculo foi finalista do Prémio Shell na categoria destaque nacional.

Em 2000, Gil Vicente Tavares realizou um estágio de dramaturgia e encenação n'A Escola da Noite, com o apoio da associação Cena Lusófona. O convite para a encenação que agora vai estrear decorre destas ligações e da atenção que a companhia tem dado ao teatro de língua portuguesa (e ao brasileiro em particular), desde a sua fundação. Do reportório da companhia fazem já parte – recorde-se – obras de autores como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Cleise Mendes, Rubem Fonseca, Adélia Prado, Manoel de Barros e Bosco Brasil, para além de colaborações com encenadores/as como José Caldas, Antônio Mercado ou, mais recentemente, Silvana Garcia.

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