Exposições
Bartolomeu Cid dos Santos: Criar em Liberdade
A nova exposição da Casa das Histórias Paula Rego é dedicada à obra gravada de Bartolomeu Cid dos Santos, artista cuja trajetória se cruzou com a de Paula Rego.
14 Mai a 18 Out 2026
Curadoria: Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira
A relação de amizade e de admiração mútua entre os dois artistas, que perdurou várias décadas, consolidou-se durante os períodos em que viveram na capital britânica. Em 1956, Bartolomeu Cid dos Santos inicia os seus estudos de Gravura com Anthony Gross na prestigiada escola de arte Slade School of Fine Art e conhece Paula Rego, que se encontra no último ano do curso de Pintura na mesma escola. Durante a década de 1960, já enquanto docente da Slade, Bartolomeu Cid terá um papel determinante na aprendizagem das técnicas da gravura por parte de Rego. A artista testemunhou que terá batido à porta da sua oficina de gravura para aprender esta prática artística, descrevendo-o como “um professor extraordinário”, destacando o modo como “ensinava a técnica de uma forma muito simples, direta e clara”, levando os seus alunos a um contacto privilegiado com as obras dos grandes gravadores da Coleção do British Museum, “onde se pode pedir para tirar as gravuras para fora e estudar, e dava-lhes oportunidade para ver e tocar nos originais de Rembrandt, Goya e outros”. Numa outra entrevista, Rego terá afirmado que “quando existia a Sociedade de Gravadores em Lisboa, ele ensinou-me a fazer água-forte, a fazer gravuras a água-tinta”. Segundo ela, ele era um dos maiores gravadores, sendo por isso grande “admiradora do seu trabalho”, e tinha uma “visão e um uso dos pretos e brancos completamente únicos”.
A admiração recíproca é genuína. As suas afinidades artísticas traçam-se no percurso paralelo de ambos, numa direção que aponta para a figuração. Bartolomeu refere-se à artista em 1996, na sua correspondência, a propósito de uma exposição coletiva na Hayward Gallery (Londres), como “a única representante da Tradição da Pintura”, destacando igualmente a “grande qualidade pictórica” das suas obras de 2000. A cumplicidade artística acentua-se também a partir de referências que vão sendo partilhadas e que serviram de base para as suas práticas criativas. A obra de Jorge Luis Borges, a referência eterna de Goya na gravura, são as mais evidentes. Ideologicamente estavam também muito próximos no modo como denunciaram a ideologia da ditadura e a repressão através da sua arte.
A seleção de obras para esta exposição teve como ponto de partida estas cumplicidades/coexistências que se refletem nas práticas artísticas de ambos. Desde logo, o percurso na Slade, que constitui o primeiro núcleo da exposição. As primeiras águas-fortes e águas-tintas produzidas por Bartolomeu Cid recriam as paisagens urbanas de Londres e exploravam, como terá afirmado, os “pretos intensos e profundos e os belos meios-tons que Goya tão bem compreendia”. Estas gravuras criavam atmosferas densas e oníricas, que progressivamente diluíam personagens e objetos em presenças espectrais. As suas obras tinham já um caráter político, uma dimensão crítica que formalmente se aproximava da pintura metafísica, uma importante referência. Estas suas primeiras gravuras evocam o contexto político português, então dominado por um regime ditatorial, confrontando o espectador com um sentimento de inquietação em relação ao futuro, mas também uma expectativa de mudança.
O segundo conjunto de obras é constituído pelas imagens de desumanidade e pavor que o artista cria através de cenas fantasmagóricas e bizarras, coincidentes com o início em 1961 dos conflitos armados nos territórios coloniais portugueses em África. As suas gravuras ligam a experiência da guerra à repressão do totalitarismo e à defesa absurda do imperialismo colonial no contexto de uma nova ordem mundial que reconhecia o direito à independência aos territórios colonizados. Destacam-se personagens sórdidas e espectrais do passado, tais como bispos, marinheiros, reis e soldados, que emergem numa aparição grotesca e silenciosa para assombrar os portugueses, condenados a viver entre os escombros de um passado supostamente glorioso.
Numa série de trabalhos dedicada aos Bispos, o artista refletiu sobre o passado e o presente. A coexistência destes dois tempos poderá ter sido inspirada nas viagens com o seu avô após a Segunda Guerra Mundial. Em Espanha, atravessou as paisagens devastadas pela Guerra Civil e no Mosteiro de Santa Maria de Guadalupe participou na mórbida experiência de abertura do túmulo do rei Henrique IV de Castela, tendo até segurado a caveira do monarca. Para Bartolomeu Cid, a criatividade artística não era apenas um meio de expressão individual e um ato de liberdade. Ela permitia, de igual modo, estabelecer uma ligação entre o património cultural e histórico e a contemporaneidade. O encontro com a história ibérica teve consequências profundas, levando-o a revelar, através das suas gravuras, um legado de terror que associava à experiência comum de se viver sob um regime totalitário em Portugal e Espanha. Tal como Paula Rego, o seu principal alvo era o poder, cuja verdadeira face pretendia revelar. Subvertendo a imagem tradicional das figuras de autoridade, despojando-as da sua dignidade, Bartolomeu usa as figuras petrificadas e grotescas de bispos, consumidas pelo tempo, para denunciar o presente anacrónico dos países ibéricos, onde a autoridade religiosa ainda se impunha. A atmosfera metafísica dos banquetes, com as figuras cadavéricas dos bispos a consumir os frutos podres da exploração espiritual, sugere a sua sórdida aliança com a repressão ditatorial e o colonialismo.
Apesar de se encontrar em Londres, Bartolomeu Cid acompanhou atentamente os acontecimentos políticos em Portugal e acreditou no potencial da gravura para confrontar o ambiente conservador e repressivo e as tensões sociais e políticas vividas no seu país. A sua militância no Partido Comunista Português levou-o a contribuir, com a sua prática artística, para sensibilizar a opinião pública internacional para a violência e a repressão da ditadura e, em particular, a situação dos presos políticos. Após a Revolução de 25 de Abril, as suas obras celebraram o golpe militar, mas também produziu imagens que denunciavam a frágil situação política do país que, de acordo com a sua visão, estaria ameaçado pela antiga oligarquia política e pelos interesses capitalistas do estrangeiro.
No início dos anos 2000, o mundo é novamente confrontado com o terrorismo e novas guerras. Os ataques do 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos levaram à invasão do Afeganistão e do Iraque, definindo um contexto político e bélico que tem algumas semelhanças com o que é vivido atualmente. A série dos Ratos e as imagens de helicópteros ameaçadores têm ressonância com os nossos dias. Recorrendo à cultura popular e ao universo infantil, Bartolomeu Cid subverte a figura familiar do Rato Mickey para refletir sobre a sordidez e perversidade por detrás do poder autoritário e das novas formas de imperialismo neoliberal. O artista cria uma paródia obscura e assustadora, recorrendo à manipulação dos tons de negro, que tinham marcado o início da sua trajetória na gravura. Também nestes trabalhos a liberdade criativa é reiterada através de uma prática experimental que leva, por exemplo, à utilização da colagem, e amplia o campo da gravura.
O último núcleo de obras apresentado nesta exposição evidencia a importância da literatura na sua obra, permitindo encontrar iconografias e metáforas sobre a condição humana. Para si os livros de Franz Kafka e de Jorge Luis Borges complementavam-se na criação de uma “atmosfera inquietante e perturbadora”. Se as histórias de Kafka abordavam a relação do ser humano com o poder, os labirintos de Borges invocavam “a situação do Homem no universo.
O olhar atento sobre mundo e a sua incondicional defesa da democracia e da liberdade orientaram sempre produção gráfica de Bartolomeu Cid dos Santos. O seu trabalho, que abrange uma larga amplitude temporal, aponta para a existência de ciclos históricos de violência e destruição que procuram desfazer os valores democráticos e as liberdades coletivas, que têm, precisamente por essa razão, de ser constantemente reivindicados, protegidos e consolidados.
Horário: De terça a domingo das 10h às 18h
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